     *Nota de editor:* Devido  quantidade de erros tipogrficos
     existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto 
     verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrar a lista de erros
     corrigidos.

     Rita Farinha (Maio 2008)




VOLUMES PUBLICADOS


I--Russo por homizo
II--Odio velho no cana (1.^o)
III--Odio velho no cana (2.^o)
IV--A Mocidade de D. Joo V (1.^o)
V--A Mocidade de D. Joo V (2.^o)
VI--A Mocidade de D. Joo V (3.^o)
VII--A Mocidade de D. Joo V (4.^o)
VIII--A Mocidade de D. Joo V (5.^o)
IX--Lagrimas e thesouros (1.^o)
X--Lagrimas e thesouros (2.^o)
XI--A Casa dos Fantasmas (1.^o)
XVI--Othello--As redeas do governo
XVII--A mocidade de D. Joo V (drama).
XVIII--O amor por conquista (comedia)--O Infante Santo (fragmento).
XIX--Fastos da Egreja (1.^o)
XX--Fastos da Egreja (2.^o)
XXI--Fastos da Egreja (3.^o)
XXII--Fastos da Egreja (4.^o)




OBRAS COMPLETAS DE LUIZ AUGUSTO REBELLO DA SILVA
REVISTAS E METHODICAMENTE COORDENADAS


XI


ROMANCES E NOVELLAS--V


A CASA DOS FANTASMAS


EPISODIO DO TEMPO DOS FRANCEZES

2.^a EDIO

VOLUME I


LISBOA

Empreza da Historia de Portugal

_Sociedade editora_

LIVRARIA MODERNA
_R. Augusta, 95_

TYPOGRAPHIA
_45, R. Ivens, 47_

1908




A CAMILLO CASTELLO BRANCO


Seja-me licito, amigo, dedicar-lhe este esboo informe, fructo de
algumas horas de ocio. Quem melhor, do que o auctor de tantas
composies profundas na interpretao da vida, admiraveis na pintura do
corao e dos costumes contemporaneos, poder desculpar o muito, que
falta n'este quadro para sair menos imperfeito, e ao mesmo tempo
apreciar em um, ou outro trao, os bons desejos e os esforos do auctor?

A epocha, que escolhi, pedia pincel mais fino, e tintas mais vivas.
Tentei vencer-me, e desenhal-a. Sei que fiquei mui inferior ao ideal,
que tinha concebido, e receio mesmo, que o enfado dos leitores castigue
a ousadia do commettimento. Espero, que o seu nome applaudido sirva de
escudo e de defensor ao modesto livro, de que elle vae ser o maior
ornamento.

No o consultei para lhe offerecer este testemunho da minha antiga e
sincera amisade. Adivinhei a resposta, e ahi entrego em suas mos mais
este orpho, que sae a correr o mundo. Deus lhe conceda a sorte
propicia, que elle no merece, mas que s vezes uma boa sina proporciona
mesmo aos menos dignos.

Lisboa, 22 de Janeiro de 1865


                                          Luiz Augusto Rebello da Silva.





A CASA DOS FANTASMAS



I

Uma noite desabrida


Era de tarde. Tinham dado cinco horas, e o dia declinava rapidamente. O
mez de maio do anno 1808, anno assignalado de successos estrondosos na
peninsula, acabava, como tinha corrido quasi todo, entre diluvios de
chuva e ventanias. A noite, cujos primeiros veus j comeavam a cobrir
as terras baixas, em quanto os derradeiros raios do sol esmoreciam na
cora dos outeiros, avisinhava-se, toldada de castellos de nuvens, que
surgiam do sul, listrando o horizonte de barras cinzentas, rasgadas de
espao em espao pelos clares dos relampagos.

O ar estava tepido, ou antes quente, e todos os ruidos se iam calando
uns aps outros. A immobilidade das aguas, que no arrugava o mais leve
sopro; a das arvores, cujas copas pareciam petrificadas; e as sombras,
que avultavam mais pesadas de instante para instante, revestiam a
paizagem de um aspecto gelido. Uma lufada de vento, halito abrazado da
tormenta, passava solta por cima dos campos, acamando as hervas altas,
destoucando os arbustos, e saccudindo as ramas das oliveiras, dos
alamos, e das faias, e ia morrer distante no roncar soturno e rouco dos
troves. Algumas gotas, raras e grossas, caiam ento, e a luz, offuscada
por mais espessos vapores, sumia-se de subito para reviver depois, mas
timida e desmaiada, sem alegria e sem calor. As aves fugiam, cruzando-se
e pipitando; a solido quasi que no tinha echos; e um silencio lugubre
precedia a grande voz da tempestade, que ia principiar dentro em pouco.

Apezar das ameaas da atmosphera, um viajante trocando o conchego de
povoao commoda pelas inclemencias do tempo, tinha-se despedido da
hospitaleira casa, aonde jantra, e mettendo o p no estribo de pau, e
apertando as dobras da manta ribatejana, sem escutar os conselhos e
vaticinios amigaveis, estimulava a mula com as largas rosetas da
classica espora de correia, obrigando-a a espertar o passo por entre os
viosos pampanos, hoje gloria e gala da nobre villa do Cartaxo.

Em breve deixou atraz de si as vinhas, que, a esse tempo, (cultura
nascente) apenas verdejavam em uma pequena parte do terreno, que se
carrega agora de seus cachos, e achando-se em plena charneca, extendeu
os olhos pela bella e vasta planicie, desatada por algumas leguas de
ermo, no triste, nem agreste, mas tocado de risonha suavidade, e
rodeado de longes to puros e desafogados, que a alma se consola e
refrigera de extender por elle os olhos.

O aroma alpestre das plantas; aquelle pr do sol entre nuvens; os
lamentos da procella ao sul; e o vago indeciso de todo o quadro
compunham um espectaculo de opposies to firmes e to bellas, que o
viajante, quasi sem o querer, se deixou arrebatar por elle, e
insensivelmente foi imbebendo a vista nas formosuras rusticas, que de
todos os lados o convidavam. Suas feies, de uma gentileza viril e
sympathica, no inculcavam tedio ou cansao, mas impaciencia. A elevada
estatura no se encurvava sobre os ares, e as pupillas pretas e cheias
de fogo, se a miudo fitavam os trilhos enredados com estreitas fitas
sobre o verde sombrio da charneca, denunciavam mais receio de chegar
tarde a um ponto dado, do que temor de se ver assaltado pelo temporal no
meio da jornada.

A mula, que algumas horas de repouso tinham refrescado, como se
adivinhasse os desejos do amo, despejava o passo, e o caminho; mas a
noite e a cerrao ainda corriam mais.  claridade baa do crepusculo
seguiram-se as trevas; o cu forrou-se todo de negro; e os primeiros
furaces bramiram acompanhados de um trovo proximo. A chuva principiava
a fustigar de rajadas fortes o rosto do viajante, e a cegar-lhe a
estrada inundada dos dias anteriores, e arrombada em diversas partes. A
mula, apezar de afouta e vigorosa, atolava-se, tropeando a miudo. Na
ponte da Asseca, a varzea, que ella corta, parecia um immenso paul,
cujas aguas a cheia despenhada dos altos empolava com sussurros, que,
unidos aos silvos do vento e aos ribombos da trovoada, enchiam de horror
e de estrepito aquella scena, to repassada de grandeza e de magestade.

 esquerda os olivaes pendurados dos montes, que se encandeiam at
Santarem, estorciam-se com o vendaval.  direita os choupos e os
freixos, na beira dos vallados, vergavam tremulos e desgrenhados como se
mo gigante os dobrasse. O caminho parecia um mar, e os clares, em que
os cus pareciam abrir-se, golfavam de repente o seu fulgor sinistro
sobre este painel, que o tenebroso manto da procella tornava logo depois
a esconder.

Atravessando a ponte, por onde enxurrava quasi uma torrente, o viajante
procurou orientar-se. Ajudou-o uma luz ao longe. Seguindo por ella, no
fim de dez minutos encontrou-se junto do vulto massio de um palacio
arruinado, solitariamente erguido no meio das terras, e olhando quasi
como sentinella esquecida para um angulo da estrada. Em uma das seis
janellas sem caixilhos da fachada, atravs das fendas das portas de
dentro, ou antes das tbuas de forro pregadas em logar de vidros,
brilhava a luz que lhe servira de norte, e pelas gretas mal juntas das
frestas do andar terreo luzia o claro de um grande brazeiro talvez
acceso na cozinha. Applicando o ouvido sentiam-se estalar no lume os
troncos humidos, e escutava-se o meio alarido de algumas vozes e
risadas.

--Ah! exclamou o cavalleiro, detendo a mula, e derrubando sobre a cara
por um gesto machinal as largas abas do chapu de Braga, quebradas pela
chuva. Gente na casa Negra! Quem?!...

Depois de breves momentos pareceu tomar uma resoluo, e a passo,
chapinhando na agua, como se passasse um ribeiro, desviou-se, atravessou
para o outro lado, e cozido com o monte subiu por vereda ingreme at um
alto a tres ou quatro tiros de espingarda de distancia. Pelos corregos,
a uma e outra parte, estrepitavam verdadeiros riachos saltando pelas
pedras, e um relampago, fuzilando e extendendo como um lenol de fogo
por cima das trevas, descubriu-lhe repentinamente a casinha caiada, de
dois sobrados, tecto esguio, e duas janellinhas, que buscava. Cercava-a
um muro baixo de pedras soltas. O ruido monotono de uma roda, e a queda
de uma especie de cascata, sobrepujando o esparralhar da chuva, e os
gemidos do vento mostraram-lhe que estava na azenha de cima, ou no
moinho da _Raposa_, como diziam os visinhos dos arredores.

Sem se apeiar, o viajante bateu com o conto ferrado do cajado de
marmeleiro por duas vezes tres pancadas na porta, e esperou. No foi
necessario mais. Os latidos feros de um co de guarda, e logo depois
vagarosos passos descendo a escada, advertiram-o de que fra ouvido.

--Oh, de dentro! bradou.

--Quem bate?! perguntou uma voz cheia.

--Eu!

--Esse eu quem ?...

--Abre!...

--Pois no!... Ao mesmo tempo o ouvido fino do recem-chegado percebeu o
leve tinir dos fechos de uma espingarda a engatilhar-se.

--Antonio! Pelo rei e pela patria!...

--Ah?! Agora  outro cantar. L vou.

E calando o co, que pulava, ladrando e rosnando como furioso,
desencostou a tranca, tirou o ferrolho, e a chave rangeu duas voltas na
fechadura. Abriu-se finalmente a porta.

--Ento quem ? repetiu a mesma voz, em quanto a cabea se arriscava
fra no escuro, sem a mo largar a espingarda.

--Manuel Coutinho. Conheces-me agora? redarguiu o hospede, apeiando-se,
e expremendo do chapu a agua a escorrer em bica, e saccudindo a manta,
que no estava menos ensopada.--Que diluvio! murmurava por entre dentes
ao mesmo tempo. Se contina, nadam manh os saveis na tua horta,
Antonio da Cruz!

--Que se lhe ha de fazer! Como v. s.^a vem!... Bemdito e louvado seja
Deus!...

--Amen! Elle seja comnosco e nos ajude, que bem o precismos; redarguiu
o mancebo, porque o seu rosto moreno, mas fresco, e o cabello preto no
inculcavam mais de vinte e quatro a vinte e cinco annos.

--Cuidei que me recebias a tiro! disse rindo, e mostrando duas fiadas de
dentes finos, alvos, e eguaes, que uma dama franceza lhe invejaria para
ornar um sorriso galanteador.

--Bem v a noite?!... Depois a gente no sabe quem lhe quer mal, e uma
bala depressa entra... C me entendo!... D'ahi no esperava j por v.
s.^a!...

--No me esperavas?... mas eu tinha dito!...

-- verdade, que disse. Mas choviam raios e coriscos e sempre cuidei que
se deixasse l ficar em baixo. D-me a redea da mulinha. Ento no sahiu
como se queria? Foi um ovo por um real. Entre v. s.^a e enxugue-se. Vou
c  nossa arribana, com sua licena, arranjar a Ligeira, e  um ai em
quanto volto a accender-lhe o lume... Jesus! Santo Nome de Maria! Os
relampagos cegam. Parece que nos cae o cu esta noite na cabea com a
bulha l de cima!

Manuel Coutinho entrou. O interior da casa, muito seu conhecido, era de
apparencia singela e rustica. Suspensa do gancho preso em uma das vigas
do tecto a candeia allumiava-a escassamente, apezar de pequena. No meio
da parede do fundo rasgava-se a chamin baixa e ladrilhada.  direita
uma arca de pinho alta, sem fechadura, tinha em cima um cobertr de
papa, e sobre elle enroscado com uma fisga aberta  vigilancia em cada
olho, o gato preto do moinho, to absorvido na sua beatitude extatica, e
na sua pachorrenta immobilidade, que os latidos do co amigo e alliado
domestico, e as vozes do dono, nem um movimento lhe tinham podido
arrancar!  esquerda a barra de pinho pintado tremia sobre tres ps
validos. Na cabeceira um devoto registo do milagre da Senhora da
Nazareth correspondia a outro do glorioso confessor Santo Antonio,
pregado na parede com obreias. A manta sobre o enxergo e duas pelles de
carneiro compunham a roupa d'este catre de cenobita.

 direita, em todo o comprimento da casa, viam-se empilhados muitos
sacos de trigo destinados  m alveira da azenha. Os de milho jaziam
mais adeante em pilhas. A fina flr da farinha escapando-se pelas
aberturas revoava ao menor abalo, polvilhando tudo em roda. Por cima de
algumas pelles de lebre e de coelho, extendidas a seccar na parede,
pendiam o polvorinho de chifre com o fundo, ou rodella de pau, e a bolsa
de couro, ou chumbeiro, attestado de munio e pederneiras. Em um
armario, vasado no muro, e resguardado com sua cortina de riscado azul,
luziam, como prata, pelo aceio, a chaleira e a almotolia de lata, e
acastellavam-se duas rumas de pratos. Dos lados, sumptuosidade rara (!),
duas caarolas de folha de Flandres e cabos de ferro acompanhavam a
baixella de loua. Em uma prateleira por cima da chamin a caixa da isca
e alguns tachos e frigideiras de barro esperavam a hora de serem
chamados a servio activo.

Uma escada empinada, de degrus toscos, verdadeiro quebra-costas, subia
de um dos angulos para o andar de cima, aonde um alapo erguido e
quadrado abria as fauces, como se quizesse engulir os que entrassem. Era
ahi a labutao principal do moinho. As ms, rodando e zoando,
ensurdeciam casadas no ruido somnolento com a queda da levada, que por
uma longa calha de pau descia da preza a ferir a roda, e d'esta,
saltando em caches dos baldes, ia espadanar no canal, d'onde fugia
ainda espumante a regar as hortas e as terras dos visinhos.

Dois mochos de cerejeira brava, e uma poltrona de couro, roto e cossado,
rodeavam no sobrado de baixo uma velha mesa de pau, collocada no meio do
aposento por baixo da candeia de dois bicos. No meio d'ella um cangiro
de aza larga, bojudo e vidrado, com sua tampa de cortia guardava a
agua-p. Um copo de canada, limpo como crystal, um prato sobre toalha
alva, meia broa de milho com um garfo de cabo de pau ao lado, e uma
frigideira de sardinhas fritas annunciavam que a ceia do moleiro a
comear, quando fra chamado. A navalha de mola e de ponta, um rlo de
tabaco de picar, e algumas aparas d'elle, assim como duas capas de papel
de cigarros, estavam dizendo tambem o que elle fazia pouco antes da
visita inopinada lhe bater  porta.

Vejamos agora que razo de estado attrahia o mancebo a tal hora e por um
tempo similhante quella casa, e o que se passou alli n'esta noite
fecunda em incidentes para os personagens, que temos de metter em scena.




II

O moinho da Raposa


O mancebo approximou-se da mesa, picou do rlo uma poro pequena,
enrolou o cigaro entre os dedos, e, depois de o accender  luz da
candeia, assentou-se em um dos mochos, com os cotovellos fincados na
tbua, e o rosto entre as mos, no sem primeiro ter tirado do cinto um
par de pistolas inglezas e uma faca de matto hespanhola, encubertas com
as compridas abas do gabinardo, que trajava.

Antonio da Cruz appareceu instantes depois.

Era robusto, largo de hombros e de peitos, mas esbelto. Trigueiro, e
queimado do sol, as suas feies lembravam o typo arabe. Os beios
grossos sorriam com franqueza, e, apezar de muito rasgada, tinha graa
na bcca, mesmo quando descubria os trinta e dois dentes alvos e agudos,
como os do felpudo molosso, que saltava em volta d'elle. O cabello rente
e crespo cortado quasi em bico sobre a testa era negro como azeviche. O
nariz revirado na ponta dava certo chiste  physionomia; e nos olhos
pardos e vivos como scentelhas brincava uma expresso de finura natural
e de malicia jovial, que lhe caa bem, e logo  primeira vista o faziam
bem quisto.

De mediana estatura, mas proporcionado, era tido por um dos homens mais
forosos d'aquelles contornos. O seu nome servia de grito da guerra nas
aldeias contra a brutalidade dos valentes de arraial. Nas praas de
touros em Villa Franca, em Salvaterra, ou na capital nenhum forcado o
egualava em apanhar os bois de cara, ou de cernelha. A cavallo era um
centauro; a p no tinha par no salto, ou na carreira; em mettendo a
espingarda ao rosto aonde punha o olho punha a bala. O seu cajado
manejado por mos de mestre varria as feiras, zombando de facas e de
espadas.

Sobrio como um anachoreta, presentido e vigilante como um mohicano, o
seu maior defeito era ser impetuoso e assomado de mais. Em o sangue lhe
subindo  cabea, e em principiando a picar-lhe a pelle com pontas de
alfinetes, segundo elle dizia, cegava-se, corria direito ao perigo, e,
sem attender a nada, atirava-se a um precipicio.

Temente a Deus, tinha tanto de bom amigo como de implacavel inimigo.
Portuguez e patriota extremo, amaldioava os francezes como jacobinos, e
chorava de saudade pelo principe regente, D. Joo, ao qual s vira duas,
ou tres vezes, em sua vida. Manuel Coutinho affeioou-se a este caracter
firme, honrado, e decidido. O moinho e a horta pertenciam ao mancebo, e
Antonio trazia-os de renda. Ligado  conspirao, por emquanto quasi
inoffensiva, urdida em Lisboa contra o governo de Junot, conspirao que
regia o _conselho_ denominado _Conservador_, secretamente instituido no
dia 5 de fevereiro d'aquelle anno para auxiliar a restaurao do throno
legitimo e da independencia, Manuel Coutinho confiava no humilde
camponez, e communicava-lhe at recados de importancia. Executor
discreto d'estas misses arriscadas, Antonio da Cruz comportava-se
sempre com exemplar acerto, no s enganando o faro da policia de
Lagarde, cujos espies corriam por toda a parte, mas supportando
resignado por amor de seu amo (assim lhe chamava), e da boa causa
desafios e remoques, que em outra occasio seguramente custariam caros
aos aggressores.

--Se no  hoje o fim do mundo, bradou elle entrando e saccudindo a agua
de cima de si, no sei quando o ser! Mas o lume em um instantinho est
a arder. A lenha  secca. Ora, diga, meu amo: v. s.^a traz sua vontadica
de comer, no? Do Cartaxo aqui  um pedacito menos mau... e a chuva e o
vento cavam c por dentro como enxada em nateiro...

--No. No me faas nada. Se o appetite vier aqui temos de mais. Agora o
lume sim.

--Essa  boa. Ha de perdoar; no senhor. Graas a Deus o Manuel nunca
foi torto, nem aleijado, e ainda esta manh, antes de almoo, no perdeu
a polvora e o chumbo. Andavam aquelles fidalgos a saltar nas vinhas, e
trouxe-os no alforge. Como os quer?...

E apontava para os dois coelhos mortos e pendurados junto do almario.

--Guizo-lh'os de molho de vilo n'um abrir e fechar de olhos, e depois
ha de beber-lhe em cima um, ou dois copos de um vinhinho, que me deram,
e que fica a gente a chorar por mais...

--J te disse. O vinho e os coelhos guarda-os para manh. Agora melhor
me sabe este cigarro, do que todos os manjares. Accende o lume. Temos
que falar.

O mancebo suspirou como quem se sente opprimido de tristeza, e lucta em
vo por se vencer.

O Antonio da Cruz, curvo sobre a caixa da isca, a assoprar a chamma,
ouvia-o, e percebeu-o, mas calou-se. A mecha pegou, e d'ahi a um momento
levantava-se da lareira um claro vivo e alegre, tingindo de vermelho as
paredes e os pobres moveis da casa.

--Bem! disse Manuel Coutinho. Isto j parece outra cousa! Senta-te, e
come!

--Salvo o respeito, saiba v. s.^a que no tem pressa.

--Tem. Come e despacha-te. Depois falaremos.  preciso sair logo...

--Ah! Ento a cousa aperta? Para termos de sar por uma noite
d'estas!...

--Pde bem ser a ultima da vida de umas poucas de pessoas! exclamou o
mancebo, pondo-se em p agitado.

--Melhor o ha de fazer Deus, senhor Manuel! redarguiu o moleiro com a
sua tranquillidade apparente, que illudia os que o conheciam mal. Com
sua licena! ajuntou sentando-se  mesa, e rompendo o assalto contra a
broa e as sardinhas, regadas de copiosas libaes de agua-p. Os sacos
pesam seis alqueires, e por aquella escada acima apalpam as costellas. 
saude de v. s.^a! A minha pena  que no quizessse provar dos coelhos e
do vinho do convento de S. Francisco. Olhe que os padres sabem escolher
do fino!...

--Que gente era aquella, que esta noite vi na Casa Negra? perguntou
Manuel Coutinho, que as proezas gastronomicas de Antonio j no
maravilhavam, porque fra testemunha d'ellas muitas vezes.

--Gente na Casa Negra? Na Casa Maldita?!... accudiu com a bcca cheia, e
estremecendo.

--Sim! Vi luz em cima, na terceira janella, e ouvi risadas e vozes no
andar terreo. No sabes o que ser?!

--O meu padre Santo Antonio nos accuda! Cousas do demonio, que desde que
me entendo  o unico morador d'aquelle casaro! Mas v. s.^a est bem
certo!?... Gente a estas horas alli! No pde ser!

--Tanto pde, que havia fogo na cosinha, e gente a rir, a falar, e a
aquecer-se a elle!

Antonio da Cruz enguliu  pressa o ultimo boccado, poz  bcca cheio a
trasbordar o copo de agua-p, e pousando-o vasio com um suspiro, tirou o
barrete e benzeu-se.

--Olhe, senhor, creia v. s.^a o que lhe digo! tornou meio atalhado.
Gente d'este mundo no era de certo. Por estes arredores no havia quem
se atrevesse!... Ah, Jesus, Santo Nome de Maria! accrescentou mais
pallido. Deram ainda agora,  noitinha, um tiro no Antonio Simes. Dizem
que o mataram; mas o corpo no appareceu! Querem ver que foi parar a
alma...

--Antonio! accudiu o amo um pouco severo. Alma que vae no volta! Isso
so medos de criana. Os hospedes da Casa Negra esto vivos, como eu, e
tu. Agora o que preciso saber, e j,  o que so e o que fazem alli!...

--Ser o sargento Cabrinha, aquelle jacobino! Andou esta manh pelo
sitio com as milicias. S se fr elle! O maldito ri-se de Deus e do
diabo. Ha de chegar-lhe a sua vez.

--Prendeu alguem?!...

--Dizem que sim, ahi para os sitios do Casal do Ouro.

--Ah! exclamou o mancebo. Capaz seria elle? Se fosse quem receio!...
Ouviste dizer?...

--Um velho e sua filha. Os nomes no m'os souberam dar.

--Nem  preciso! interrompeu Manuel Coutinho em voz soffocada, e com os
olhos inflammados. O infame Lagarde cumpriu a promessa. Ver se a de um
portuguez lhe fica atraz! Os nomes sei-os eu; dizia-m'os o corao antes
de aqui entrar. Mas!...

Conteve-se, e cau em reflexo profunda. Antonio da Cruz, tambem de p,
e animado, desde que sabia que no era com os demonios, ou com as almas
do outro mundo a contenda, esperava, olhando para a espingarda, que uma
palavra do amo lhe pedisse o apoio do seu brao.

--Depois de curta pausa, o mancebo, renovadas as escorvas das pistolas,
e cingida a faca de matto, virou-se para o seu confidente e disse-lhe:

--Queres saber como se chama o velho, que o sargento arrasta preso a
Santarem para o entregar  vingana dos francezes?  Paulo de Azevedo
Carvalho. E sua filha...

--A senhora D. Leonor?! A noiva de v. s.^a!... Jesus... Pobre menina!

--Buscam-o para o processar como rebelde desde o caso de Mafra.
Tinham-se escondido na Aramanha, e esse villo do sargento Cabrinha, por
trinta moedas prometteu entregal-o. No o achando j alli, correu os
arredores, e de certo o foi encontrar no Casal do Ouro pela denuncia...

--Do Sapo! Foi o Sapo, aposto! Por isso o patife andava desde hontem de
orelha fita e focinho aguado! S ao moinho, aqui, veiu duas vezes! Ah!
Se eu soubera! Partia-lhe outra perna. No importa. O que no se acaba
dia de S. Braz n'outro dia se faz. No as perde.

--Antonio! Paulo de Azevedo no ha de entrar na cadeia da villa, nem na
de Lisboa. Esta noite a Casa Negra ter outra historia talvez mais
feia que juntar  sua. Aprompta-te!  meia noite samos. Pdes resar por
alma do sargento, se o encontro!




III

Duas paginas da historia d'este seculo


Antes de proseguirmos, para maior clareza d'esta mui veridica narrao,
cujo fio poderia enredar-se com as explicaes de todos os momentos,
pedimos venia ao leitor para resumir em breve noticia os acontecimentos,
que formam o fundo da pintura, ou antes do esboo, que nos propozemos
traar.

A revoluo franceza, representante das foras e interesses da
humanidade, herdeira no s das aspiraes e esperanas, mas tambem das
dores e resentimentos de muitos seculos, saudada em 1789 com transportes
de jubilo, em 1793 j tinha convertido a innocencia do primeiro
enthusiasmo nos accessos febris de um patriotismo sombrio, dando o
espectaculo, novo e incrivel, dos maiores crimes a par dos rasgos mais
heroicos, e das virtudes mais sublimes.

S e contra todos arremessou audaciosamente a luva aos adversarios de
fra e s faces internas. Decapitou no cadafalso a realeza; repelliu
os exercitos da Europa colligada; atravessou aps elles as fronteiras
inimigas; suffocou nas provincias insurgidas as saudades e as iras do
regimen decado; e vigorosa, mesmo ao sar do bero, sobreviveu aos
delirios e excessos da anarchia. Nada a detinha, nada a assombrava!
Admirada de uns, execrada do maior numero, mas invencivel,
precipitou-se, demolindo tudo no seu impeto, at, esvada do sangue
vertido nos patibulos e nos campos de batalha, car por fim, quasi sem
alentos, nos braos do mais illustre de seus capites, d'aquelle de quem
Siys dissra com persuaso prophetica: que seria o senhor, porque
sabia, queria, e podia tudo!

A ordem restituida por elle, a victoria inseparavel de suas armas, o
esplendor de tantas aces applaudidas, os milagres de uma vontade, a
que ainda obedeciam os obstaculos e o destino, compozeram essa rara
epopa, de que Napoleo I, grande como Cesar, ou maior talvez, foi ao
mesmo tempo o heroe e o assumpto.

Guiada pela providencia, a sua mo, ao passo que ia lavrando nas
primeiras paginas da historia d'este seculo as datas memoraveis, com que
se abriu sua agitada existencia, unia, pesada como a de Attila, gloriosa
como a de Carlos Magno,  queda do passado a transformao do presente.

A fortuna muitos annos constante seguiu-o de triumpho em triumpho, desde
as planicies da Italia, immortalizadas pela sua mocidade, at aos gelos
do norte para os quaes a sorte parecia attrahil-o, e aonde o claro de
Moscow incendiada havia de illuminar depois os funeraes do imperio.

Marengo, Eylau, Essling, Wagram, e cem estaes assignaladas pelos
prodigios do seu genio, viram a terra gemer abalada pelo galope dos
esquadres; viram os thronos vacillar, ou alluirem-se; viram os
principios nvos germinarem grvidos do futuro nos sulcos rotos pela
inundao, quando a onda vencida recolheu ao antigo leito! Abrazada em
odio, ou cortada de espanto, a Europa contemplava aquella epocha de
terremotos e de transfiguraes, sobresaltando-se com os decretos da voz
soberana, que falava pela bcca de bronze dos canhes, e inclinando-se
serva, mas fremente, na presena das aguias, que passavam e revolviam
profundamente o mundo das idas e o mundo dos factos, desde as bases e
os limites das monarchias, desde o solo e a familia, at ao estado
physico e social, at  organizao politica e economica.

N'esta lucta de gigantes, a Frana e a Inglaterra, travadas como dois
athletas, combatiam sem escolher as armas. Feriam-se sempre e em toda a
parte! Percebiam que o duello era mortal, e que s podia terminar pela
ruina de uma d'ellas. Aboukir e Trafalgar tinham assegurado a supremacia
dos mares ao leopardo britannico. A Austria impaciente, mas resignada, a
Prussia rendida em Jena, a Russia desenganada em Austerlitz e Friedland
proclamavam a vaidade da liga continental.

Mas Bonaparte, na maior elevao a que fra dado subir, tocado o apogeu,
no foi superior  fragilidade humana. Os deslumbramentos da grandeza
trouxeram a vertigem. O abysmo chamou pelo abysmo. Esquecido de que s
Deus  omnipotente quiz e ousou tudo! Geraes inteiras immoladas
semearam de cadaveres o rasto de seus passos. Os povos amaldioavam-lhe
a ambio como flagello. As coroas, voando da cabea dos reis legitimos,
arrancadas pelos furaces da guerra vinham cingir a fronte plebea dos
eleitos da gloria. Retalhando o corpo exanime das nacionalidades
desmembradas pela espada, edificou na areia, suppondo fundir em bronze
esses reinos e dynastias ephemeras, que um aceno tirou do nada, que os
seus revezes sepultaram para sempre.

Repartindo pelos irmos e os generaes os diademas e os estados, queria
ter n'elles satrapas, e no soberanos. Murat em Napoles, Joseph em
Hespanha, Luiz na Hollanda, e Jeronymo na Westphalia representaram as
peripecias d'esta ultima e arriscada phase de uma grandeza, que na
usurpao dos sceptros e na provocao das antipathias populares
encontrou o precipicio, a queda, e a lio!

Portugal, no extremo occidente, abrigado pela distancia das revolues,
que desmoronavam tudo ao meio dia e ao norte da Europa, no se eximiu
afinal de participar tambem, e com largo quinho, das infelicidades, que
a nenhum paiz poupou a sorte. A iniciativa do marquez de Pombal,
interrompida pela morte do soberano, que vinte e sete annos o
sustentra, apezar das conspiraes da nobreza, e da adverso da familia
real, acabou com o monarcha to notavel pela firmeza. O poder do
ministro eclipsou-se com o ultimo suspiro do principe, e com elle
expiraram as tradies viris, e os commettimentos reformadores. Um
gabinete quasi todo composto de aulicos, sujeito ao veto do confessor
valido, substituiu o mando odiado do marquez; e este poude vr ainda do
seu desterro a mo dos emulos alada contra a arvore, que plantra,
arvore que apenas principiava a cobrir-se de flres, e  qual a inveja
no deixou amadurecer os fructos.

A branda e devota indole da rainha atalhou em parte os bons desejos dos
homens, que se prezavam de ainda respeitarem as maximas do grande
reinado. Jos de Seabra, Martinho de Mello, e aps elles D. Rodrigo de
Souza Coutinho queriam continuar no caminho encetado por Sebastio Jos
de Carvalho; porm divididos em partidos (o francez e o inglez),
offuscados pelas intrigas dos hypocritas, e detidos pelos escrupulos,
que assustavam a consciencia da filha de D. Jos I, luctavam muitas
vezes em vo com a corrente, e os seus esforos a miudo naufragaram
contra os artificios dos cortezos, e contra as declamaes dos beatos,
senhores de todas as avenidas do pao.

As providencias uteis, que honraram o governo de D. Maria I,
derivaram-se do predominio conquistado sobre o animo da rainha, sua
penitente, pelo arcebispo de Thessalonica, prelado isento de
preconceitos e ornado de virtudes. Mal elle desceu ao tumulo, a viso
terrivel dos patibulos, erguidos por seu pae, tornou-se uma allucinao
perenne, e as trevas da demencia apagaram para sempre a razo vacillante
da princeza.

D. Joo, seu filho, empunhou as redeas do Estado, primeiro sem titulo
expresso, depois com o de regente. Amigo da tranquillidade, avsso a
complicaes e lances arrojados, humano e bondoso, era todavia mais
sagaz e penetrante, do que supporia quem o conhecesse mal. Em suas mos
a auctoridade soberana podia enfraquecer-se e rebaixar-se, como
aconteceu, mas ferir os subditos, ou irritar os alliados, no!

Comprada a preo de grandes sacrificios, a neutralidade foi a politica
preferida pela timidez do principe, e ao mesmo passo o arbitrio prudente
aconselhado pelas circumstancias. A republica tinha legado ao directorio
esta amizade inerte, mas facil de conservar; e Napoleo, mais altivo, ou
mais exigente, olhando quasi Portugal como colonia de Gr-Bretanha, no
encobria j no consulado as suas repugnancias pela dynastia de Bragana.

Dictando-lhe a paz em 1801, e obrigando-a a submetter-se a condies
injustas, nutriu acaso a esperana de que, no podendo executal-as, ella
lhe proporcionasse um pretexto? No hesitando em animar a cobia e a
rivalidade do gabinete de Madrid, queria costumal-o a invadir-nos as
fronteiras, offerecidas como pasto quella ambio estimulada?

Seja o que fr, a Hespanha tendo-se valido de nossas armas no
Roussillon, pagou-nos com ingratides o soccorro, separando a sua causa
da nossa, unindo-se a Bonaparte para nos humilhar, e aproveitando a
sombra dos estandartes francezes para se apoderar de Olivena, que nunca
mais restituiu!

Na mente de Napoleo I, a ida de precipitar do throno os Bourbons de
Hespanha, como os expulsra de Napoles e da Etruria, era ida, que
lanra raizes firmes. No seu tribunal tambem a casa de Bragana era
condemnada por outras culpas. Accusava-a de seguir, como satellite, o
astro da Gr-Bretanha, e queixava-se de que usasse e abusasse da
neutralidade em beneficio dos interesses commerciaes dos inglezes, os
quaes, por meio da oppressiva utopia do bloqueio continental, cuidava
expellir dos mercados da Europa, fechando-lhes todos os portos desde
Lisboa at Cronstadt!

Inspirado occultamente por mr. Canning, o governo portuguez promettia
excluir o pavilho britannico de suas praias, e no duvidava affianar
uma declarao de guerra simulada; mas prender as pessoas e sequestrar
as fazendas dos subditos do rei Jorge, como exigia em nome da Frana o
seu ministro, mr. de Rayneval, era violencia, que as relaes anteriores
e a ruina de grossos capitaes nacionaes e estrangeiros lhe prohibiam.
Recusou-a sem ostentao, mas com vigor.

Napoleo queria tudo, ou nada! Para elle Lisboa e o Porto eram como
puras feitorias britannicas, e, se no lh'as entregassem, estava
resolvido a mandar os seus soldados conquistal-as. Contava com a
repulsa, e no meio dos mil cuidados, que o salteavam ento, acabava de
pr o ultimo remate ao seu plano. O tractado secreto de Fontainebleau
assignado em 27 de outubro de 1807, affianava-lhe pela cumplicidade da
Hespanha a estrada militar, de que precisava para realizar a invaso.

Junot, acampado em Salamanca  testa de vinte cinco mil homens promptos
 primeira voz, apenas aguardava as ultimas ordens. Duas divises
castelhanas, uma de dez, outra de seis mil soldados, deviam coadjuvar as
operaes do exercito francez, apoderando-se a primeira do Porto, do
Minho, e de Entre Douro e Minho, assenhoreando-se a segunda da provincia
do Alemtejo e do reino dos Algarves. O pacto ajustado entre Bonaparte e
Carlos IV, desmembrava o reino em proveito de ambos. O Principe da Paz
lucrava um estado independente de quatrocentas mil almas, composto das
provincias do sul, e denominado o principado do Algarve. A rainha viuva
do duque de Parma, filha querida do monarcha hespanhol, em compensao
da Etruria cedida ao gabinete de Saint-Cloud, recebia um reino de
oitocentos mil habitantes, formado de duas das provincias do norte, com
a cidade do Porto por capital, denominado o reino da Lusitania
Septentrional!

A marcha dos francezes correu to rapida e atropellada, quanto era viva
e ardente a impaciencia do imperador!

Bonaparte ordenra, que entrassem a tempo de salvar das mos dos
inglezes a nossa esquadra e os thesouros, que ella podia transportar
para a America. A familia real no o preoccupava tanto. Eram alguns
prisioneiros de menos a guardar! Nunca a obediencia foi to fiel. Junot
voou! Passando a raia em Alcantara, precipitou-se, como torrente, por
meio do paiz, que o ciume da independencia e o amor aos principes
naturaes podia tornar-lhe todo hostil. A cada passo mil perigos o
advertiam da temeridade. Aqui eram serras alpestres, aonde um punhado de
homens resolutos facilmente o sepultaria com seus companheiros de armas!
Alm eram solides, aonde a falta de todos os recursos exaggerava as
miserias com que luctava desde que sara de Salamanca!

Os rigores do inverno tempestuoso, as estradas arrombadas e cobertas de
agua, os campos inundados, a falta de viveres, e o odio dos moradores,
dizimavam suas fileiras rareadas pela fadiga, pela fome, e pelas
enfermidades. Tudo se conspirava para o punir e demorar a invaso; o
clima, os habitantes, e o territorio que se via obrigado a atravessar!

A firmeza do general triumphou. No dia 27 de novembro suas avanadas
batiam quasi s portas de Arroios, e nas praias de Belem o principe
regente dava o ultimo beijamo aos vassallos consternados!

No caes e na praa no se via seno lagrimas e confuso. Os parentes
despediam-se, abraados, como se no esperassem tornar a vr-se. Os
escalares e bergantins carregavam para bordo as mobilias dos fidalgos e
as alfaias mais preciosas do pao e da patriarchal. Nas ruas apinhava-se
o povo attonito. Cercada do cortejo doloroso do infortunio, a familia
real era o alvo, em que se empregavam os olhos de todos.

No meio das damas, aafatas, camaristas, e criados, pallidos e
suffocados, o principe D. Joo, sua esposa a princeza D. Carlota, seus
filhos, e sua me a rainha D. Maria I, cujos gritos de demencia cortavam
o corao, diziam o ultimo adeus  terra do seu bero!

A multido soluava e estendia os braos em vo, como se quizesse
retel-os. Um decreto datado da vespera tinha declarado que os conselhos
pusillanimes prevaleciam. Em vez de chamar o reino s armas, imitando o
valor de seus antepassados, D. Joo ia refugiar-se alm do Atlantico, no
Rio de Janeiro, deixando nomeada uma regencia  qual deferia a triste
misso de abrir as portas da capital s tropas inimigas.

Demorada no Tejo pelos temporaes, a esquadra portugueza s largou as
velas no dia 29. Nessa mesma noite arrastavam-se desfallecidos pelos
arrabaldes de Lisboa os invasores, cuja sombra sossobrra o peito de um
descendente de D. Joo I! Quasi ns, descalos, esmorecidos, recrutas
imberbes com as espingardas cobertas de ferrugem, inuteis, ou partidas,
os soldados do corpo de occupao infundiam mais d e piedade, do que
temor e respeito no animo dos que os viam desfilar. Escudava-os, porm,
o nome de Napoleo com o seu prestigio. A hora dos desenganos ainda no
tinha batido.

Junot entrou no dia 30, hospedou-se no palacio do baro de Quintella, e
poz algumas auctoridades suas. No dia 13 de dezembro, depois de uma
parada no Rocio, a bandeira tricolor foi arvorada nas ameias do
castello. Comeava o primeiro acto do attribulado drama, cujo desenlace
encerrou a capitulao de Paris, e a abdicao de Fontainebleau! As
tropas hespanholas acompanhavam os movimentos dos alliados. O general
Taranco apoderou-se do Porto; o marquez del Soccorro, senhor do
Alemtejo, adeantou-se at Setubal. As foras dos invasores cercaram-nos
por todas as partes.

s saudades cada vez mais vivas da dynastia desterrada, aos
resentimentos provocados pelo jugo estranho, que, arrogando-se fros de
conquista em plena paz, cada dia era mais detestado, uniam-se os
aggravos e violencias inseparaveis de uma occupao, que s podia
sustentar-se pelo rigor.

Amanheceu finalmente o dia 13 de fevereiro de 1808, o qual, rasgando o
vu de todo, revelou sem disfarce os designios de Bonaparte. Rodeado de
soldados e canhes, ao som das salvas das fortalezas de mar e terra,
Junot proclamou sem hesitar a usurpao insolente de todos os direitos
da soberania. A casa de Bragana, disse elle no seu edital, acabou de
reinar. O imperador dos francezes ser de ora em deante o protector e o
arbitro dos destinos da monarchia! Para consolar os portuguezes da perda
da independencia, o duque de Abrantes prometteu-lhes mil beneficios, e
assegurou-lhes que um dia at o Algarve e a Beira Alta haviam de ter o
seu Cames!

Os habitantes preferiam a epopea viva  epopea escrita, e poucos mezes
depois com a espada em punho recordavam as proezas de seus avs,
repellindo os estrangeiros.

As armas nacionaes picadas e substituidas pela aguia corsa, a
contribuio forada, decretada em 7 de dezembro de 1807, e repartida
pelos moradores abastados de Lisboa, que nem o pretexto da resistencia
tinham offerecido  cubia, irritando os animos excitaram tumultos na
capital e rixas em varias terras.

Correu sangue de parte a parte. Nas provincias os roubos impunes, os
desacatos da soldadesca nas egrejas, e as tropelias de tropas
licenciosas e pouco disciplinadas, ainda cansavam mais a paciencia
publica.

A sorte da capital e do Porto no era menos infeliz. Lagarde, detestado
pela sua tyrannia na Italia, e Perrot assaz inventivo em oppresses,
cobriam de uma rede de delatores os pontos, onde suppunham que podiam
abrigar-se os seus adversarios, faziam leilo publico da clemencia, e
abriam, ou cerravam as portas das prises com chaves de ouro. Tinham
pressa de enriquecer!

Adivinhariam que o seu governo no havia de durar muito? Os factos
provaram mais esta vez ainda os perigos de to errado systema. Filho da
violencia, apenas o desamparou a fora que era o seu unico apoio,
despenhou-se nos abysmos, que elle proprio afundra.




IV

O bem soa, o mal voa


De ordinario voltam-se contra os poderes odiados os proprios meios
empregados para algemar os povos. As visitas domiciliarias, as buscas,
as denuncias, as multas, os encarceramentos, todos os instrumentos de
tortura moral, em fim, excogitados pelo genio assolador de Lagarde,
produziam effeitos contrarios aos que elle esperava colher, ulcerando o
orgulho nacional, enfurecendo as populaes, e predispondo-as para
vingarem no primeiro ensejo todas as offensas de uma vez.

Em Mafra, aonde um conflicto casual custra a vida, ou o sangue a alguns
soldados de Junot, a crueldade da represso, confiada ao general Loison,
acabou de exasperar os animos. O desditoso Jacintho Correia expiou com o
supplicio a culpa, quasi geral, da averso aos invasores.

Estes rigores, longe de as firmarem, tornaram mais frageis as bases da
dominao estrangeira, que a todos os instante via desabar o edificio
vacillante do seu poder. As devassas e monterias ordenadas contra as
pessoas implicadas n'esta guerra surda, mas implacavel, ameaando alguns
innocentes, apenas ros do horroroso delicto de aborrecerem a usurpao,
recrutou em favor da reaco patriotica numerosas e decididas adheses.

Paulo de Azevedo Carvalho, que no Moinho da Raposa ouvimos citar como
uma das victimas da intendencia geral da policia, salvo quasi por
milagre, graas  rapidez da fuga, das garras dos emissarios de Lagarde,
vaguera de asylo em asylo, acossado de perto, mas sempre protegido,
desde Torres Novas at Santarem pela generosa cumplicidade, que lhe
patenteava todas as portas, do palacio at  choupana, apagando logo
depois com discreto silencio o menor vestigio de seus passos.

Uma imprudencia ajudou os que o perseguiam. Sua filha partiu de Torres
Vedras para ir encontrar-se com elle, e os olhos de argos da policia
seguiram-a na jornada at ao humilde casal, escondido nas mattas da
Aramanha, onde a esperava Paulo de Azevedo, e onde lhe abria os braos a
hospitalidade rude, mas sincera, do honrado fazendeiro Antonio Simes.

Disfarados em mendigos ou em jornaleiros, os agentes de Lagarde
depressa descobriram o foragido no seio da casa rustica, em que se
abrigava. Assaltaram-a de noite com um cordo de milicias s ordens de
Estevan Cabrinha sargento no regimento de Rio Maior, e capaz de vender o
sangue de me e irmos, uma vez que o preo correspondesse. Falharam,
porm, todas as precaues. Cabrinha errou o salto. Avisados a tempo o
pae e a filha evadiram-se na vespera, e o sargento s colheu da ruidosa
diligencia as maldies de Antonio Simes, maldies e despresos, que
estava costumado a engulir, como ossos do officio, mas que registrava
cuidadosamente para as descontar aos devedores na hora opportuna.

D'esta vez a divida no esperou muito. Uma busca de contrabando sobre
denuncia falsa proporcionou-lhe o desejado pretexto. Antonio Simes da
Aramanha deu-lhe o gosto de entrar dias depois sob seus auspicios na
cadeia de Santarem, quasi arrependido da soltura de lingua, com que
tinha lanado em rosto ao perseguidor as lagrimas e a ruina das
familias, e os crimes contra a patria. O fazendeiro, todavia, no gemeu
nos ferros de el-rei, como se dizia ento, sem jurar pelas costellas ao
malsim. Deante de testemunhas protestou moel-o com o cajado de
zambujeiro, especie de clava, que achatava um homem como uma bolacha, e
vozes chocalheiras avisaram o sargento da promessa caridosa. Cabrinha
enfiou. O intendente geral da policia Lagarde servia-se do mastim e
aulava-o contra o Ribatejo, no regateando ao mercenario venal as
recompensas; mas era duvidoso que podesse eximir-lhe o corpo do premio,
affianado pela gratido de muitas victimas.

Em quanto Paulo de Azevedo respirasse livre, o amor proprio e a bolsa de
Cabrinha padeciam, e no era elle homem que dormisse, quando o interesse
o chamava com voz activa. Suppondo o cavalleiro de Mafra ainda proximo,
deixou-o socegar por dias, e valendo-se da ardileza de um subalterno
sagaz, digno assessor de suas virtuosas emprezas, o coxo Gaspar Preto,
conhecido pela expressiva alcunha do _Sapo_, mandou-o bater os
arredores, na ida de que a vista de lince do agente, com mais
facilidade desencantaria, ainda quente, o ninho aonde se refugiava a
presa.

No se enganou. O _Sapo_, cujos brios avivra a esperana de rasoaveis
lucros, entrou sem demora em campanha, e tres dias depois trouxe-lhe a
agradavel nova de que o cavalheiro e sua filha se cobriam com o tecto
modesto de uma casa, pouco mais do que choupana, solitaria, e situada
nas abas da risonha povoao do Casal do Ouro no meio das vinhas e
olivedos, que o vestem de verdura.

O sargento no perdeu tempo. Apenou seis milicianos fieis ao copo e ao
cangiro, e, acompanhado por elles, prendeu de tarde e  traio a Paulo
de Azevedo e a Leonor. Temendo, porm, que o povo se alvoroasse, apezar
das ameaas da trovoada metteu-se a caminho, no sem olhar a miudo para
traz, receioso, sobre tudo na charneca, de que a bala perdida de uma
espingarda lhe testemunhasse o reconhecimento grangeado por seus longos
e valiosos servios!

O homem pe, e Deus dispe! A fortuna que o protegra, detendo Manuel
Coutinho no Cartaxo, sem o que teria encontrado o seu amigo e a sua
noiva presos, (lance de certo fatal ao sargento), mostrou-se logo
contraria a Cabrinha, no demorando uma hora, ou duas mais, tambem, o
temporal, o qual, perto da Ponte da Asseca rebentou com violencia tal,
que o constrangeu,  falta de melhor, e no sem grandes arrepios de medo
seus, e dos soldados, a descanar aquella noite no palacio arruinado,
temido na visinhana pelo significativo nome de _Casa Negra_, ou de
_Casa Maldita_.

O _Sapo_, entretanto, no ficra ocioso.

Sabendo que Antonio Simes da Aramanha fra solto da cadeia de Santarem
por ordem do juiz de fra, e que n'essa mesma tarde vinha dormir ao
Casal do Ouro, doeram-lhe de repente todos os ossos, como se o cajado
monumental lh'os triturasse, similhante a mangual na eira, e assentou
livrar-se a si e ao sargento da promettida sova, interceptando na
estrada o robusto fazendeiro com uma bala.

Esperou-o, pois, atraz de um vallado, em azinhaga escura e estreita, ao
anoitecer. Escutando o ruido de passadas cheias renovou a escorva,
engatilhou a espingarda, metteu-a  cara, e com a tranquillidade, com
que poderia desfechar sobre uma lebre, disparou por entre as ramas sobre
um vulto, que vinha dobrando a quina do caminho, e que soltando um grito
agudo baqueou por terra.

--Deus seja com a sua alma! exclamou o assassino, saltando o vallado, e
contemplando prostrado, e com o rosto banhado em sangue o corpo da
victima, que todavia conheceu pela estatura e pelo trajo ser Antonio
Simes da Aramanha.

--Est com Christo! ajuntou depois de olhar para elle instantes. Este j
no morde. Falta o Antonio da Cruz!... Tambem lhe ha de chegar a sua
vez!

Feito este responso, torcendo a perna, e apressando os saltos, em que
despejava mais caminho do que os sos, o coxo passou por entre as
silvas, e atravessando pelas vinhas e hortas, veiu sar muito distante
do logar do crime, ao alto do valle.

Soou a noticia do tiro dado em Antonio Simes. As mulheres, que se
recolhiam do trabalho do campo, encontraram o corpo ensanguentado na
azinhaga, e correndo e clamando, tocaram a rebate com a historia do
homicidio por todas as portas. Juntou-se gente, accudiram alguns amigos,
que o morto contava na terra, e em procisso encaminharam-se ao sitio
aonde o desgraado fazendeiro devia jazer, que era aonde a azinhaga
cortava entre a Ponte de Asseca e a Casa Negra.

Caso inaudito, e que fez erriar de espanto as grenhas hirsutas dos
aldees, por baixo dos barretes de l e dos chapus desabados! Nem rasto
da victima! Smente duas poas de sangue, e a cama feita pelo cadaver na
terra molhada denunciavam a verdade das camponezas e a existencia do
delicto!

Quem roubra aquelle corpo  sepultura christ? Quem fra o assassino? A
estas duas perguntas respondia a superstio, que s poderia ter sido o
inimigo do genero humano, porque a azinhaga no se via trilhada seno
dos ps curtos e deseguaes de um homem, que, fugindo, deixra
assignalada no vallado a feio dos joelhos. Aonde acabavam as passadas
fortes e largas dos sapatos de Antonio Simes no havia indicio de mais
nenhumas.

A chuva cando em torrentes, os relampagos allumiando as trevas de
clares repentinos, e os troves estalando uns aps outros, depressa
dispersaram os curiosos, que a luz de dois archotes, saccudidos e
apagados pelo vento, no confortava muito contra os terrores do inferno,
sobre tudo em to medonha noite.

Benzendo-se, e acotovellando-se uns aos outros, recolhiam-se transidos,
ensopados, e cheios de apprehenses, quando alguns mais audazes, que
tinham ousado arriscar a vista na direco do palacio arruinado notaram,
que duas das janellas, sempre cerradas, deixavam transparecer por entre
as taboas mal juntas uma claridade livida, brilhante na escurido como
os olhos de um demonio!

Esta ultima prova do poder sobrenatural do tentador foi to decisiva
que, trocando o passo ligeiro pela mais despedida carreira, os bons dos
aldeos, persuadidos de que Satanaz reunia na Casa Negra a sua crte
plenaria, no pararam seno  porta da egreja parochial, chamando pelo
prior em altas vozes.

D'onde vinha ao palacio arruinado a m reputao, que afugentava de sua
visinhana os moradores dos logares proximos? Que trasgo, ou que duende
vexava com suas maleficas travessuras a casa ennegrecida pelo tempo, e
rodeada de eterna solido?

Construida nos principios do seculo XVII, o gosto depravado do
architecto traduzia-se nos dois pavilhes lateraes, que acompanhavam o
corpo do edificio, esmagados pelos tectos, e massios como duas
cidadellas, carregadas de tristeza. Revestidos de pesadas cantarias, com
as janellas estreitas e de volta baixa, e as portas abafadas de lavores
e ornamentos desgraciosos, o ar e a luz s a medo podiam circular pelas
immensas salas e pelos extensos e escuros corredores, em que se
repartia.

Solar desamparado, por mais de um seculo via-se as ervas crescerem nos
pateos e eirados, as eras enrolarem-se pelos muros gretados, e os
telhados verdejarem cobertos de plantas parasitas. Os ancios mais
antigos na terra, no se lembravam de nunca terem visto o dono d'aquella
casa condemnada, e todos os annos os invernos, succedendo-se, e
penetrando pelas brechas no reparadas, accumulavam ruinas sobre ruinas,
estragos sobre estragos.

As lendas populares explicavam o destino singular d'aquelle palacio, o
qual de certo vira dias mais ditosos, quando as malvas e ortigas no
afogavam os canteiros de seus jardins, quando os entulhos no cegavam os
canos  fresca lympha, que jorrava em trnos de agua crystallina para os
largos tanques de marmore, quando, finalmente, as colgaduras de couro e
os pannos de raz no pendiam em farrapos das paredes fendidas e
esverdeadas, e as manchas de humidade no desfiguravam os relevos e
molduras dos tectos.

Que horroroso crime expiava o palacio deserto, cujos vigamentos pdres
estalavam com o peso de telhados arrombados, cujos moveis roidos de
caruncho se desfaziam no p da velhice e do abandono?

Contava a tradio que dois irmos rivaes haviam disputado a mo de uma
formosa dama, causa innocente do seu infortunio, e que o menos ditoso na
porfia, como Iago, convertra em desespero a felicidade do competidor,
envenenando-lhe de suspeitas os amores. No valeram prantos e supplicas
contra as allucinaes do ciume! O sangue da esposa e o sangue do filho
innocente, doce fructo do seu enlace, vertido em um momento de delirio,
vingou os zelos do marido, que suppunha lavar com elle a nodoa do nome e
do brazo. Horas depois, mas sem remedio, descobriu-se a perfidia, e o
desgraado caiu em si do delirio, e viu-se tornado o verdugo de si mesmo
e dos que mais estremecra no mundo. O que passou n'aquella noite entre
os dois irmos  segredo, que dorme com ambos na eternidade. Smente ao
romper da aurora mais um cadaver descia ao jazigo da capella, e o
infeliz, sobrevivendo  morte de todos os affectos, e algoz de todos
elles, na edade de vinte e cinco annos, quando partiu para no voltar,
mettia horror  vista. Os cabellos e o rosto eram j os de um velho.
Bastaram poucas horas de remorso e de agonia para lhe consumirem a vida
e a mocidade.

O lucto do senhor cubriu a casa, theatro de tantos crimes. Deshabitada,
fugiam d'ella donos e creados como de um logar maldito. Sempre rma, e
sempre muda, s os echos accordavam n'ella com o anniversario do
terrivel drama. O velho guarda, ao qual primeiro foram confiadas as
chaves, despertando sobresaltado por horas mortas, subiu ao andar nobre,
e caiu sem sentidos, paralyzado pela viso terrivel, que se lhe
representou alli.

Viu uma frma branca e suave, com os cabellos esparzidos sobre o collo,
atravessar, chorando, as salas. Apertava ao peito uma creana
adormecida, e seguia-a outro espectro ameaador com o punhal erguido.
Atraz, uma figura contemplava aquella scena rindo com satanica alegria.
Os lustres accesos por si mesmos entornavam torrentes de luz livida
sobre os aposentos. Os gemidos e soluos das victimas, o tinir dos
ferros, as risadas e as imprecaes retratavam ao vivo o tremendo
espectaculo, em que o parricidio e o fratricidio tinham desempenhado os
principaes papeis. O velho enlouqueceu de terror.

Desde ento ninguem mais quiz tomar conta do palacio. Os morgados
deixaram-o car em ruinas a pouco e pouco, e quando os francezes
sequestraram por ausente os bens do fidalgo, aquellas paredes infamadas
no acharam comprador. O fisco no quiz para si seno a posse das
terras, e arrendou-as. Parece, todavia, que a invaso dos estrangeiros
excitra a clera das potencias sobrenaturaes, porque nunca se tinham
mostrado to malfazejas e ruidosas. Um allemo excentrico, apostando
hospedar-se alli uma noite inteira, foi achado ao amanhecer sem fala,
nem movimento, e seis mezes depois ainda tremia quando lhe lembravam a
aventura da Casa Negra.

Era, pois, desculpavel o susto dos aldees. Vendo a luz coar-se atravs
d'aquellas janellas sempre escuras, e no achando o corpo de Antonio
Simes no sitio aonde fra assassinado, tudo attribuiram aos maleficios,
e escudando-se com o amparo da egreja, invocaram a proteco do parocho,
persuadidos de que as iras divinas, provocadas pelas abominaes dos
jacobinos, haviam quebrado a lousa das sepulturas, soltando os espiritos
das trevas para flagello e confuso dos inimigos de Deus e de el-rei.

Entretanto, cousa notavel (!) n'esta assembla dos homens bons do logar,
como diria um foral de nossos avoengos, faltava o Joo da Ventosa, o
orador popular por excellencia, o Hortencio, o Eschino laureado
d'aquellas visinhanas! O que o detinha? Pouco timorato por indole, e
at para a epocha e para a educao assaz limpo de abuses, trazia de
renda as terras da Casa Negra, pegadas com uma horta sua; mas se alguem
lhe tocava na ruim visinhana do palacio, prendia-se-lhe de repente a
voz, e uma visagem avinagrada torcia-lhe o semblante. Era mais orthodoxo
n'este ponto, do que o cura. Os contos de vises e de almas penadas, que
repetia, no concorriam pouco para entreter o pavor dos companheiros de
copo e de touradas, os quaes se espantavam, de que elle tivesse animo
para metter o arado e a enchada em terras, que mais deviam reputar-se
vinculadas ao demonio, do que administradas pelo bondoso morgado, que as
disfructra.

Mas como as terras eram excellentes e criavam bem, e como, no sendo
affrontado por competidores, elle as trazia quasi pelo que queria dar
por ellas, o Joo da Ventosa continuava a amanhal-as, e a servir-se das
officinas do palacio, e at de algumas casas do andar terreo. Peccado de
avareza que as almas pias e tementes a Deus prognosticavam, que lhe
seria funesto um dia, arriscando-se a que o demonio, enfadado com o
atrevimento, levasse pelos ares n'um furaco os bois, as charruas, o
lavrador, os carros, e os telhados!

Nunca lhe viam o trigo e o milho na eira, que no rosnassem por entre
dentes: Queira Deus que o meu compadre uma vez se no arrependa. De
parceria com o demo nunca ninguem medrou! O Joo, como bom christo,
ouvia-os, suspirando, queixava-se da carestia dos tempos, que obrigava o
pobre a fazer po at das pedras, e ia attestando de saccos o celleiro,
dizendo sempre que muitas noites no podia pregar olho com o alarido
infernal, que a l por cima.

Dadas estas informaes essenciaes, que o leitor benevolo desculpar,
tornemos  nossa historia, e acompanhemos as diversas pessoas, que esto
em scena, esperando por ns, tanto no Moinho da Raposa, como na Casa
Maldita.

Quanto aos honrados aldees, apinhados defronte da porta do reverendo
prior, no nos d cuidado a sua inquietao. O parocho, consolando-os
com duas maximas em mau latim de orelha, prometteu-lhes exorcismar,
mesmo de longe o espirito maligno, e recommendou-lhes que se recolhessem
e abafassem depressa, porque a noite estava medonha, e o anno corria
infamado de pleurizes e catharraes. Dito isto lanou-lhes a beno da
janella, e foi sentar-se  mesa para no deixar esfriar a ceia. As
ovelhas imitaram o pastor, e meia hora depois, acalmado o alvoroo,
reinava na aldeia o mais profundo socego, apenas interrompido pelos
latidos de algum co impertinente, e pelas rajadas da chuva e do vento,
com que a tempestade aoutava as copas das arvores, e fustigava os
telhados das casas.




V

No ha atalho sem trabalho


Transportemo-nos sem demora ao andar baixo da Casa Negra.

As duas portas da fachada esto fechadas, mas um estreito postigo, que
abre para o pateo, apenas se acha cerrado. Entremos por elle, e,
seguindo o som das vozes, continuemos, apalpando no escuro as paredes,
que se esfarelam de humidade pelo comprido corredor.

 uma especie de dormitorio ladrilhado com portas  direita e 
esquerda, provavelmente accommodaes dos creados do palacio, quando
fra habitado. As taboas do tecto, podres e despregadas, ameaam cahir
sobre a cabea, e aqui e acol montes de calia dos muros esboroados
promettem um desabamento proximo. No topo uma porta derreia-se pendente
a meio cutelo do ultimo leme enferrujado.

Atravessemos depressa! Estamos em uma casa de abobada, fria e surda, com
duas frestas engradadas. Subamos aquelles tres degraus, e guiemo-nos
pela claridade baa, e pelo alarido que da extremidade de outro corredor
nos esto avisando de que na estancia immediata conversam, ou disputam
muitos homens.

No fim do corredor apercebem-se os vos de duas escadas interiores,
cujas vigas e degraus carcomidos tremem de velhice. Uma fenda larga
racha ao meio a grossa parede, que as divide. Duas portas com travessas
cerram a entrada das escadas, lanadas dos lados em ramos divergentes
para o andar de cima.

Empurremos agora as taboas mal juntas de outra porta, que nos veda a
vista, e adeantemo-nos. O espectaculo que vamos presenciar vale a fadiga
a que nos sujeitmos.

 a cozinha, terrea e toda de abobada, com fornalhas ao fundo e chamins
enormes. Uma immensa pia de pedra  direita, e uma mesa tambem de pedra
 esquerda, compunham a mobilia primitiva. Na lareira ardem e estalam
grossos troncos de arvores, cortadas em verdes, e  roda da chamma
afogueada e crepitante, sentam-se os novos hospedes do palacio. Pelas
tres janellas lateraes sem vidraas sopra o temporal s rajadas, e a
chuva salpica dentro fustigada pelo vento; dos canos das chamins, meio
alluidas, escorre a agua, e geme o vendaval, afogando os silvos em
sussurros prolongados. O claro dos relampagos, golfando quasi sem
interrupo, allumia de phantasticos e subitos clares as paredes e o
cho lageado da enfumnada, sombria, e vasta quadra.

No recanto, formado pelo angulo da chamin, e pelo angulo de um grande
armario embocetado, esconde-se, quasi suspensa, uma escada de caracol,
toda de pedra, ainda menos mal conservada. Defronte da porta da sahida
dois arcos de volta mui baixa, parecidos a bccas de furna, communicam
para a cave e para a arrecadao, ambas subterraneas e extensas.

Uma especie de lampio, em que so mais as folhas de papel azeitado, do
que os vidros, baloua-se pendente de cadeia de ferro presa no tecto.

Uma tosca mesa de quatro ps, coberta de toalha, cuja alvura
desappareceu debaixo da ramagem caprichosa das nodoas de vinho e de
gordura, levanta-se no meio da casa. Pratos e garfos, um tacho colossal
de migas com a classica colher de pau enterrada na appetitosa assorda;
dois cangires de vinho, e canecos monstruosos, uma cesta de laranjas ao
p de uma frigideira de queijos brancos, ladeiam a pea capital do
brodio campesino, um cabrito acerejado, rodeado de batatas, e credor de
tentar a gula do mais austero cenobita.

Finalmente, sobre a mesa de pedra, coberto com um capote de cabees, do
talho pouco airoso dos chamados Jossinhos, com um tronco por
travesseiro, e um panno ensanguentado sobre a cara, jaz um vulto, que a
immobilidade rigida dos membros, e duas vellas uma aos ps, outra 
cabeceira, dizem claramente ser um cadaver.

De vez em quando os olhos dos que velam bem contra vontade o seu ultimo
somno, voltam-se para elle, e afastam-se rapidamente, como se temessem,
que a trombeta final, soando mais cdo, o despertasse. O sargento
Cabrinha e o seu honrado confidente Gaspar Preto, o _Sapo_, as pessoas
conspicuas da assembla nocturna, em que a nossa indiscreo introduz o
leitor, so as que olham mais a miudo, e de cada vez que fitam vista
n'aquelle corpo inerte, um calafrio arrepia-lhes a espinha dorsal, e um
suor de mau agouro, apezar da temperatura, borbulha na testa de ambas.
Dariam tudo por se verem a cem leguas da companhia d'aquelle morto, cujo
sangue o seu remorso, como que est avivando mais em manchas vermelhas
sobre o sudario, que lhes esconde o rosto.

Os principaes auctores concordam com o logar e com os accessorios.

Comecmos pelo chefe, como  razo.

A physionomia de Estevam Cabrinha no desmente a reputao. Conta pelo
menos sessenta annos, mas pde melhor com elles, do que outros, menos
robustos, poderiam com quarenta. A testa esguia e deprimda lembra a
fronte felina, e a mobilidade de duas profundas rugas, cavadas logo por
cima dos sobrolhos, ainda torna mais sensivel a similhana. Faces
encovadas, beios sorvidos, barba revirada, e por cima da pelle uma cr
assanhada de amora mansa, no lhe permittem suppor-se por certo nenhum
Cupido, nem seccar-se, como Narciso, de paixo pela belleza propria.

O nariz, adunco, em frma de bico de papagaio, caa como apagador,
ornado de botes vinosos, sobre a bcca. Os olhos, cujo raio visual se
torcia com sinistra expresso, tinham aquelle tom bao e frio de
pupillas, que revela quasi sempre as almas traioeiras. Curto de
pescoo, largo de hombros, e prendado com uma corcova asss volumosa,
imita nos movimentos lentos o pesado garbo do urso dos Alpes.

O ventre proeminente, e as pernas delgadas provam, que pouco tinha que
agradecer  providencia as graas do busto. Os cabellos hirsutos,
empastados na testa, alargam-se como duas orelhas derrubadas sobre as
fontes, e terminam por um rabicho esplendido de meio covado de comprido,
danando enfeitado de seu lao de fita preta sobre a farda,
polvilhando-a de ps, e ensebando-a de banha.

Um bigode, quasi todo branco, espetado nas guias, como as sedas de um
chicote, e o resto da cara rapado e escanhoado cuidadosamente, afinam
perfeitamente o typo singular e repugnante d'este personagem funesto,
que as desgraas civis fizeram sobrenadar com as escumas sociaes, mas
que as gals cdo, ou tarde, ho de recolher, como filho prodigo, se as
iras populares se lhes no anteciparem.

Trajava a farda de milicias, de panno azul ferrete, botes e vivos
brancos, abas de tesoura, e gola de espeque. Os cales de uniforme e as
polainas atraioavam-lhe a magreza das pernas. A espada de bainha preta
e copos de roca descanava fra do boldri a seu lado, e a alabarda,
insignia do posto, via-se encostada da outra parte.

O _Sapo_ merecia a alcunha. Teria trinta annos. Era todo branco-papel,
cara e cabellos, como se um moleiro o tivesse amortalhado em um sacco de
farinha, mas d'aquelle branco livido e sepulcral, que nos enoja e
repugna, quando contemplmos qualquer reptil asqueroso. Uma queda em
pequeno tinha-lhe deixado em memoria a deslocao da perna esquerda,
que, torcida quasi em rosca de parafuso, o obrigava a andar aos saltos
como a r, ou a agachar-se, como o animal immundo, cujo nome o baptismo
dos visinhos substituira ao seu.

Quasi sem nariz e beios, vesgo, e da altura de um rapaz de nove annos,
no mostrava no rosto ponta de barba, e quando se ria escarnava as
gengivas e os dentes, de modo, que as mulheres lhe chamavam por escarneo
o bcca de tubaro. Agil e matreiro, como a raposa, a sua actividade era
incansavel, a sua consciencia larga como o peccado, o seu corao duro
como um penhasco. Caador dos mais destros, andarilho infatigavel apezar
das pernas, curioso e falador como um cento de comadres, ouvia, sabia, e
aproveitava tudo.

Accusavam-o de no perdoar aos outros a fealdade propria, e de se
felicitar com os alheios males. Auctor de alguns furtos industriosos,
espio e delator por officio, assassino por vocao, Gaspar Preto, como
o imperador romano, desejaria ao genero humano uma s cabea para lh'a
decepar de golpe. Vestia cales curtos atacados sobre as meias de l,
botas de couro branco e salto de prateleira, collete e vestia de
belbutina com botes ccos de metal amarello, e cinta escarlate muito
apertada ao corpo.

A espingarda, sua fiel companheira, estava sempre  mo, e a tiracolo
encruzavam-se-lhe sobre o peito as correias do polvorinho e do
chumbeiro. A navalha de ponta e de cabo de osso, que trazia na cintura,
era afamada em toda a comarca pela habilidade, com que a jogava, ou com
que sabia atiral-a de arremesso aonde punha o alvo.

Os cinco homens da milicia e da ordenana, que acompanharam o sargento
na diligencia ao Casal do Ouro, no merecem meno especial. Aldeos
corpulentos cabeceavam de somno ao calor do lume, e bocejavam de fome ao
tinir dos pratos, que um creado do Joo da Ventosa principiava a pr em
cima da mesa. O Joo, sim, esse  que destaca de todo o grupo pela
figura, pelos gestos, e pelo aspecto na realidade digno de exame. Ser
homem de quarenta e cinco annos, mas no inculca mais de trinta e oito.
Bem posto e proporcionado de membros, mais esbelto, do que robusto, 
primeira vista, mais engraado, do que foroso na apparencia. A cara
redonda e os beios grossos e sensuaes, o olhar fino e malicioso, e a
bcca cheia de riso, na sua mocidade tinham feito d'elle o enlevo e o
adonis das bellas e namoradas raparigas d'aquelles contornos; porm
debaixo d'estas frmas quasi delicadas escondia elle vigor pouco vulgar,
assim como o sorriso meio travesso, que lhe bailava nos labios,
disfarava uma firmeza e penetrao mui pouco usuaes.

Sabia ler, escrever, e contar como um mestre--eschola. Se tivesse
nascido trinta annos depois, n'estes felizes tempos, era de certo juiz
eleito, regedor, vereador, e quem sabe (!) talvez mesmo deputado! Outros
muito peiores deu j  luz a urna rural. So os que, cerzindo umas abas
de palet  jaqueta hereditaria, mascarram de interpellaes boaes e de
apoiados taurinos e beocios o extracto das sesses, acotovellando-se nos
aditos da tribuna.

O nosso amigo contentava-se, porm, com os seus trinta a quarenta moios
de colheita, com as vinte pipas de azeite, que expremia nos seus
lagares, com os toneis attestados de vinho puro e genuino, honra e
orgulho da sua adega, e com a vara de juiz de vintena, magistratura
exercida a contento de clero, nobreza e povo.

O Joo da Ventosa, ou Joo Bonito, como lhe chamavam as mulheres da sua
edade, gosava lm d'isso da fama de rico, pastava bons rebanhos na
charneca, fazia dinheiro de tudo, e abotoava-se com um bom par de
louras. Solteiro e jovial vivia s em companhia de um sobrinho de
quatorze annos, e de dois creados.

Ao pr da tarde, vendo a trovoada armada, tinha ido de passeio rondar as
hortas e o olival, tinha deitado depois at s abegoarias, e na volta de
uma das arribanas, por encurtar caminho, viera descair  azinhaga, aonde
a espingarda do _Sapo_ acabra de deitar por terra Antonio Simes da
Aramanha.

O estrondo do tiro, a hora e o grito do ferido obrigaram-n'o a apertar o
passo. Assim mesmo chegou tarde. O assassino j tinha saltado o vallado,
e o corpo do fazendeiro jazia prostrado. Era quasi noite, choviscava
rijo, e o ribombo dos troves amiudava. Inclinou-se para o morto,
conheceu n'elle um amigo de vinte annos, exhalou um suspiro, rosnou uma
praga contra o homicida, e, depois de alguns momentos de hesitao,
levantou-o nos braos, como se o peso no o devesse ajoujar, e
deitando-lhe a cabea sobre o hombro, sem vergar, encaminhou-se com elle
para casa.  porta chamou o maioral e o abego, e todos tres
transportaram o cadaver para a cozinha.

Duas horas depois batia  porta o sargento Cabrinha com os seus
milicianos, e da parte da justia pedia agasalho por aquella noite para
elles e para os presos. O Joo da Ventosa, ao que parece, estava
occupado, porque os deixou repetir o recado terceira e quarta vez.

Por fim veiu abrir em pessoa, e desculpando-se com o mau tempo, metteu o
sargento na cozinha com os acolytos, e guiou Paulo de Azevedo ao andar
nobre, a um aposento mais bem reparado, aonde um leito antigo de
balaustres enroscados e baldaquino de seda carmezim, cama quasi regia,
parecia esperar por elle. O quarto de D. Leonor era ao lado, e
communicava por uma entrada baixa com o de seu pae. Cabrinha assistiu ao
aquartelamento dos presos, visitou o corredor e a escada, que era a que
dava para a cozinha, sondou a parede de duas portas entaipadas de
fresco, que abriam d'antes para o corpo do palacio, e no socegou seno
depois de ter fechado o cavalheiro de Mafra e sua filha a duas voltas de
chave nas duas camaras, que um official amigo do rendeiro havia separado
do resto da casa, enchendo de pedra e cal o vo das portas.

--A menos de no lhes nascerem azas de repente, murmurava o sargento,
para voarem, ou de passarem como espiritos atravs dos muros, os dois
esto seguros. A evaso pelas janellas, vista a altura, equivale a um
suicidio; e pela porta, mesmo que a arrombem, como no ha seno uma
escada e uma saida, e ambas vo dar  cozinha, aonde conto acampar,
qualquer tentativa serviria s de os tornar a metter nas goelas do lobo!

Tomadas todas as cautellas, que a prudencia aconselha, Estevam Cabrinha
desceu com o seu hospede, e principiou a apalpal-o, cerca da
generosidade, que lhe suppunha de no consentir que elle e os seus
jejuassem s com o leve almoo, esmoido no largo passeio do Casal do
Ouro  Ponte da Asseca. Joo da Ventosa respondeu s gargalhadas, que de
sua casa nunca saiam barrigas famintas, e gritando pelos creados, mandou
trazer luz e accender o lume.

N'este momento entrou o _Sapo_.

Rondando as visinhanas o virtuoso assessor do sargento achou a porta
meio cerrada, ouviu de fra a voz aspera e roufenha do amo, e sem mais
ceremonia inseriu-se no texto, enfiou o corredor, e veiu farejar a ceia
e a pousada.

A manta, em que se enrolava, escorria como se fra tirada de um tanque,
e as botas atascadas de barro denunciavam a larga excurso de que se
recolhia. Approximando-se de Cabrinha, tocou-lhe no hombro, e disse-lhe
ao ouvido duas palavras. O digno mandarim recuou sobresaltado, e no
poude conter uma exclamao em alta voz, exclamao de susto e de
alegria ao mesmo tempo, que no escapou  curiosa atteno, com que o
Joo da Ventosa espreitava e escutava com todos os sentidos vigilantes o
dialogo confidencial dos dois personagens, cujas proezas conhecia de
longa data.

As suspeitas, que desde o principio o tinham assaltado cerca dos
verdadeiros auctores do homicidio da azinhaga, confirmaram-se.

Estevam Cabrinha era muito capaz de encommendar a morte do fazendeiro, e
Gaspar Preto muito obediente servo, em se tractando de um crime, para
elle os no accusar secretamente do delicto, e no vr as mos de ambos
tintas no sangue do seu amigo. Sabia a historia da priso de Antonio
Simes, no ignorava a promessa indiscreta que elle fizera, de varejar
as costellas do sargento e do _Sapo_, e o mau conceito que formava
d'elles, auctorizava-o a crer que o tiro e a espera haviam partido de um
plano concertado com a deliberao e perversidade, que tanto
caracterizavam o coxo, e o seu Mecenas.

Mas se o sargento era jubilado em velhacaria, e se o seu fiel Achates
tinha estanhadas a alma e as faces, Joo da Ventosa lisongeava-se de os
codilhar a ambos em esperteza, e armra uma rede, em que haviam de cair
por fora. Calou-se, pois, e esperou.

D'ahi a pouco o moo dos bois appareceu com o velho e cansado lampio,
cuja luz mortia s comeou a avivar-se depois de pendurado. Logo atraz
outro creado atirava ao cho com um grande feixe de matto secco, e
arrastando para a lareira dois cepos de oliveira, petiscava lume com o
fuzil, e incendiando tudo ateava uma labareda, cujos clares, lambendo
as paredes da vasta chamin, derramaram por toda a casa viva e repentina
claridade. De subito o sargento, que se achava com o _Sapo_ junto da
mesa de pedra, olhou, viu o corpo, e por um gesto machinal e
irresistivel extendeu a mo, e levantou o panno que lhe cobria o rosto.
A vista encandeou-se-lhe, os cabellos erriaram-se-lhe, e um grito de
espanto truncou-se-lhe suffocado na garganta. As cres rubicundas
amorteceram-se, e, se no se ampara com a hombreira, resvalava redondo
no cho, to fracos lhe fugiam os joelhos.

Gaspar Preto ainda revelou mais horror. Recuando at  parede com as
mos abertas como para afugentar de si a viso terrivel, parecia
metter-se pelo muro dentro, com os cabellos em p, as pupillas
envidraadas, e tal convulso em todo o corpo, que o frio de uma sezo
mortal no podra ser maior.

Os milicianos boquiabertos contemplavam o cadaver, e a figura singular
de Estevam Cabrinha e do coxo, que no eram santos da devoo de nenhum
d'elles.

Joo da Ventosa sorria-se para dentro. Dir-se-hia que fulminava os dois
cumplices com o sombrio fulgor dos olhos. Um instante depois pousou a
vista, sereno e temperado, sabendo conter-se e dissimular para no se
prender no mesmo lao, que tecia aos outros.

Seguiram-se as explicaes. O rendeiro com a voz macia, cujo timbre era
quasi feminil, e aquelle ar de rir bondoso, que encobria tanta cousa,
desculpou-se da triste companhia, que era obrigado a dar aos hospedes.

Tinha encontrado, disse elle, Antonio Simes morto, apenas o conhecia de
vista, mas no tivera animo de deixar o corpo de uma creatura de Deus
exposto no caminho toda a noite. No havia outra casa decente, aonde
esperasse a sepultura christ, e o tempo e a hora no permittiam chamar
o padre, e deposital-o na egreja. Ao passo que explicava isto, o
compassivo Joo accendia de vagar duas vellas de cra, amarelladas dos
ocios da gavta, e cravando-as nos castiaes de estanho amolgados, punha
uma aos ps e outra  cabeceira do morto, completando com todo o socego,
e de proposito, a exposio funebre, que arripiava os circumstantes, e
especialmente o sargento e seu confidente, constrangidos a associar toda
a noite o banquete e o somno dos vivos ao espectaculo do cadaver
ensanguentado da sua victima. Se ambos podessem ler na alma do homem,
que lhes estava falando, ainda haviam de tremer mais!

Na mente d'elle tudo isto apenas era prologo!




VI

Ressurreio de Lazaro


Decorreram minutos sem que as mandibulas de Estevam Cabrinha, deslocadas
pelo terror, podessem volver ao estado natural. Nem articulava, nem
balbuciava. S a pouco e pouco  que se foi restaurando do susto, e
maldizendo o _Sapo_, o rendeiro, e aquella funesta casa, regougou meio
desvairado uma evasiva para desculpar o pavr, que o accommettra, e que
no era senhor de disfarar.

Os seus nervos estavam to delicados, que a vista do sangue e do
cadaver, tirava-o de si, e tornava-o mais fraco, do que uma mulher!
Entretanto fazia o possivel por ser homem; mas pedia por tudo o que
havia de santo no cu e na terra, que o no obrigassem a velar a noite
ao p do morto, se em vez de um, no queriam enterrar dois cadaveres.

Joo da Ventosa affectou clemencia. Capitulando com os terrores do
sargento prometteu dar-lhe um quarto retirado no fundo do corredor,
depois da ceia. Pediu-lhe depois licena para ir cuidar dos hospedes
presos, que desejava receber como pessoas nobres, e que a m reputao
da casa por certo assustaria, sobre tudo na escurido, e com o temporal
que parecia arrancar as arvores e os telhados. Cabrinha suspirou, e com
um aceno respondeu que sim. Sentia-se gelado, e o corao batia-lhe com
tal fora, que parecia querer saltar fra do peito.

O lavrador accendeu dois candieiros de lato amarello de tres bicos,
pesados e disformes, pendurou pela argola um em cada mo, e comeou a
subir a escada, escoltado por Cabrinha, que apezar de meio tonto, e de
tartamudo de mdo, sempre desejou certificar-se outra vez de que a
gaiola, como dissera antes, era solida, e no deixaria escapar os
passaros.

Um creado poz a toalha, trouxe queijos e po, e reanimou o alento dos
milicianos, collocando triumphalmente em cima da mesa um bojudo cangiro
e dois canecos de estatura descommunal, destinados s libaes. Os
soldados chegaram-se a principio timidos, partiram e saborearam o
queijo, acharam-o excellente, provaram o vinho, que estava ainda coberto
da espuma da pipa espichada de proposito, e romperam o assalto,
esquecendo gradualmente o morto, o sargento, e o _Sapo_, o qual,
agachado como fera medrosa a um canto da chamin, s dava signal de vida
nos estremecimentos, que lhe saccudiam os membros.

A demora de Cabrinha em cima foi grande. Quiz assistir a todos os
arranjos, que a velha servente do rendeiro determinou, e que ia
executando com a mo vagarosa por entre as oraes resmungadas entre
dentes a Santa Barbara e a S. Simeo Stelita, advogados contra os
troves.

Viu, pois, lanar nas camas os lenoes de linho fino e defumados,
recheio das arcas do lavrador; viu enfiar as fronhas e os travesseiros
de folhos com fitas azues; viu deitar as colchas de seda da India
matizadas, e pregar as cortinas dos leitos. Immovel e calado os seus
olhos vigiavam tudo, mas o seu espirito ausente estava ao p do morto.
Finalmente os moos trouxeram a ceia em bandejas largas, e a creada
velha despediu o amo e o sargento, declarando que ficava e dormia perto
dos presos para os servir.

Cabrinha saiu atraz do seu amphytrio, fechou a porta, e metteu a chave
no bolso. Por este lado estava tranquillo. Restava a ceia com o cadaver
defronte. Essa  que se lhe representava um supplicio insupportavel; e
se no fosse o receio, com que o remorso ata a lingua dos criminosos,
teria pedido um pedao de po secco, um ou dois goles de vinho, e iria
para o meio da estrada esperar que nascesse o dia, mesmo em risco de uma
pancada de agua o ensopar, ou de um raio o fulminar. No se atreveu,
porm. De cabea baixa e passos incertos, sem ousar olhar, e no
podendo, todavia, apartar a vista da mesa de pedra, veiu sentar-se ao
brazeiro, do outro lado, defronte do _Sapo_. Ao mesmo tempo o Joo da
Ventosa consultava o immenso relogio de prata, e, vendo apontadas no
mostrador as dez horas, gritava pelos creados, que apressassem a ceia,
se no queriam que elle e seus honrados amigos morressem alli todos de
fraqueza.

--Vamos! exclamou. Andar! Esse cabrito no acaba de sair do lume,
mandries? Para temperar umas migas ser preciso chamar o cozinheiro do
patriarcha? Oh Pedro? As batatas cozam-n'as no borralho!... Ficam mais
gostosas. Dem-me d'aquellas laranjas de casca fina do pomar de cima,
que eu apanhei hontem. Tirem o vinho da pipa nova! Bem basta a
inferneira que logo ahi vae em sendo meia noite! E ento com esta visita
em casa! E apontava para o morto.  preciso que o demonio e as almas do
outro mundo, quando vierem, nos achem confortados e quentes de estomago,
limpos de corao, e lavados de consciencia... Que tal  esse vinhinho,
camarada? Ajuntou pedindo o caneco a um dos milicianos, ao qual o seu
discurso petrificra os movimentos, conservando a taa rustica a meia
distancia da mesa e da bcca sem animo de a depor, ou de a sorver. Os
outros, pallidos e sobresaltados, olhavam espavoridos para as portas,
para as paredes, e para a mesa de pedra, e benziam-se, suppondo ver j
um espectro em cada canto.

--Vamos! ajuntou.  nossa saude! E que Deus nos livre por muitos e bons
annos de um amigo, como encontrou aquelle que alli jaz! E emboccando o
caneco deixou cair do bico o vinho em fio dentro da bcca  moda
hespanhola, engorgitando-o lentamente com delicias.

O brinde funebre produzira o seu effeito. O sargento poz-se em p e
desabotoou tres botes da farda. Sentia-se a arder. O _Sapo_ agachou-se
mais, e ouviam-se-lhe distinctamente bater os dentes.

--A ceia! A ceia! Rapazes! clamava o lavrador acompanhando o rebate das
vozes com fortes punhadas em cima da mesa.

Os creados acossados por estas impaciencias, verdadeiras, ou fingidas,
saccudiram a preguia, e a correr acabaram de pr a mesa, a correr
trouxeram as migas e o cabrito, e a correr tambem vieram com as batatas
e as laranjas. O cangiro refrescado por segunda visita  adega estava
cheio at  borda.

--Vamos a ella? gritou o dono da casa. Senhor sargento, chegue-se para
os bons, e ser um d'elles! sente-se do meu lado. Tu, meu _Sapo_, com
essa cara de alvaiade vae para alli. s curioso, e quero que me
espreites o defunto a ver se bole com a alegria dos vivos! Os camaradas
accommodem-se aonde poderem! Desculpem as colheres de pau e os garfos de
ferro. A pratita, que tinhamos, est em Lisboa; nos tempos, em que
vivemos, digam l o que disserem, sempre  o mais seguro... Nada de
tristezas! Longe v quem mal nos quer! Senhor sargento  nossa!  bom
copo, tenho ouvido, mas o Joo tambem no arreia. Encha-me esse caneco
at cima, e despeje-m'o de um trago, seno digo que o vinho  mau, ou
que debaixo de boa capa ruim bebedor!

Por um esforo heroico Estevam Cabrinha conseguiu obedecer. No tinha
sde, nem fome, tinha medo. A ceia era para elle um martyrio, sobre tudo
com as costas viradas para o cadaver, cuja sombra se lhe figurava a cada
momento alevantada por cima dos hombros. O _Sapo_ no padecia menor
tormento. Com o morto e a vista do sudario ensanguentado defronte
enlouquecia de terror e de afflico. Suas pupillas dilatadas no podiam
despregar-se d'aquelle testemunho irrecusavel, que lhe avivava o crime
pela bcca das feridas, por onde fugira a alma. Deixou de ver o que o
rodeava para vr s a victima silenciosa, e ameaadora. Poz-se-lhe um n
na garganta, e um vu nos olhos. A primeira colhr, que levou  bcca,
tornou-se-lhe de fel; o primeiro trago de vinho, que sorveu, soube-lhe a
sangue. Sentia tentaes de se atirar pela porta fra, desatando em uma
corrida louca; mas os ps estavam grudados ao cho e as pernas mal o
sustinham. A cada instante entrava-lhe pelos ouvidos o som dos passos de
Antonio Simes, e ouvia o grito que elle arrancra caindo ferido. O suor
escorria-lhe em bagas da testa, e os beios tremulos denunciavam a
intensidade da agonia.

O lavrador observava, e dissimulava. O seu ar de riso e a sua
jovialidade cresciam  proporo, que iam aggravando-se as dores moraes
de ambos.

--Que  isso, _Sapo_? accudiu elle apertando os tratos ao mais culpado.
Que  feito d'aquella galhofa do outro dia, meu velho? Ests com cara de
enterro. Ters tu morte de homem s costas, diabo?!!...

A esta interpellao directa, que o rendeiro disfarou em uma risada
larga e sonora, o remorso fez saltar involuntariamente dos bancos o
sargento, e o seu cumplice, como se a voz do sangue chamasse por elles
no tribunal de Deus.  pergunta: Cain que fizeste de Abel, ao brado que
a consciencia repetia aos dois, ambos tremeram, mas no poderam
responder: no fui eu! Sentiam-se tomados de espanto at s mais fundas
cavernas do corao.

Joo da Ventosa, entendendo que no devia ir mais longe para no se
descobrir, e vendo os dois de p, mudos, e pasmados, tractou de os
tranquillizar a seu modo, isto , vertendo-lhes o terror nas veias por
outro modo.

--Sente-se, meu sargento! disse elle mettendo o hospede no corao com o
tom assucarado. Que vespa o mordeu? Os ares da casa no so bons, sei
muito bem; mas o que quer? A gente toma amor ao ninho, e depois no ha
quem o despegue d'elle. No tenho mulher, nem filhos; nasceu-me aqui o
dente do siso, e...  melhor no tocar em cousas ms. Mas sempre lhe
digo que ha noites! Ainda antes de hontem foi um rebolio l por cima de
cadas arrastadas, de soluos e gemidos, que vinham os sobrados
abaixo...

--E nunca viu nada, senhor Joo? atalhou um dos milicianos meio
engasgado com um pedao de cabrito, que o susto causado pelas reflexes
caridosas do rendeiro lhe atravessra na garganta.

Estevam Cabrinha desabotora todos os botes da farda, e pelas frestas
da camisa aberta mostrava o peito vellso como o de um cerdo. Tinha os
cotovellos na mesa, a cabea entre as mos, e os olhos espantados.

Gaspar Preto recaira, sem poder reprimir-se, no tremor das primeiras
horas.

Aquelles dois entes, to fortes contra a consciencia, to esquecidos de
Deus e da justia humana, desmaiavam como creanas deante da sombra do
seu crime e dos pavores do invisivel.

--Se no vi nada?... Oh! redarguiu o dono da casa, tornando-se serio de
repente, e fazendo suppor com a reticencia, que no tinha animo para
dizer tudo.

--Conte-nos isso! accudiu um dos comensaes, que no era dos menos
timidos, mas que era de certo dos mais curiosos.

--Para que? Para no dormirem umas poucas de noites?!... respondeu Joo
da Ventosa.  melhor falarmos de cousas alegres.

--No. No! Diga!

--Depois no se queixem! Faz hoje um anno, e justamente chovia e
trovejava como agora, que parecia que se acabava o mundo. Tinha uma
cadella de perdizes, que era um brinco, a Pomba. Faltou-me todo o dia, e
cuidei logo que ficaria fechada l em cima. A esse tempo ainda eu no
tinha mandado tapar as duas portas dos quartos, que viu o sargento, e
aonde esto os presos. Peguei n'uma lanterna e subi. Atravessei tres
salas. Apitei, chamei a Pomba, no me respondeu, ella, coitadinha, que
em me ouvindo era toda saltos e alegria. Olhei por acaso para um canto
mais escuro, e vi... a pobre da bruta morta com a cabea torcida!... No
sei o que me passou pela vista, mas tive medo, medo deveras, juro-lhes.
Peguei no corpo da Pomba, e arrastando-me, e tropeando, vim at 
porta, que hoje est entaipada. De repente um sopro forte apaga-me a
luz, um claro bate-me nos olhos, e uma figura branca apparece-me to
alta e transparente, que se via atravs das roupas e do corpo (se era
corpo!) como atravs de um vidro fino. No posso dizer-lhes o que senti,
mas quiz gritar e faltou-me a voz, quiz benzer-me e caiu-me a mo, quiz
fugir e fiquei parado.

O Fantasma fitou-me dois instantes com um olhar frio, que gelava e
disse-me: Desgraado de ti se tivesses sangue nas mos! Nenhum matador
sae vivo d'esta casa! Perdi os sentidos. Quando tornei a mim era dia, e
estava deitado na minha cama. Suppuz ter sido tudo sonho; mas a cadella
morta jazia aos ps do leito. Enterrei-a, fiz uma parede das duas
portas, e andei um mez como doudo, malucando no caso, que podia ser
peior... Fra com historias negras! exclamou mudando de tom. Estamos
hoje aqui muitos, e graas a Deus nenhum de ns tem de lavar as mos de
sangue, que vertesse. Vae dar meia noite! ajuntou tirando um relogio de
prata.  a hora da senzala principiar l por cima. No se assustem! O
vinho  bom, festejemol-o, e o que for soar. Nossa Senhora, minha
madrinha, no ha de desamparar-nos.

A consolao acabou de petrificar o auditorio, que a narrao j no
tinha estultificado pouco. O sargento e o seu assessor, ainda mais
enfiados, trocaram um olhar desvairado, e gemeram um suspiro. Era a sua
sentena que o espectro annuncira pela bcca do lavrador? Os canecos
ficaram cheios sobre a mesa; o cabrito, meio escarnado, viu suspensas as
hostilidades, que ameaavam deixal-o na ossada; e s o dono da casa
levou aos beios, e exgotou a libao, que propozera. O volumoso relogio
de caixas de prata posto a seu lado, attrahia a vista anciosa de todos.
Era to profundo o silencio, que se sentia a leve pancada da machina
trabalhando. Finalmente o ponteiro pousou-se nas doze horas, e o
lavrador, como se obedecesse a um impulso espontaneo e invencivel,
poz-se de p, e exclamou:

--Meia noite! Deus seja comnosco!

N'este momento, como se a natureza quizesse associar os seu terrores 
scena alli representada, um furaco espantoso saccudiu e abalou todo o
palacio com rugidos prolongados, um trovo rebentou perpendicular com o
estrondo de cem canhes no meio de medonhos estalos, fazendo tremer a
terra, a casa encheu-se de luz electrica por um instante, e a chuva,
aoutando com o seu granizo rijo e batido os telhados e os muros,
enxurrou dos tectos pelas chamins arrombadas, e veiu quasi extinguir o
lume, que esmoreceu em chispas lividas por entre ondas de fumo. Ao mesmo
tempo as duas portas pregadas com travessas  entrada das escadas, que
desciam para a cozinha, vieram a terra com fragor, o cadaver deitado
sobre a mesa ergueu meio corpo sobre o cotovello, e arrancou o panno
cruento, soltando um gemido lugubre, e uma figura de altura descommunal,
envolta em sudario branco e fluctuante, assomou ao limiar. Tudo isto
occorreu em menos de um segundo, acompanhado do ruido de ferros
arrastados, do tropel de passos e de quedas tumultuosas, e de um
verdadeiro clamor de vozes e gemidos no andar de cima.

Os milicianos apavorados hesitaram um instante immoveis. Depois
correndo, como loucos, investiram pelo corredor, e como rebanho
tresmalhado e perseguido por alcateas de lobos, sentiram de repente azas
nos ps, e voaram pela estrada inundada por entre os relampagos e por
baixo das aguas da tempestade, gritando misericordia!

O sargento ao som das portas, que desabavam, e deante da appario
inopinada, sem saber j de si, e sem ver o morto alar-se, trepou em
dois pulos a escada de pedra, metteu a chave na porta, e acoutou-se nos
aposentos dos presos, to cego e attonito que atropellou na carreira a
velha servente na sua cama, e foi cair de bruos ao p da mesa, aonde se
apagava em vascas a vla consumida de um castial.

O _Sapo_, que observmos paralyzado momentos antes, vendo surgir o
fantasma, sentiu todos os instinctos ferozes irritados, e pegando da
espingarda, e apontando-a n'um abrir e fechar de olhos, s volveu em si,
quando o co bateu na pederneira, e esta faiscou, sem queimar a escorva,
deixando-lhe nas mos uma arma inutil. Ento, como o tigre que rompe a
jaula, arremetteu pelo corredor do dormitorio, e de l, galgando o muro
baixo do pateo, sem se deter a buscar a porta nas trevas, achou-se no
campo, e precipitando-se por sebes e vallados, veiu parar sem folego,
sem voz, e sem consciencia de si ao p do moinho da Raposa.

Finalmente o proprio espectro, primeira causa de todo o alvoroo, no
escapou ao contagio geral, e deu tambem parte de fraco. Vendo o morto
levantar-se e saccudir os vus funebres, assaltou-o tal convulso de
mdo, que, tapando os olhos com um grande grito, desabou no cho do alto
das andas, em que estribava. Teve razo ainda d'esta vez o adagio.
Virou-se o feitio contra o feiticeiro!

Mas as peripecias d'esta dramatica noite no estavam terminadas. No
momento, em que, afogado em riso, o Joo da Ventosa accudia a levantar o
fantasma demolido pelo susto, o sargento Cabrinha despenhava-se pela
escada, bradando possesso de espanto. No era sem causa!

Seguimol-o quando subia os degraus a dois e dois para se refugiar na
camara dos presos; vimol-o enrolar-se e tropear no corpo tolhido de
rheumatismos da tia Margarida, a qual, pobre mulher (!), acordada em
sobresalto pelos troves, tiritava de joelhos em anagua de estopa,
benzendo-se, e invocando todos os santos da crte do cu, quando aquelle
furaco humano se ennovellou com ella, e lhe fez das costas escabello.
Os gritos da servente, a motinada do palacio, que alli soava mais
proxima, desembriagaram um pouco do medo do andar de baixo o virtuoso
agente de Lagarde, mas exaltando-lhe os terrores excitados pelo andar de
cima. Percebeu que o asylo, que buscra, era peior do que o perigo, e
tractou de apressar a retirada.

Mas apezar dos accessos de valor, que lhe notmos, era malsim na alma e
nos ossos, e a curiosidade prevaleceu. Antes de fugir quiz verificar de
novo se os outros podiam fugir. A tremer pegou em uma vla e abriu as
cortinas da cama de Paulo de Azevedo. Recuou pasmado. Estava vasia!
Correu ao quarto immediato de Leonor; achou-o deserto! O unico preso,
que no se bolira, fra a inoffensiva e tropega Margarida! O sargento
sentiu estalar uma cousa dentro do peito. Se tivesse corao diria que
era o corao! No o tendo acabou de se lhe varrer o sizo, e ficou por
minutos estatico a contemplar aquella solido, obra visivel do demonio.

Por fim este ultimo golpe e uns suspiros em tremulos, exhalados do outro
lado da parede, venceram esses restos de vigor, que ainda conservra.
Consumou o seu destino, e despejou o campo como os seus milicianos,
porm com menos felicidade. Quiz descer a escada, os ps atraioaram-o,
e mediu-a com as costellas de cima at baixo. Quando tornou a si com a
dor, e por ella conheceu que vivia ainda, os seus olhos horrorizados
perderam a luz de assombro e de pavor.

No meio da casa o Manuel Simes da Aramanha, de p, encarava-o sombrio e
terrivel. Ao p da mesa o fantasma branco, entrouxado nos lenoes,
extendia o brao direito em ar de ameaa. Atraz d'elles Joo da Ventosa,
mudo e inerte, e como gelado, apontava-lhe para o corredor, sem falar,
como se o convidasse a fugir. No poude mais. Atou as mos na cabea e
cau sem sentidos.




VII

Segredos em toda a parte


Os aposentos aonde Paulo de Azevedo Carvalho e sua filha foram
encerrados, em um dos torrees do palacio, eram dos mais bem
conservados. Os tectos no estavam arrombados; os filetes, que
guarneciam as molduras das paredes, forradas de pannos de Arraz, ainda
no tinham perdido de todo o ouro; e a humidade no acabra tambem de
desvanecer inteiramente as tintas dos quadros de caadas, batalhas e
scenas campestres, representados na tela. Apezar de velhos e de
ennegrecidos, os moveis ainda resistam em parte aos seculos e ao
caruncho.

O venerando leito de cabeceira de talha alta e columnas enroscadas
occupava o centro da primeira casa, e podia quasi dizer-se um edificio,
um monumento, pelo descommunal das propores. Um pesado baldaquino de
seda desbotada cobria o cu da cama, e largas cortinas do mesmo estofo
desciam dos lados a arrastar pelo cho.

Defronte um trem, que na sua mocidade brilhra pelo esplendor dos
dourados, mas que na velhice, ou antes na decrepidez, apenas se
recommendava por bellos relevos de folhas e flores, com um espelho de
Veneza em cima, comido e manchado no ao, sustentava duas jarras do
Japo da mais preciosa porcellana, infelizmente rachadas. Cadeiras de
braos, mutiladas, um velador alto desgrudado, um bofete de almofadas
com sua escrevaninha de prata mareada, olhando para o espelho,
completavam a mobilia.

Na segunda camara havia um leito mais singelo sem cortinas, e um espelho
embutido na parede, que enchia de alto a baixo um vo inteiro. O bofete
liso com tinteiro de bronze antigo, e as quatro cadeiras que constituiam
todo o seu adorno, no accusavam pouco os annos pelo estado de ruina; e
as colgaduras[1] de couro, rotas ou to coadas, que no tinham j cr
possivel, deixavam em parte nus os muros, provando que o tempo as
respeitara menos, do que aos pannos de Arraz do quarto principal.

O cavalheiro de Mafra mal correu a vista em redor de si. Sentou-se
deante do bofete da sala grande, molhou a penna na tinta grossa da
escrevaninha, e comeou machinalmente a traar linhas e dezenhos
informes em um papel. Desde o Casal do Ouro at alli no descerrra os
labios, nem para falar  companheira do seu infortunio; e s o ardor
sombrio das pupillas denunciava a ira, preferindo consumir calado as
tristezas a desafogal-as em vozes, ou em queixas. Leonor contemplou-o
silenciosa por alguns momentos, e, avisinhando-se depois nas pontas dos
ps, pousou-lhe na fronte annuviada um beijo, que a ternura humedeceu de
lagrimas.

Paulo, como se acordasse repentinamente, vendo no espelho o lindo rosto
debruado sobre o seu estremeceu. Um sorriso melancholico adoou-lhe a
expresso severa. Cedendo ao carinho de to suaves caricias, e tornando
os olhos meigos, fitou-os cheio de enlevo na formosura da filha.
Cingindo-lhe depois o collo com os braos, cobria-lhe de osculos os
cabellos e a fronte, e procurou tranquillizar-lhe a inquietao.

Leonor era todo o seu amor e toda a sua familia. Se desejava sobreviver
s desgraas da patria  porque no queria deixal-a orph e desamparada
n'uma edade, em que as illuses armam tantos laos  candura e 
innocencia.

Mas as palavras do velho cavalheiro no o enganavam a elle, nem 
donzella. Quando para a consolar affirmra, que um vago presentimento
lhe augurava, que no chegaria a entrar na priso da villa, via-a aberta
para o receber, e o conselho de guerra convocado para o sentenciar!
Quando lhe lembrava, que seus amigos no dormiam, e que Manuel Coutinho,
e dois d'elles, andavam perto, sorria-se por dentro da inveno, porque
ignorava se a sorte d'elles no seria egual, ou peior n'este momento!

Leonor ouvia-o com a incredulidade do affecto. O fino instincto das
almas, que so todas sentimento,  adivinharem os verdadeiros motivos
dos sacrificios generosos. Palpava a verdade, e tremia que o futuro
fosse ainda mais funesto. Mas dotada de caracter varonil vencia-se para
no atormentar seu pae, devorando os prantos, e comprimindo os soluos.

 ceia a visita do lavrador, e a presena odiosa do sargento de
sentinella, como vimos,  hospitalidade do rendeiro, interromperam a
conversao cortada, com que os dois se distraam, e apenas as portas
tornaram a fechar-se, e Margarida poz a mesa, o pae e a filha, tomada
uma refeio mais do que sobria, e j cansados de dissimular,
despediram-se e cada um se recolheu  sua camara.

A creada no mesmo instante fez a cama para si em um recanto, e fatigada
adormeceu mal a cabea tocou no travesseiro.

Leonor aproximou-se ento do espelho, lanou sobre as espaduas nas um
penteador de cassa, e principiou a desatar as tranas, que, desfeitas,
se encresparam em madeixas negras, envolvendo-a no mais luxuoso vu.
Duas lagrimas, duas perolas, avelludavam-lhe o olhar tocado de branda
ternura, e as pupillas, pretas e languidas, s quaes aquella nuvem leve
de melancholia toldava um pouco o brilho, levantavam-se armadas
d'aquelle requebro meio tristeza, meio reflexo, que fala com tanta
eloquencia; e prende com to irresistivel poder at os mais isentos. A
bcca, pequena e graciosa, abria aos cantos duas covinhas assetinadas,
beros de lyrios aonde se embuscava a malicia espirituosa, tornando o
sorriso fascinador. Os dentes, ora appareciam finos e eguaes, como fios
de aljofres entre rubis, ora se escondiam, quando a phisionomia tomava a
expresso contemplativa e serena, que era o seu maior triumpho. O collo
esbelto, disputando alvura s aucenas, pousava-se com graa; as faces e
a fronte douravam-se d'aquella transparente e mimosa cr, em que as
rosas nascem e desmaiam  mais leve commoo, radiosa carnao, que
tanto reala a belleza meridional, mesmo quando no cede s mulheres do
norte a palma dos niveos encantos. O seio virginal palpitava
sobresaltado. A mo estreita e leve deslaava impaciente os ns de fita
do justilho; e a estatura elegante e flexivel prestava-se em ondulaes
airosas a todos os movimentos.

Um suspiro e um gesto, que exprimiam a tribulao do animo combatido de
apprehenses, e uma pausa, em que a vista se perdeu pelos idilios do
primeiro amor, revelavam as duas correntes encontradas, com que luctava
quella hora. O que lhe dizia a ternura filial repetiam-n'o as lagrimas
lentas e silenciosas, vertidas quasi sem as sentir. O que anciava e
assustava a timidez da paixo entre hesitaes e receios, mais fortes
que a vontade, retratava-o a repentina chamma da vista, e o extasis em
que o rosto se transfigurava subitamente, illuminado pelo duplo claro
da esperana e do pudor. Quem podesse colher n'este instante o segredo
da sua alma s encontraria n'ella duas imagens--a do pae extremosamente
querido, e outra mais viva, mais occulta, e mais funda ainda, a de
Manuel Coutinho, que o pejo quasi encobria de si mesma, mas que uma
ternura invencivel avivava a cada palpitao do peito!

Leonor sentou-se ao bofete no desalinho da meia nudez, dobrou uma folha
de papel, e contemplou-a por momentos com a cabea entre as mos e a
vista vaga e esquecida. Depois, meneando a fronte, como se quizesse
sacudir o peso dos cuidados, inclinou-se para a mesa, soltou a penna
sobre o papel, e comeou a retratar as tristezas do captiveiro e os
sonhos do corao.

Usando do privilegio concedido aos auctores de historias, to veridicas
como esta, introduzir-nos-hemos n'este ninho virginal, e por cima do
hombro da linda escriptora ao qual o vu diafano das rendas mais faz
sobresar o marfim polido e a frma admiravel, iremos lendo  medida que
ella as escrever, as confidencias, que julga depositar unicamente no
seio da mais discreta e mimosa de suas amigas de infancia, de D.
Marianna de Sousa, mais velha um anno, e tambem desterrada com toda a
familia para longe do antigo solar de seus paes em Lisboa.

Escutemos a conversao travada a distancia entre ellas.  de crer que
nos diga mais, do que extensos commentarios cerca dos principaes
personagens, cujas aventuras emprehendemos esboar com a fidelidade e
escrupulo proprios de narradores inaccessiveis  fabula e  lisonja.


Leonor de Azevedo a D. Marianna de Sousa

Minha freirinha!... Deixa-me dar-te mais esta vez ainda o doce nome da
nossa amisade! Escrevo-te das portas de uma priso, e talvez, ai! tremo
dizel-o! dos primeiros degraus do cadafalso de meu pae. Realizou-se o
que eu tanto receiava. Lagarde descobriu o nosso asylo. Estamos em suas
mos. Offendi-lhe o orgulho;  capaz de tudo; e conto com a vingana
promettida. No me arrependo. No meu logar, Marianna, farias tu o mesmo,
e esperavas resignada a tua sorte... Se no fosse meu pae, pouco ou
nenhum caso faria d'elle... O despreso at mata a averso, e de certo
ninguem o despresa tanto, e com mais raso.

Lagarde veiu a Mafra a um baile que lhe deram. Tentaram-lhe a cubia as
terras e os vinculos, que hei de herdar, Deus queira que bem tarde (!),
e por desgraa poz os olhos em mim para enriquecer um parente, que no
conheo, que me no conhece tambem, mas que elle ousou dizer que me
adorava pelo retrato, que lhe fizera de mim... dos bens da minha casa 
mais provavel! Marianna, ls na minha alma, e bem pdes imaginar o
espanto em que fiquei, ouvindo de um estrangeiro esta proposta, que me
offendia na ternura filial e no amor proprio... Nem lhe respondi!
Encarei-o, e, levantando-me, deixei-o acabar a ultima cortezia e o
ultimo sorriso deante de uma cadeira vasia. Dizes que me pareo com meu
pae, e que a natureza errou em mim o sexo. Talvez. Nunca senti tantos
desejos de ser homem! Mulher, seno fosse o mundo!... Ha affrontas,
porque choro amargamente a nossa fraqueza!

Lagarde tem maneiras e grande uso da sociedade. No sossobrou com o
revs, comeando a girar pelas salas como o convidado mais jovial. Notei
que no tirava a vista de mim, e preparei-me para segunda instancia. No
tardou. Veiu tirar-me para danar, louvou o meu toucado, o meu vestido,
a delicadeza das mos, a graa e a alvura das rendas; achou-me linda e
seductora; extasiou-se de lhe responder algumas palavras em francez; e
falou-me com enthusiasmo dos elogios que tinham feito da minha voz...
Constrangi-me e escutei-o sem colera, sem impaciencia, mas com aquelle
sorriso que tu dizias s vezes, que era cortante como fio de dois gumes.
Que remedio! Estavamos em scena, e elle  actor consumado. Depois, e no
fim de tudo, por acanhada e esquerda no queria deshonrar a nossa
educao do convento, nem dar-lhe motivos para que me tomassem pela
provinciana boal e nescia, que ao principio cuidra encontrar...

Acabada a dana, em que te affirmo sem vaidade, que no envergonhei as
lies do nosso mestre mr. de Lisieux, to airoso com a sua cabelleira
empoada, casaca direita, e rabequinha de estojo, ao apartarem-se os
pares, convidou-me para darmos um passeio pelas salas. Inclinei-me, e
acceitei-lhe o brao. Dmos algumas voltas, e no meio de uma d'ellas,
junto de um trem carregado de flores, teve o despejo de renovar a
supplica, assim lhe chamou, em ar de riso, porm o tom e a expresso
diziam assaz que era uma ordem.

Ouvi-o estremecendo. No acreditas a jactancia, a soberba, e por baixo
do verniz das phrases, o modo imperioso, com que este sulto me atirava
o leno em nome da felicidade do seu parente, e da minha, em nome da
gloria e ornamento dos bailes de Pars e das recepes das Tulherias,
que a rosa do occidente iria realar com seus encantos!... Contive-me.
Subiu-me em ondas a cr ao rosto. Empallideci depois. Aquelle escarneo
era to pungente, que me custava a supportal-o, sem lhe explicar ao
menos que o entendia. Mas contive-me, protesto que me contive a ponto de
me saltarem as lagrimas pelos olhos seccos! No  possivel exprimir-te o
que padeci nos minutos que durou este supplicio. Foram annos de angustia
e de anciedade! Lagarde, como se adivinhasse, tocava em todas as partes
melindrosas da minha alma e offendia-as. Tornou-se por tal frma
transparente a ironia, que se me figurava ouvil-o rir por dentro da
eloquencia, que estava gastando em convencer a herdeira smente
cobiada, para remir do naufragio a mocidade tempestuosa d'aquelle
sobrinho, arruinado e invisivel, cuja causa advogava.

Perguntars, talvez, porque no fiz o que j tinha feito, porque o no
deixei? No me atrevi. Meu pae estava perto; Manuel Coutinho tambem;
olhavam para ns, e ao menor signal que me escapasse, castigavam alli
mesmo o insolente! V tu o meu enleio e o meu martyrio! Quando se
afastaram, respirei. Podia mostrar a Lagarde, que a estatua vivia e
tinha brios para vingar a dignidade do seu sexo. Inflammou-se-me a vista
com a ira, fitando-a n'elle com um desdem to altivo e firme que o
obriguei a calar-se de repente no meio das lisonjas impertinentes.
Percebi que no esperava tanto, e que se perturbava. Retirando ento o
meu brao, dei dois passos atraz, e medi-o da cabea aos ps com aquelle
olhar scintillante e frio ao mesmo tempo, que me achaste duas vezes, e
que depois contavas, sorrindo, que era o mais fero e fulminante olhar,
que nunca viras, porque gelava e queimava ao mesmo tempo. No sei se foi
esse, ou outro peior, o que sei  que recuou lentamente e quasi pasmado
deante d'elle, como deante da ponta de uma espada; e quando lhe
respondi, que preferia a cella do mais austero convento, a pobreza, a
mendicidade at,  ignominia de me vr em leilo na praa,  vergonha de
acceitar o nome de um homem, que nem ao menos guardava as exterioridades
hypocritas de um galanteio, julgando-me to pouco que se propunha amar e
pedir esposa por terceiro, vi-o fazer-se branco como a tira da camisa,
esconder o sorriso nos cantos da bcca, e olhar-me direito e serio como
deve olhar-se para alguem, quando recebemos uma injuria grave. Mas
polido, mesmo na sua colera foi senhor de si, e mordendo os beios com
tal furia que lhe espirrou o sangue d'elles, cortejou-me, e retirou-se.
 roda de mim tremiam todos. Eu levantra a voz, e tinha-o constrangido
a curvar a fronte deante de muitos. Foi o que no me perdoou.

Todas as nossas desgraas datam d'esta noite. Jurou humilhar-me, mas
no o consegue. Livre, ou em ferros, o desprezo ser egual... Antes a
clausura, antes a vida errante que levo ha mezes, antes as estreitezas
de uma priso, do que a infamia de um lao apertado sem amor pela
avidez! Lagarde no tornou a falar-me. Smente poucos dias depois, sahi
a cavallo, e encontrei-o com Loison, general maneta, que dizem ainda
mais perverso. Pararam para me vr passar. Sabes que sou cavalleira, e
que um animal fogoso no me assusta. Montava a Estrella, a egua valida
de meu pae, e apenas os descobri, larguei-lhe a redea, e atravessei como
uma seta por meio d'elles. Saudaram-me, correspondi, e dentro em pouco
j no os avistava. Foi na vespera dos tumultos das Caldas e da
emboscada de Mafra. No dia seguinte, dia de terror e afflico para os
habitantes, estava achado o pretexto que havia de manchar de sangue o
poder dos estrangeiros.

O que nos reserva o futuro? No ignoras quanto meu pae  altivo e
decidido. Se a sua vida dependesse de uma palavra, de um passo, que
reputasse de quebra para a honra, ou para os brios, preferiria morrer
mil vezes... Sei o que elle ha de fazer como se o estivesse vendo. Ha de
dizer a verdade, toda a verdade; ha de expor-se... Meu Deus! Parte-se-me
o corao, e no tenho animo de cuidar!... No! No! A providencia no o
pde permittir! Marianna!... As lagrimas que estou chorando, a dr que
padeo so to crueis, que ha momentos, em que a razo me foge. E Manuel
Coutinho?! Ainda me assusta mais!... Em sabendo a nossa priso... com o
seu genio impetuoso e aquella intrepidez de cavalleiro andante, porque 
um verdadeiro paladino perdido n'estes dias de Junots e Lagardes, 
capaz de entrar s em Santarem para nos arrancar dos ferros  luz do sol
e deante de todos. No rias?! No creias que estou pintando de
imaginao um heroe de novella!... Perguntas-me desde quando o amei, e
se foi necessario o fulgor de Marte para vencer a iseno de Juno!?
Entendo-te! Viras contra mim as palavras, que eu soltava na ingenuidade
do orgulho, quando a inexperiente educanda te divertia com seus
encarecimentos de desdem pelas fraquezas apaixonadas. Ouve! Amei-o logo,
amei-o com extremo apenas o vi. Mal nos olhmos, sorrimos, e
conhecemo-nos sem lucta, sem resistencia, sem juras, nem protestos. Elle
sentiu que era meu; eu entreguei-lhe o corao com tanta confiana, como
se nos tivessemos creado juntos desde a infancia. Marianna!... Se s a
amiga, que eu creio, has de estimal-o tambem, e approvar a minha
escolha. Asseguro-te que o merece. Aquelle rosto nobre e gentil, mas um
pouco triste,  o espelho do seu caracter. Meu pae, e mais no  facil
em affeies e elogios, admira-o, e no v por outros olhos em muitas
cousas. A palavra de Manuel Coutinho, que o no lisonjeia, que at o
contraria em algum dos habitos e idas mais arraigadas, vale um
juramento para elle. Entre estes dois affectos, to doces e acerbos,
reparte-se-me a alma, rasga-se-me em duas, e no ouso dizer-te a ti, a
mim propria, qual  maior, ou mais absoluto!...

Accusas-me de dissimulada?! No te encobri nada. Ls nos meus segredos
como em livro aberto. Amo, como no se torna a amar, como no imaginava
que podesse amar-se... Digo-te sem disfarce o que occultaria a outra, e
tu ingrata (!) ainda tens animo de me arguir! ...Lembras-te d'aquellas
nossas madrugadas nas Salesias, entre as rosas e jasmins do jardim, e os
vos dos passarinhos, que chalreando no nos deixavam um instante?!...
No tens saudades d'ellas e das brandas illuses, com que nos
embalavamos no meio das flores d'esses dias to curtos, ai (!) e to
depressa desvanecidos?! Com que dr melancholica e agradavel, os estou
recordando, sobre tudo agora!... Como a esperana nos fazia palpitar!...
Que desejos pueris, que planos impossiveis, que doces contestaes, e
que amuos logo esquecidos entre dois beijos! O nosso mundo era to
pequeno, que alli principiava e acabava ento!

Meu pae, militar e arrebatado, a rogos meus ficou em casa. Por vezes o
vi ir direito  sua espada, e suspender-se com os olhos arrazados de
agua. O que o prendia era o receio de me deixar orph, era a certeza de
que se arriscaria sem proveito. Que dia aquelle, e sobre tudo que
noite!... Os francezes em bandos pelas ruas alvoroavam a terra com
vozes, affrontas, e tiros. Duas vezes as balas das espingardas vararam
as portas das nossas janellas. Sobre a madrugada appareceu Manuel
Coutinho. Vinha pallido e desfigurado. Nenhum de ns se tinha tambem
deitado. Chamou meu pae de parte, falaram em segredo, e minutos depois,
s escuras, e sem ruido, fugiamos pelas hortas, e montavamos a cavallo.
Rompia o sol, quando entrmos em Torres Vedras, e s alli me disseram
que a nossa casa estava cercada, e que Lagarde expedira de Lisboa ordem
de priso contra meu pae. No lhe custou a implical-o na devassa, e
contava provavelmente fazer de mim o penhor da sua clemencia...

Desde ento trocmos o socego domestico pela vida attribulada, que ha
mezes nos no consente uma hora de repouso. Acossados, como feras,
vagueando de homizio em homizio, e de solido em solido, por toda a
parte a hospitalidade dos que nos accolhiam, no sem risco, nos foi leal
e caridosa. Rodeados de espias, inculcados aos delatores como presa
digna de subido premio, achmos na bondade rude, mas sincera, dos
casaes, coraes de ouro, que nos agazalharam com o maior carinho, e
almas compadecidas, que nos ajudaram a supportar o peso da desgraa.

Os mais pobres foram to honrados como os ricos. Ninguem nos trahiu.
Perseguidos como ros de grandes crimes, todos os braos se abriram para
nos receber, todas as portas se fecharam cuidadosamente para nos
guardar... Descansmos, por fim, mas  porta de uma priso, e nas mos
de inimigos implacaveis! Meu pae dormia, e nem teve tempo de se
defender... Estimei! J que havia de ser, foi melhor assim! Chegmos a
tempos em que  delicto at o valor! Um malvado, cego e venal
instrumento de Lagarde, descobriu o nosso ultimo asylo, e prendeu-nos 
traio...

Com que socegada ignorancia te ouvia eu pintar a vida, que nos
aguardava fra das grades da nossa priso dourada!... Com que vaidade
infantil me compadecia das fragilidades das donzellas, cegas de amor,
que tudo arriscam por seguir o eleito da sua alma!... Castigou-me Deus!
Sou mais escrava, mais timida deante da minha fraqueza, do que nenhuma!
A ternura, que sinto por elle  to grande, que me quebra a vontade e o
orgulho.

Felizmente adoro um homem digno do meu corao. Mas se o no fosse!
Marianna! No me vejas crar, no me vejas cobrir o rosto de pejo! Se o
no fosse... Perda! hei de ter animo de confessar a verdade, amava-o do
mesmo modo, sei que o amava tanto, porque mais  impossivel!... E agora
ters d de mim?! Falars ainda da soberba, que me fazia idolo
indifferente a todos os cultos?!...

Cheguei quelle excesso, em que parece que o corao no vive seno do
que  de outrem, do que o amor, que inspira e domina tudo, quer dar-lhe
quasi por esmola! A minha luz, todas as minhas esperanas, todo o
futuro, pendem de um olhar, de um sorriso, de uma palavra d'elle!... V
como o prso, e como deixei de ser a mesma!... Ha cinco annos, quando
iamos sentar-nos debaixo das madresilvas do caramancho do convento, em
quanto as nossas amigas passavam, correndo e saltando com os seus risos
descuidados, porque suspiravas tu, e por mais que eu interrogasse a
minha alma, porque a achava sempre muda e insensivel!?... O que foi que
me acordou d'aquelle somno tranquillo, d'aquella apathia dos sentidos,
que s despertam com o primeiro alvoroo, quando entre jubilos e
sobresaltos o peito comea a agitar-se? No sei se outras so assim.
Vivo desde que principiei a amar. At ahi dormia. Era uma estatua! O meu
corao como que esperava _por elle_ para se abrir e brotar essa flor
to mimosa, que um nada queima, to rara que uma vez s na vida a
sentimos pelo perfume, pela alegria, pelo esplendor... Desejava ser
formosa, ser princeza, ser rainha, ser tudo, para elle subir, e eu me
saber invejada. Que loucuras! V! Agora mesmo estou perguntando, sem
querer, ao espelho bao e empanado da minha priso, por esta noite
medonha de troves, se me acha ainda bella?!...

Neste ponto terminavam as confidencias. Leonor nem acabra de formar as
ultimas lettras. Quando, entre o meio sorriso e as rozas avivadas, de
que a travessura da revelao lhe animra o semblante, ergueu de repente
os olhos para o espelho, a que alludia na carta, pasmou, estremeceu de o
vr mover-se lentamente com a moldura, e entre-abrir-se como uma porta.
Outra, menos varonil, teria soltado vozes de terror; ella no. Fez-se
pallida, sentiu-se fria, porm no articulou palavra, nem deixou escapar
um grito. De p, tremula, com os olhos fitos e algum tanto dilatados
pelo espanto, aguardou a aventura, que esta singularidade lhe promettia.
No esperou muito. O espelho girou, rangendo um pouco, e  entrada da
passagem occulta, que fechava, appareceu uma figura com um castial na
mo, avultando  medida que se adeantava e que a luz mortia da vla lhe
batia no corpo, desfazendo a escuridade. Era um homem de carne e osso, e
no um fantasma. Podia ser um salteador, um assassino, ou um indiscreto,
no era de certo uma alma penada. A donzella respirou. Apezar da
fortaleza do seu espirito a viso tinha-lhe paralyzado os membros, e o
corao, pulando descompassado, trahia o susto, que os labios a custo
disfaravam. O desconhecido trajava de preto, vinha envolto em um capote
de cabees, e as largas abas do chapu enchiam-lhe o rosto de sombras.
Quando percebeu que Leonor o contemplava, levou o dedo  bcca e
recommendou silencio. No movimento de brao o capote descobriu os canos
luzentes de duas pistolas passadas em um cinto de couro, e a bainha de
uma espada larga e curta.

A filha de Paulo de Azevedo deixou-o approximar de si sem denunciar
terror. S falava com a vista, e desvanecido o primeiro sobresalto, o
que o semblante exprimia era a curiosidade natural, excitada pela
visita, que, por tal modo e a taes deshoras se via obrigada a receber. O
hospede punha entretanto os ps no sobrado, roto e carunchoso, com tanto
resguardo, e pisava com to grande subtileza, que os passos eram surdos,
como se caminhasse por cima de l. Chegando ao p d'ella, encarou de
perto a formosura intrepida, que sem receio olhava para elle firme, e um
sorriso alegrou a sua physionomia carregada, certo ar de sincera
admirao inculcou que no contra encontrar tanto valor.

--Vejo que no me enganaram! murmurou ao ouvido de Leonor. Tem mais
animo, do que muitos homens.  digna do que tentmos para a salvar e a
seu pae!

--Mas quem ?... D'onde vem?... Como est aqui?!... perguntou a donzella
atropelladamente, mas no mesmo tom submisso.

--Somos tres. Os meus companheiros esperam no fim do corredor, que
desembocca n'esta porta secreta. Pertencemos ao conselho conservador de
Lisboa, soubemos da priso de seu pae, e seguimos os milicianos de
longe. O lavrador, que traz esta casa de renda,  nosso, e ensinou o
modo de entrarmos aqui. Temos caminho facil para fugir.

--Ah! E Manuel Coutinho veiu tambem?... accudiu Leonor crando.

--No! Pouco ha de tardar. Est perto, e mandou-se-lhe recado... Mas os
momentos so preciosos. No podemos demorar-nos aqui. Quer ir acordar
seu pae sem bulha e dizer-lhe?...

--J! Vou immediatamente. So dois minutos em quanto volto com elle.

--Pois sim. Aqui espero.

De feito, instantes depois Leonor tornava com Paulo de Azevedo, e este
apertava silenciosamente a mo ao desconhecido, que lhe dizia em voz
baixa:

--Venha! Temos os cavallos promptos e tudo a postos. Simo da Costa e
Nuno do Rio, seus amigos, esto alli dentro, Manuel Coutinho vem j
caminho da Ponte... So mais de onze horas. s duas samos, se a noite
lhe mette menos medo, que a cadeia de Santarem...

--Quando quizer. Para onde?...

--Para Lisboa. Para o covil do Lobo. Aonde menos cuidem que pde estar,
ahi ser o mais seguro.

Paulo inclinou a cabea e seguiu-o com sua filha.

O espelho fechou-se. Quando o sargento veiu no achou nem o rasto de
seus presos.




VIII

Entre os bastidores


L sabemos como Leonor e seu pae conseguiram evadir-se sem as chaves da
priso sarem do bolso do carcereiro. Agora cumpre-nos explicar a
resurreio dos mortos na casa maldita, e esboar em duas palavras a
biographia do intrepido espectro, que, mascarado em alma do outro mundo
para assustar os valorosos milicianos da comarca, s ordens do sargento,
baqueou das andas abaixo, transido de pavr, por achar o defunto, de p
tendo-o visto entrar em braos dos creados.

Nos acontecimentos d'esta infausta noite para os agentes da policia
franceza, o morto-vivo e o espectro medroso representaram um papel, que
os torna dignos de nos demorarmos com elles por algum tempo.

Principiemos pelo honrado fazendeiro, cuja desastrada sina choram em
cro as visinhas e as comadres da aldeia. Como o encontramos de repente
so e escorreito com profundo terror dos sicarios, que se julgavam
livres do seu nodoso cajado de marmeleiro? Que santo obrou o milagre de
levantar da sepultura este Lazaro de japona para confuso e ruina dos
inimigos? Como dormiu elle no reino das sombras tantas horas, e s
accordou, como ao rebate da trombeta final, com o dobre fatidico da meia
noite, hora fadada a vises, a trasgos e a feitios?

As tres perguntas so razoaveis, e a curiosidade do leitor  natural.
Desejariamos de bom grado asseverar-lhe, sem faltar  verdade, que o
sabido condo do palacio deserto fra o auctor de todos os prodigios,
porm somos obrigados a confessar como sinceros chronistas, que at aqui
o maravilhoso e o sobrenatural s existiram na imaginao escandecida de
alguns dos actores, que pozemos em scena. Tudo o que passou se explica
perfeitamente sem ser preciso prevalecermo-nos da m reputao da Casa
Negra.

Em primeiro logar o Manuel Simes no resurgiu  sexta hora de entre os
mortos, embora padecesse sob o poder do sargento Cabrinha, porque para
resuscitar era necessario estar morto, e elle nunca chegou a fallecer! A
bala do _Sapo_ roou-lhe pela testa, ferindo-o de raspo, e lanando-o
por terra sem sentidos; mas no penetrou na cabea.

Quando vieram as mulheres, e entoaram em roda do seu corpo as nenias
costumadas, principiava elle a voltar a si; e quando o Joo da Ventosa
se approximou, suando e esbaforido, porque do alto de um cabeo ouvira o
tiro, e dois minutos depois descobrira no luz-que-fusque o _Sapo_,
correndo em saltos de gafanhoto com a espingarda na mo, j achou o
corpulento fazendeiro sentado no cho, muito tonto ainda como se
recolhesse de alguma feira, ou romaria, porm sem leso grave, e
apalpando escrupulosamente todos os ossos e costellas.

--Ah! Ah! Compadre! gritou o rendeiro extendendo a mo ao amigo e
contentissimo de o ter vivo. Com que ento os caadores andam pelo
sitio, e fizeram-lhe alvo da cabea? Safa demonio! ajuntou
examinando-lhe a fronte mais de perto. Escapou mesmo por uma unha
negra!... O maldito tinha-lhe vontade, e no queria perder a polvora.
Upa!... Pde vir outra ameixa detraz do vallado, e custar-nos mais a
engulir... Se foi s isso no  nada. Mas!...

--Ainda no foi d'esta, sr compadre, e se eu soubesse quem me fez a
esmola... com seiscentos milheiros... de cobras!... Moia-lhe os ossos
com este cajado mais moidos que pimenta em almofariz... Patife!
Atirou-me como a um lobo! Ah, sr Joo, vossa merc acaso veria quem foi
o alma ruim?!... Parece que tenho dentro da cabea a m do moinho a
zoar, e que me anda tudo  roda! Ora esta!...

--Olhe compadre, o melhor  mudarmos de pouso; depois falaremos. Alli em
baixo, na fonte, ata um leno molhado na cabea, e l em casa lhe
diremos o que vimos. Agarre-se a mim, no tenha vergonha. Forte
historia!

--Antonio me no chame eu, sr compadre, se me ficar inteiro uma semana
o ladro, que me pregou esta bala! Hei de achal-o, mas que haja de
descer vestido e calado em busca d'elle aos infernos...

--No ser preciso, homem!... Agarra-o c em cima sem ir to longe. Mas
ha de fazer o que eu disser.

--Pois v! Olhe que o dito, dito! Isto no se leva a rir.

--Tem razo, compadre; vamos. Trago c uma ida!... Emfim! O que for
soar...

Os dois pozeram-se a caminho, porm muito devagar, porque Manuel Simes
de cinco em cinco passos cambaleava com vertigens, a que chamava
nobremente vagados. Era noite fechada, quando avistaram a Ponte da
Asseca, e a casa. Chovia e trovejava que mettia mdo.

O Joo da Ventosa, que em todo o tempo no soltra palavra, labutando,
contava elle depois, com a sua ida, virou-se ento para o fazendeiro e
disse-lhe que se deitasse e se fingisse morto emquanto a chamar os
creados.

--Que me deite e faa morto, salva tal logar?! Oh sr compadre?!
exclamou o ferido. E para qu com um milheiro de cobras?...

--Para apanhar a raposa e as gallinhas na capoeira. Voc no sabe,
homem!? No v que se quem lhe atirou atinar que perdeu a bala muda-se
com vento fresco, e nunca mais lhe pomos os olhos em cima...
Estire-se-me j n'esse cho, no venha alguem. Nem trus, nem buz! Pela
lingua morre o peixe.

--Ora essa!... Sempre tem cousas, este sr compadre! Com que ento ainda
em cima quer que me espoje n'este charco, e que feche a bcca a
cadeado?... V l! Por esta no esperava eu. Arrenego!

--Viu pescar  linha sem anzol, sr casmurro? Vamos. Esse corpanzil j
por terra, e caluda! No me demoro.

Manuel Simes, resmungando, e praguejando, sempre se foi deitando no
sitio mais enchuto.

Minutos depois tornou o compadre com o maioral e o abego, em grandes
lastimas por tamanha desgraa, e levaram-o por morto em braos at 
cozinha da casa, aonde o vieram encontrar, como vimos, os dois
assassinos.

Os creados, apezar de conhecerem por experiencia a fora herculea do
Joo da Ventosa, benziam-se de que elle tivesse carregado s com aquelle
corpo, to pesado, desde a azinhaga, como lhes dissra. Sentiam os
braos derreados s de o trazerem de to perto!

O lavrador mandou accender fogo, e pr agua ao lume; pediu um alentado
cangiro de vinho, uma tigela de assucar mascavado, e chamou de parte a
tia Margarida, ministro feminino de todas as reparties domesticas da
granja, para lhe confiar o occorrido, exigindo o maior segredo. A velha
esconjurou-se, louvou a Deus pelo milagre visivel, e sau, trotando e
rosnando, para fazer a cama ao fazendeiro em um vo escuro, e desviar da
cozinha a vista e as orelhas dos curiosos.

Seguiu-se um entre-acto bacchico, durante o qual a agua quente e o
assucar serviram de pretexto ao vinho, o qual representou a parte
principal. Estava j menos de meio o cangiro, quando a voz esganiada
de Jos Vardasca, diabrete de quinze annos, sobrinho do rendeiro, em
altercao com o contralto enrouquecido da tia Margarida, obrigou os
dois campees a suspender as hostilidades. Manuel Simes amarrou o leno
manchado de sangue  roda da testa, de modo que lhe cobrisse a cara, e
extendeu-se sobre a mesa de pedra. Um feixe de palha serviu-lhe de
cabeceira, e uma manta cobriu-o at aos ps.

Ensaiada assim a pea, Joo da Ventosa abriu a porta, e com
um--Ol!--que fez tremer as paredes, poz termo ao dueto da velha e do
rapaz.

Jos Vardasca no vinha s. Acompanhava tres sujeitos, envoltos em
capotes de baeto grosso de gola alta, cobertos com sombreiros de abas
derrubadas, os quaes esperavam fra da porta, no escuro, que elle dsse
ao tio o seu recado.

Ao que parece os viajantes eram conhecidos do rendeiro, porque apenas o
rapaz lhe disse, quasi ao ouvido, algumas palavras, este correu sem
chapu apezar da chuva, e encaminhou-se para elles. Ninguem ouviu o que
falaram, mas os creados viram desapparecer o amo e os hospedes por
detraz do muro da horta, e recolher-se passado um pedao o Joo da
Ventosa s, em ar de quem se no tinha cansado com o passeio. As
conjecturas dos servos no foram adeante. Cuidaram que elle sara a
metter os tres embuados no atalho da azinhaga, e se acaso se admiraram
foi, sendo to largo e generoso, de lhes no ter dado agasalho em sua
casa por uma noite, em que a agua era tanta, diziam os rusticos, que a
podiam os ces beber de p!

Mas o lavrador sabia melhor do que elles o que fazia. E ns, que no
somos de segredos, e que no receiamos que a policia dos francezes nos
tome contas em 1864, das conspiraes de 1808, no duvidaremos revelar
as razes do seu procedimento.

Os tres sujeitos eram nada menos do que tres delegados do conselho
conservador de Lisboa, associao composta de patriotas dedicados 
restaurao da independencia e do throno legitimo, e decididos a todos
os sacrificios para arrojarem da sua terra os soldados de Bonaparte.
Tinham atado relaes em todo o Ribatejo com os homens que podiam
ajudal-os em seu arriscado proposito, e haviam partido dias antes da
capital para se reunirem em Santarem com Manuel Coutinho e alguns
cavalheiros do Sardoal, Leiria, Pernes e Rio Maior, no intento de
assoprarem de mais perto a irritao popular, e de irem dispondo os
animos para a sublevao geral, que meditavam, apenas as cousas lhes
proporcionassem ensejo favoravel.

Joo da Ventosa, assim como o Manuel da Cruz, e outros visinhos,
iniciados em parte do plano, executavam com cega fidelidade todas as
ordens emanadas d'este governo occulto e revolucionario, que na ausencia
da familia real, e em presena do jugo estrangeiro, representava para
elles a unica e verdadeira auctoridade do paiz.

O rendeiro, pois, assim que os tres desconhecidos lhe repetiram as
palavras, que serviam de senha aos amigos da liberdade--pelo rei e pela
patria--largou tudo, e offereceu-se logo para o que mandassem com a
maior submisso.

A reputao diabolica da Casa Negra, guardava-a por tal modo da
curiosidade, que nenhum refugio mais seguro podiam encontrar os
conspiradores, no s para pernoitar, mas afim de celebrarem as
conferencias. Explicaram os seus desejos ao lavrador, e este, que o medo
dos fantasmas no vexava, guiou-os pela horta a uma entrada secreta,
disfarada com um tapume de tbuas, e introduziu-os nas salas e
aposentos do primeiro andar do palacio. Accendeu luz com o fuzil,
ensinou-lhes alguns dos segredos dos quartos e corredores, e prometteu
trazer-lhes vinho e refrescos.

A chegada do sargento e dos presos, espertando a imaginao do malicioso
rendeiro, e a coincidencia de abrigar debaixo do mesmo tecto a victima e
os assassinos, suscitou-lhe a ida de salvar Paulo de Azevedo e sua
filha das garras dos agentes de Lagarde, castigando ao mesmo tempo a
perversidade de Cabrinha e do seu acolyto. Avisou os delegados do
conselho de Lisboa, ajustou com elles a maneira de fazer evadir o
cavalheiro de Mafra e Leonor, condemnou o fazendeiro  immobilidade,
assegurando-lhe em premio da sua paciencia as delicias da vingana, e
para no omittir nenhum episodio distribuiu ao travesso Jos Vardasca o
papel conspicuo de phantasma branco, marcando a todos a meia noite, como
a hora mais opportuna para o feliz exito do drama.

Sabemos qual foi o resultado. Os milicianos fugindo, o _Sapo_ correndo
at perder o folego, e o sargento estatelado sem sentidos no meio da
cozinha! O que se tornou mais difficil foi calar os berros do intrepido
Jos Vardasca, assombrado com a vista do fazendeiro, e convencel-o de
que no estava com um defunto, mas com um homem vivo e inteiro. O rapaz
no se rendeu  evidencia, seno depois que viu e apalpou como S. Thom.

O sargento, cujos ossos ameaou por umas poucas de vezes o cajado, ou
antes a clava de Manuel Simes, e que o Joo da Ventosa no trabalhou
pouco por salvar ainda d'esta vez, o sargento, desmaiado e inerte, foi
levado para cima de um catre e vigiado por um dos moos com ordem de
chamar o lavrador assim que abrisse os olhos. O fazendeiro da Aramanha,
mal rompia a aurora, tomando o conselho do compadre, montou n'uma egua,
e partiu para casa a descanar, no sem primeiro rezar um responso s
costellas do virtuoso Cabrinha e ao pescoo de Gaspar Preto, aonde quer
que os encontrasse.

O sargento esteve duas horas sem accordo. Quando voltou a si no via
seno fantasmas em redor da cama. Custou a socegal-o.

O que mais abalra aquella alma seraphica fra a fuga dos seus presos!
No podia conceber como lhe tivessem escapado, e na sua dor pharisaica
arrepellava as melenas, e blasphemava como um possesso, jurando contra
Satanaz, contra a Casa Maldita, e contra si. Mesmo de noite quiz sar.
Pediu o cavallo, outro espectro na transparencia e magreza, e
cravando-lhe as esporas voou a Santarem, talvez na esperana de ainda
pr a mo em cima da presa.

Voltemos agora  Azenha de Cima, aonde deixmos Manuel Coutinho e o
Antonio da Cruz, esperando pelas horas mortas da noite afim de
emprehenderem a campanha planeada por ambos.

Apezar da chuva caudal e dos relampagos, o moo do moinho, garoto leve
como um ginete, que via de noite como os gatos, e era capaz de entrar
pela bcca de uma manilha, tinha sido mandado pelo amo  descoberta at
 Casa Negra com ordem expressa de no se deixar agarrar, e de espreitar
em roda com a sua curiosidade habitual. O rapaz partiu a correr, como se
a agua lhe no batesse em cima s torrentes, e uma hora depois voltava
com a noticia de que os presos estavam na Casa Maldita, de que o
sargento, o _Sapo_, e os milicianos ceiavam regaladamente com o Joo da
Ventosa, e de que o corpo do Manuel Simes fra recolhido pelo lavrador,
e jazia com uma vla aos ps e outra  cabeceira na mesma cozinha, aonde
o beleguim emerito e seus sequazes se estavam banqueteando.

Em toda esta chronica, narrada pelo moo com incrivel volubilidade, o
que mais socegou o animo de Antonio da Cruz foi a certeza, de que o
cadaver do fazendeiro da Aramanha no desapparecra, como se dizia, por
artes do demonio. Estava prompto a medir-se e a arcar com uma companhia
inteira de milicias, mas o inimigo do genero humano tremia s de cuidar
que poderia encontrar-se com elle um s instante!

--Ah Jos! disse depois de certa pausa. Ento o sr Joo da Ventosa 
que levantou o corpo do Manuel e o levou para casa?... Ests bem certo?
Viste?...

--Com estes dois que ha de comer a terra, respondeu elle, fazendo uma
cruz com os dedos, e beijando-a. Assim me Deus salve a minha alma. Ah
patro, que _diluivo_ de agua que vae por ahi abaixo! Parece que quer
alagar-se hoje o mundo. Credo!...

-- verdade! accudiu o moleiro. Vens um pinto... Vamos! Que tal te sabia
um trago, ou dois de agua p, ein? A roupa no te pesa e ests tiritando
que parece que te apanhou uma sezo...

O liquido medido com largueza pagou os trabalhos do moo, e o amo
despediu-o logo depois, em quanto Manuel Coutinho passeiava de um lado
para o outro inquieto e murmurando por entre dentes algumas palavras.

--Antonio! observou o mancebo, parando de repente defronte do moleiro, e
encarando-o firme. Atreves-te a ires commigo  Casa Negra, para
enxotarmos de l o sargento e a sua quadrilha? Elles so oito, ou nove,
mas ns dois bem armados e decididos?!...

--Valemos por dez ou doze. V feito, senhor! A espingarda  de dois
canos e a choupa est amolada... V. s.^a quer a outra espingarda?  um
instante em quanto se carrega?

--No!... Sim!... Carrega! Guardarei as pistolas e a espada para o fim
se for preciso.

--Quer que vamos j?... Sinto uns formigueiros n'este brao, que no me
deixam seno quando assentar em cheio duas boas lambadas nas costas do
sargento e na cabea d'aquelle alma ruim do _Sapo_...

--No as perdem, mas espera!... Que bebam at car. Ns os faremos
erguer. Podes fumar homem!

--Com sua licena.

O dialogo acabou aqui. Manuel Coutinho sentou-se com a cabea entre os
punhos e os cotovellos na mesa, scismando, e o Antonio poz-se com todo o
vagar a carregar e escorvar a espingarda. Depois foi ver as ms se
tinham gro, abriu o ladro da presa, e quando tornou, veiu encontrar
ainda o patro na mesma posio com o relogio deante de si e os olhos
cravados nos ponteiros.

--Agora! exclamou o mancebo levantando-se com impeto.  meia noite!
Esperam por ns. Vamos! E cobrindo-se com a manta, que o Antonio
extendera a enxugar ao lume, passou as pistolas no cinto, apertou o
boldri da espada mais alto, e pegou na espingarda.

O moleiro ainda se apromptou mais depressa. Enrolou-se na manta, cobriu
com ella a coronha e os fechos da clavina, metteu-a debaixo do brao
esquerdo, e empunhou com a mo direita o inseparavel varapau rematado
pela choupa. No momento, em que estava dando volta  chave da porta um
immenso claro livido abriu os cus, o outeiro illuminou-se de fulgores
sinistros, e a casa tremeu com a terra ao ribombo do trovo
perpendicular. Apezar da sua intrepidez os dois recuaram quasi
assombrados at ao meio do aposento: Santa Barbara! bradou o Antonio
benzendo-se. Jesus! clamou o amo ao mesmo tempo. Ficaram immoveis ambos
olhando um para o outro.

--Deixemos passar a maior, senhor! disse d'ahi a instantes o vigoroso
aldeo. Ella anda mesmo por cima da nossa cabea...

--Pois sim. Deixemos! redarguiu Manuel Coutinho sentando-se no banco
defronte da porta.

Minutos depois outro relampago menor allumiou o campo, e  luz d'elle
viram vir correndo ennovellado direito ao moinho um vulto, que mais
parecia na velocidade um furaco, do que um homem.

--Oh l! disse em voz cheia o moleiro. Castelhanos por aqui  meia
noite?! Quem temos?  bom vr sempre!...

No teve tempo para mais, do que para se desviar, extender o brao, e
segurar pela golla o impetuoso vulto, to cego na partida, que se elle
no se arreda a tempo, colhe-o pelos peitos, despedido como uma bala de
canho, e atira-o ao cho, porque trazia fora para arrombar portas e
paredes.

--Ah, s amigo, aonde vamos com tanta pressa? exclamou o Antonio, o qual
affeito a apanhar na praa os bois de cara, amarrava ao limiar com o
vigoroso pulso o desconhecido, que, estafado e convulso, estacou
arquejante e sem poder falar.

Manuel Coutinho, callado e quasi indifferente, havia-se approximado da
porta, e contemplava a scena, como quem s desejava, que ella se no
prolongasse. Antonio da Cruz adivinhou a impaciencia do mancebo, e
voltando-se para elle disse-lhe:

-- um instantinho, meu amo! Entretanto amaina mais a chuva... mas nadar
por estas horas com mouros na costa, nada!... Vamos, patro, desate-me
j a lingua, como desatava as pernas pelo cabeo arriba, e diga para ahi
quem , e o que faz correndo por esta linda noite at  porta da gente
de bem!... Vamos, desembuche, seno!...

--Sou... Sou...

--! ... Quem? Cousa boa, no decerto. Com a breca! Entre que lhe
queremos ver o focinho  candeia. Melros s escuras podem sar
morcegos!...

E ao mesmo passo arrastava para dentro da cozinha o vulto, que
escorrendo em agua, e cortado de frio e medo, nem lhe resistia, nem
tinha animo para articular palavra. Apenas lhe metteu a luz ao rosto, o
moleiro, fitando-o, voou de um salto  porta, fechou-a, e voltando-se
para Manuel Coutinho, disse-lhe com um riso amarello:

--Aposto que v. s.^a no  capaz de adivinhar quem o diabo nos trouxe
por aqui? Sabe quem  este cara de fuinha?...

--Nunca o vi. No o conheo.

--Pois olhe que perde!... Isto  o maior heroe c dos sitios... Nem mais
nem menos, do que o sr Gaspar Preto, por alcunha o _Sapo_!...

--O _Sapo_? J te ouvi esse nome... Ser?!...

--O maior ladro e traidor da cafila dos jacobinos... Oh, mas por aqui a
esta hora, no  natural! O sargento Cabrinha no anda longe, aposto!...
Este velhaco  o seu brao direito...

--Percebo!... bradou o mancebo, deitando tambem a mo ao _Sapo_, e
saccudindo-o de modo, que se repetisse, ameaava desconjuntal-o.
Antonio! No o deixes escapar! Foi Deus que o trouxe...

--Deus?!... Antes o demonio, cujo !... No importa. Veiu por guloso?
Pagar as dividas que tem na minha conta. Se havia de ser manh  hoje.
Gaspar! Toma sentido! Se no me respondes direito, por alma de minha me
te juro, e sabes que nunca jurei em vo, que deixas aqui a pelle pelos
ns d'essa corda, ou os ossos na vara do meu cajado...

--Sr Antonio, por quem !...

--Por quem sou mesmo. Prometti, e costumo cumprir.

--Nunca lhe fiz mal...

--Hum! Nem bem!... Vamos! Cabea alta e lingua solta. D'onde vens?

--Da Casa Negra, aonde appareceu o demonio ao sargento, a mim, e aos
milicianos.

--Ah! Ah! accudiu Manuel Coutinho. Deixa-me perguntar. Este fio pde
levar-nos longe.

Interrogado pelo mancebo, entre o pavor dos espectros e o medo das
ameaas de Antonio da Cruz, Gaspar Preto fez uma confisso geral to
sincera, que at o segredo do tiro dado em Manuel Simes lhe saltou
quasi todo da bcca sem se sentir. O pavor ensandecia-o.

--E affirmas no estar j ninguem na casa, seno os presos?

--Ninguem, a todos os vi fugir, como lebres...

--E o sargento?

--Desappareceu. Foi o primeiro.

--Bem! Agora ns! atalhou o moleiro. O que vinhas tu aqui cheirar
ante-hontem? Se disseres a verdade no te toco.

--Eu!... Eu!...

--Tu sim!

--Vinha ver... se havia gente de fra por c!... redarguiu o malsim
contido pelo olhar firme de Antonio, e estorcendo-se como se lhe
estivessem dando tratos.

--Ora graas a Deus! J confessas!... Vinhas ento como espia! Est bom.
Outra pergunta. Quem foi ao Casal do Ouro? Fala!...

--Eu!... Suspirou tremulo o miseravel.

--Quem te mandou?

--O sargento... Que eu por mim!...

--Bem sei. Vamos a outra historia. Esta tarde deram um tiro no Manuel
Simes?... V bem! Quem foi? Olha l se mentes!...

Gaspar sentiu dobrarem-se-lhe os joelhos, fugir-lhe a vista, e
zumbirem-lhe os ouvidos. Esbugalhou os olhos, e por mais que quizesse
no poude pronunciar uma syllaba.

--Quem deu o tiro, quero saber! repetiu o moleiro, meneando o varapau e
encarando o assassino com terrivel gesto.

--No sei... No sei...

--Sabes e viste. Essa cara de ro o est confessando. Fala. Quem foi?

--Eu!... por descuido...

--Descuidos teus, j sei.  o que suppunha. Agora v l!... O sargento
no te tinha dito nada?...

Houve uma pausa longa. O _Sapo_ chorava, supplicava, mas no redarguia 
interrogao.

--V. s.^a j viu esmagar uma osga contra uma parede? bradou o Antonio
fuzilando-lhe as pupillas, e convulso de cholera. Pois vae ver.
Juro-lhe, se este co se cala um minuto, que deixa os miolos n'aquelle
muro.

--Pelo amor de Deus!... Sr Antonio no me deite a perder!...

--O sargento sabia?... replicou o outro alando o cajado.

--Jesus!... No me mate!

--Sabia ou no?...

--Sabia!... rosnou o malsim quasi sem sentidos de terror.

--Quanto te prometteu... pelo tiro? Conheo-te. Tu de graa no o
disparavas.

--Agora isso no! Pde matar-me, mas no confesso.

--Eu matar-te?... Para que? O carrasco no come po de graa.

--Ento entrega-me?!...

--Com anginhos nos dedos e ferros aos ps. Juro-te! Dize a verdade,
homem. Do mal o menos. Quanto te prometteu? Olha que a corda, que ha de
pendurar-te na forca, j est fiada e torcida...

--Se eu disser no me descobre?

--No! O teu crime te descobrir. Quanto?

--Seis moedas...

--Por conta, ou ao todo?

--Por conta. As outras seis... havia dar-m'as em Lisboa... quando
levassemos os presos.

--Ah! Agora repara. Vamos s nossas contas. Gaspar, devo-te uma sova
mestra pelo natal passado e outra por este entrudo. Bem te has de
lembrar por qu!... Mas perdo-te, tudo, e at no tiro dado em Manuel
Simes no hei de boquejar... se juras fazer ao sargento o que elle te
mandou fazer aos outros...

--Matal-o?!... exclamou o _Sapo_, cuja vista feroz se inflammou.

--No, maldito! A justia que o mate, quando o sentencear!

--Ento?!...

--Quero que vejas, que ouas, e que me digas tudo quanto elle fizer?
Percebeste?

--Sim senhor...

--V l. Se te escorrega um p, ou a lingua, e eu o sei... guarda-te!

--No ha de ter razo de queixa. Sou-lhe muito obrigado.

--No me ds mel pelos beios, que no sou abelha. Cuidado commigo.
Depois!...

--J lhe disse. Fique descanado.

--Fico, fico! No tem duvida. Agora vens comnosco  Casa Negra.

--Oh, sr Antonio, por alma de sua me, pela sua boa sorte, tudo quanto
mandar, menos isso... Sirvo-o de rastos, estou prompto a lamber o cho
aonde pozer os ps, mas tornar alli... isso no!

--Ah! Tens medo do diabo?...

--Mate-me, entregue-me, faa de mim o que quizer, mas no volto l.

E as feies repulsivas do malsim exprimiam por tal modo o medo e o
espanto, e revelavam uma resoluo to decidida de se expor a tudo para
no obedecer, que Manuel Coutinho disse algumas palavras ao ouvido de
Antonio da Cruz.

--Pois bem, esperars por ns. Ahi te deixo agua p e bra. Mas sentido!
Olha que te quero encontrar  volta!... Forte homem! Ter pavor assim de
almas do outro mundo!...

--Ah! sr Antonio! Se voc visse!... O fantasma branco alto como um
cypreste crescer para si, e o defunto sentar-se de repente e olhar... Ai
Jesus! Parece que os estou vendo ainda! Quando me lembro cuido que
enlouqueo!...

--Est bom! Est bom! At logo! Com que viste o defunto e o fantasma?...
insistia o moleiro serio e apprehensivo, olhando para o amo com certo
enleio.

--Como o estou vendo a voc, sr Antonio. Credo!...

Manuel Coutinho encolheu os hombros, conchegou o capote e sau. O
Antonio no teve mais remedio seno seguil-o, mas apezar de todo o seu
valor benzeu-se, e o corao batia-lhe mais rijo no peito, do que se
visse um touro partir contra elle enfurecido.




IX

Que talvez podesse servir de prologo


Deixemos descanar por um pouco os heroes d'esta mui veridica historia,
em quanto corremos rapidamente os olhos pelos successos, de que a
Peninsula foi theatro n'este periodo memoravel.

Sem um resumido esboo, dos factos, que servem de fundo e de moldura ao
quadro, difficilmente formar o leitor exacta ida d'elle.

Os francezes, como dissemos, tinham atravessado as provincias, e entrado
na capital com o nome de amigos. Retirando-se com a esquadra para o
Brazil, o principe regente entregra em suas mos o reino sem defeza. As
ultimas ordens de sua alteza, datadas de 26 de novembro de 1807, ordens
pacificas e conciliadoras, abrindo-lhes as fronteiras, ajudaram mais,
que as armas, os generaes de Bonaparte a superar os obstaculos da
invaso.

Junot confessou-o nas primeiras proclamaes! A obediencia, to elogiada
por elle, e dictada pelas circumstancias, ainda no encerrava os
ressentimentos, que tornaram depois vacillante e precario o dominio
estrangeiro.

O regimen absoluto, que as reformas do marquez de Pombal no conseguiram
remoar, adoecia de incuravel decrepidez. Muitos homens illustrados, que
o grandioso espectaculo dos acontecimentos advertia, suspiravam por uma
renovao, que no podia nunca ser inspirada, bem o sabiam elles por
experiencia, nem pelas idas, nem pela iniciativa de um governo caduco.

Esta illuso de animos generosos durou pouco. Os que amavam sinceramente
a patria depressa se desenganaram da vaidade das promessas dos
conquistadores.

Estes, apenas se reputaram seguros, arrancaram a mascara, e pozeram
termo s complacencias. Assim que viu reunidos e repousados os corpos
dispersos por longas e precipitadas marchas; assim que os soldados lhe
pareceram restaurados da fome, das inclemencias da estao, e da
aspereza do transito o general em chefe canou-se de dissimular, falando
com a altivez de vencedor aos que o tinham recebido como hospede!

Foi ento geral o sobresalto. Os actos despoticos e oppressivos
dir-se-am calculados para irritar o ciume e o amor proprio do paiz. As
guardas de Lisboa confiadas s aos francezes; o emprestimo forado
imposto ao commercio com o praso de vinte dias; a insolencia do famoso
decreto de Milo condemnando como sujeito a resgate o reino que no fra
conquistado; as armas reaes picadas do fronto dos edificios publicos; e
a bandeira nacional arriada no castello e nas fortalezas, e substituida
pelos estandartes tricolores, foram outros tantos erros dos dominadores,
que a saudade da independencia registrou como ultrajes.

Desde o dia 13 de dezembro, em que Junot rodeado de pompas guerreiras,
mandra baixar o pavilho das quinas deante das aguias do Sena, nunca
mais houve paz entre a nao offendida e os invasores. A luva ficou
desd'esse dia no cho por falta de chefe, que a levantasse; porm,
decorridos mezes, Portugal erguia-se para responder  provocao,
envidando valor egual aos brios.

Atraz da occupao da pequena monarchia, que o orgulho do gabinete de
Saint Cloud estava ainda longe de suppor, que podesse tornar-se em breve
um dos inimigos implacaveis de sua ambio, pouco se dilatou a invaso
de toda a Hespanha. Assignando o tractado de Fontainebleau, que repartia
os membros de Portugal entre os Bourbons, os francezes, e o principe da
Paz, auctorizando a entrada de quarenta mil soldados em seus dominios,
Carlos IV no percebeu que firmava a propria abdicao.

Bonaparte anciava um pretexto para realizar os seus designios.
Deram-lh'o os enredos aulicos, o nucleo de descontentes, de que se
rodeava o principe das Asturias, depois Fernando VII, e a m vontade de
todas as classes contra o ministro omnipotente, valido do monarcha e
amante da rainha; deram-lh'o egualmente a miseria, a inquietao, a
decadencia geral, e o presentimento de immensas catastrophes.

As dissenses da crte, filhas da lucta do herdeiro da cora com os
soberanos e com o privado, D. Miguel de Godoy, e a indiscreta revelao
dos aggravos reciprocos, levada ao tribunal do imperador, para este
sentenciar como arbitro a familia real, ajoelhada a seus ps,
facilitaram a occasio appetecida por Napoleo I, precipitando a queda
do ministro entre violencias e tumultos, coagindo a abdicao de Carlos
IV, e apressando a sada de Fernando VII para Bayona.

Vendo por terra o diadema dos Bourbons de Hespanha Bonaparte no o
restituiu a Carlos IV, nem a Fernando VII, cingiu-o na fronte de seu
irmo, o rei de Naples, escolhido para reinar entre bayonetas sobre a
monarchia de Izabel a Catholica. Os principes despojados resignaram-se,
mas a Hespanha protestou. Madrid insurgida deu o exemplo. Murat cuidou
suffocar a sublevao pelo terror dos supplicios. Illudiu-se. O sangue
vertido na capital em 2 de maio tornou irreconciliavel a nova conquista
com o imperio. A nao respondeu aos canhes, aos fuzis, e s execues
militares com a resoluo indomita, que as adversidades confortam, e os
triumphos exaltam.

A ira fez soldados os habitantes da Peninsula. O odio da servido
resuscitou os dias de Viriato e de Sertorio. Cada rochedo, cada tronco,
de arvore, cada balsa escondeu um inimigo; e para repellir os
oppressores at os velhos saccudiam os gelos da edade como mancebos, e
as crianas pelejavam como homens. Por um, que expirava, erguiam-se mil.
N'esta nova sera de Cadmo o ferro, tocando a terra, levantava legies
de heroes. O cho fugia debaixo dos ps aos veteranos da Italia e do
Egypto, e a espada dos marechaes, quebrada sem gloria, ameaava em vo
as fragas de um territorio, que, alastrado de cadaveres, e abrazado
pelas armas e pelos incendios, at cuspia de si os ossos do estrangeiro,
negando-lhes a paz do tumulo!

Oviedo, a antiga e venerada crte das Asturias, recordando, que suas
montanhas tinham sido bero e asylo da renascena christ, alou ousada
o seu estandarte. Cadix e Sevilha acompanharam-n'a. Granada e Valencia
insurgiram-se logo depois. Toledo, Santander de Biscaya, Saragoa,
Tortosa, e Galliza, no ficaram atraz. Dentro em pouco os esquadres
francezes, encanecidos nas luctas d'esta epocha de prodigios, j no
chamavam seu mais do que ao terreno aonde combatiam.

As juntas de salvao e defeza,  medida que as terras se iam
sublevando, exprimiam o seu pensamento de porfiada resistencia. Filhas
legitimas da revoluo, os revezes e os sacrificios no as desanimavam.
Diversas e oppostas muitas vezes no caracter e nos costumes, nenhuma
trahiu o seu juramento. Preferindo para mortalha da Hespanha os muros
voados e as torres arrazadas das praas de guerra e das antigas cidades,
todas rejeitaram a clemencia injuriosa, que lhes promettia o perdo em
troca do soberbo dominio a que a Europa quasi inteira curvava ento a
cerviz.

Os successos correram como a impaciencia dos contendores.

A invaso, que talra a provincia de Granada, derrotadas por Castaos as
tropas imperiaes, foi obrigada a retroceder. A capitulao de Bailen
quebrou o prestigio das legies invenciveis. Os francezes, acossados de
posto em posto, tiveram de evacuar Madrid, e recuando deante do impeto
da nao armada, s pararam s margens do Ebro. Os capites mais ousados
aprendiam, finalmente, a conhecer, que vale mais o esforo de um povo
unanime, do que a espada feliz do mais do maior homem de armas.

A junta central de Aranjuez, composta de deputados de todas as
provincias, constituiu-se como representante de Fernando VII, captivo em
Valenay, e assumiu a suprema direco, conferida pelas necessidades e o
heroismo pelo paiz. A Inglaterra, senhora por tanto tempo do sceptro dos
mares, disputando a Napoleo em todos os campos de batalha a primazia no
continente, ouviu de repente os clamores dos descendentes de Pelaio, e
contemplando o arrojo, com que elles se atreviam contra o poder que
desmaiava os monarchas mais poderosos, estremeceu de jubilo, e saudou
n'este commettimento audaz a aurora do dia de Waterloo.

Em Portugal, apezar de no ser menos vivo e intenso o odio, no foi to
prompta a exploso. Mas a chamma, por calar debaixo de cinzas, no
rompeu por isso com menor violencia.

No dia 5 de fevereiro de 1808, na occasio, em que as auctoridades
francezas se reputavam mais firmes, reuniram-se encobertamente em Lisboa
seis homens, que nenhuma distinco hierarchica apontava para chefes,
mas que a firmeza da vontade e o despreso dos perigos recommendam ao
louvor da posteridade. Chamavam-se Matheus Augusto, Jos Maximo Pinto da
Fonseca Rangel, Jos Carlos de Figueiredo, Antonio Gonalves Pereira e
Andr da Ponte de Quental da Camera. Juraram na presena de Deus
empregar as foras, os bens, e a vida com fervor at conseguirem
restituir ao principe regente, a sua cora, e  patria o seu esplendor e
liberdade.

Juntavam-se s oito horas da noite alternadamente uns em casa dos
outros, e desde logo se occuparam de minar o cho debaixo dos passos dos
invasores, descobrindo no meio do seu cortejo os illudidos e os coactos
para os descriminar dos vendidos e traidores, e sondando o animo dos
officiaes militares, dos magistrados, e dos ecclesiasticos para indagar
a sua disposio, apurando aquelles com que podia contar.

Esboada a conspirao, e protegida por inviolavel segredo, principiaram
os primeiros conjurados a attrahir outros, engrossando o numero dos
cumplices.  policia, regida por Lagarde, chegaram cedo os echos d'esta
empreza, que, tomando corpo  proporo que os acontecimentos
caminhavam, era j na primavera de 1808 uma verdadeira potencia,
fortificada pelos votos concordes do patriotismo portuguez, e pela
coadjuvao de valiosos auxiliares recrutados nas fileiras do exercito
nacional, nas casas mais illustres da fidalguia, e nas classes
respeitadas do clero, da toga, e do commercio.

Quando Junot embarcou em virtude da capitulao de Cintra, s os cabeas
de bando, representantes, perante o Conselho Conservador, da multido
dos adherentes, excediam de _cento e oitenta_, e os homens, de que
podiam dispor, no baixavam de tres, ou quatro mil, com sete peas de
artilheria, 370 cavallos do regimento da Luz, e da guarda real da
policia, 112 officiaes avulsos, e 710 bayonetas!

Saltemos agora as semanas, que nos separam dos meiados de junho de 1808,
e observemos o estado das cousas j bastante alterado no curto espao de
sete mezes.

Determinra a Providencia que do excesso dos males, que flagellaram a
Peninsula se gerassem as causas, de que primeiro renasceu a
independencia, e depois a liberdade. As scenas de Bayona, e a represso
cruel dos tumultos de Madrid despertaram a Hespanha do somno, em que a
falsa alliana dos francezes a embalava. Badajoz sublevou-se a par de
outras terras importantes no dia 30 de maio, e  sua voz principiou a
provincia do Alemtejo a agitar-se. Ao norte a Galliza, com os bellos
portos do Ferrol e da Corunha, e a sua populao briosa e accumulada,
no hesitou egualmente em saccudir o jugo.

Os dez mil hespanhoes aquartelados no Porto, que depois da morte do
general Taranco obedeciam ao marechal de campo D. Domingos Ballesta,
receberam ordem da junta para recolherem, aprisionando o general
Quesnel, governador militar da cidade, e todos os officiaes e soldados,
de que podessem apoderar-se.

Ballesta executou a ordem, e chamando as auctoridades da segunda capital
do reino, perguntou-lhes, antes de partir, por quem se decidiam? Pela
patria, responderam alguns.

O castello de S. Joo da Foz, de que era major Raymundo Jos Pinheiro,
arvorou a bandeira portugueza, e a guarnio communicou com o brigue
inglez _Eclipse_, o qual esperava os acontecimentos, cruzando proximo da
costa. O povo no se moveu. A occasio ainda no estava madura.

Os timidos conselhos do brigadeiro Luiz de Oliveira prevaleceram. O
Porto tornou a submetter-se ao governo de Napoleo I.

A 9 de julho chegou a Lisboa a noticia da insurreio das tropas
hespanholas e da priso de Quesnel.

O perigo eminente estimulou o duque de Abrantes.

A diviso Caraffa, composta de seis batalhes de infanteria, de um
regimento de cavallaria, e de algumas baterias de artilheria, ardia em
desejos de imitar seus irmos de armas, provocada pelos emissarios
expedidos a toda a pressa de Sevilha e Badajoz. Junot antecipou-se.
Vinte e quatro horas depois os soldados de Fernando VII, presos e
desarmados, embarcavam para bordo dos pontes francezes, e smente
poucas companhias do regimento de Murcia e alguns hussards do Maria
Luiza conseguiam escapar-se.

Por meio d'este golpe ousado o general em chefe, retaliando as
hostilidades dos patriotas, soube refrear a tempo as impaciencias e a
animosidade dos habitantes irritados. Loison sau a 17 de Almeida sobre
o Porto com a sua columna, afim de se oppor s tentativas da Junta de
Galliza, e a 20 passava o Douro no Pezo da Regua. Mas o dia das iras
populares tinha alvorecido. Rodeado por todas as partes de inimigos
invisiveis, que fuzilavam suas tropas por traz das vinhas e dos
rochedos, pendurados sobre a corrente torva e arrebatada do rio, volveu
j sobre a noite ao Pezo da Regua, e tornou a vadear o Douro para a
outra margem, abenoando a precipitao boal dos camponezes, que o
salvra quasi por milagre de uma ruina completa.

O Minho e Traz os Montes, sublevadas em massa, acabavam de empunhar as
armas, proclamando a independencia. Mais alguns passos de Loison alm de
Mesofrio, mais prudencia e calculo da parte dos aggressores, e a
columna franceza encontrava a sepultura n'aquelles penhascos e
desfiladeiros immortalizados pela sua derrota!

Em quanto Junot quebrava por um lance audacioso a espada nas mos dos
batalhes de Caraffa, Manuel Jorge Gomes Sepulveda, tenente general, e
governador militar do norte, em edade provecta, acclamava a restaurao
da dynastia de Bragana, e era seguido pelas terras mais notaveis das
duas provincias.

No dia 18 a revoluo rebentou no Porto, e no dia 19 foi nomeada a
primeira junta portugueza, cujo papel havia de ser to importante nos
successos, que se precipitavam. Coimbra Pombal, e Leiria seguiram o
exemplo do Porto, e a insurreio crescendo e alargando-se, batia pouco
depois s portas de Lisboa, ameaando o dominio estrangeiro, tanto pelo
lado do norte, como pelo lado do sul. Desde os Algarves at Evora e Beja
levantou-se o mesmo grito de exterminio correspondido por milhares de
vozes.

Antes de combater a insurreio a ferro, o duque de Abrantes chamou em
seu auxilio o brao ecclesiastico, convidando-o a fulminar as populaes
armadas.

Uma pastoral do cabido patriarchal representou como crime e peccado
inexpiavel a resistencia ao grande e invencivel Napoleo, declarando a
culpa sujeita a excommunho maior sem prejuizo das penas temporaes. Esta
profanao sacrilega serviu s de aviltar aos olhos do paiz os ministros
do altar, que no se envergonhavam de offerecer o incenso do templo e o
beijo de Judas contra a liberdade  vontade despotica dos oppressores.
Os raios mal forjados nas sacristias caram frios e inermes deante da
resoluo e da perseverana dos que pelejavam pela patria, e a famosa
proclamao ao Divino, despresada como merecia, no roubou s fileiras
nacionaes um s defensor.

A resposta de Bonaparte em Bayona  deputao portugueza foi mais
eloquente para fazer de ns soldados, do que as excommunhes dictadas no
quartel general francez. O imperador, julgando a occupao de Portugal
legitima depois da partida da familia de Bragana, tractava o pequeno
reino desamparado com os rigores devidos a uma colonia ingleza!

Era a sua ida e a sua politica. Pouco lhe importavam o amor e a
confiana dos novos subditos. No os temia nem o preoccupava o que havia
de dispor afinal cerca do seu destino. Junot, que os conhecia melhor,
tinha procurado attrahil-os, e chegra a linsongear-se com a esperana
de os adormecer a ponto de lhes riscar da memoria as saudades da
dynastia e da independencia. A obediencia imposta pela fora
afigurava-se-lhe esquecimento, e nos seus officios ao ministro da guerra
o governador de Paris traduzia os vivas venaes da plebe ao sabor dos
seus desejos, pintando a nao tranquilla, submissa, e satisfeita. A
exploso das provincias e os murmurios da capital vieram depressa
acordal-o d'este sonho!

Olhou. No viu em volta de si, seno odios mal reprimidos, ou adheses
falliveis e compradas. A pobreza e a miseria, filhas do bloqueio, que
paralysava o commercio, tornavam ainda mais critica a sua posio. O
cambio do papel moeda subira a 31 e a 32 por cento; o po custava 75
ris o arratel. A carestia dos generos, tornando a vida difficil e
dolorosa para as classes indigentes, aggravava o descontentamento geral.
A Junta dos Tres Estados, reunida para pedir um rei a Napoleo,
proporcionou ao juiz do povo Jos de Abreu Campos, a occasio appetecida
de manifestar os verdadeiros sentimentos do paiz, desenganando o duque
de Abrantes, de que se achava s e detestado com o seu exercito no meio
de populaes hostis, que suspiravam pela hora de restaurar a liberdade
e o throno de seus principes.

No mez de junho estavam dissipadas todas as illuses. Admirado do arrojo
com que paizanos quasi sem defeza se arriscavam ao encontro de legies
aguerridas, Junot exclamava: Portuguezes! Que delirio  o vosso? Em que
abysmo de males vos despenhaes? Ao cabo de sete mezes de paz e harmonia,
porque razo correis s armas? Concluindo com a lei marcial, ameaava
as villas e cidades com o saque e o incendio, e os cidados com a morte!

Se estivesse mais lembrado da sua juventude deveria recordar-se do modo
por que a Frana respondra heroicamente aos que lhe apontaram a espada
ao peito dizendo o mesmo.




X

Tolda-se o tempo


Transportemo-nos um pouco antes dos successos esboados nas paginas
antecedentes aos paos da inquisio, situados no Rocio de Lisboa, aonde
hoje ergue o seu fronto votado s Musas o theatro de D. Maria II. Em
algumas das salas e aposentos do antigo palacio dos Estos, restaurado
pelo marquez de Pombal, assentou Lagarde as reparties da policia geral
do reino. Era justo! Ao lado do santo officio da f o santo officio da
usurpao. As duas inquisies fraternalmente hospedadas uma a par da
outra no podiam offender-se do acaso que as unia! Soldados da guarda
real da policia, corpo fundado e disciplinado pelo conde de Novion,
emigrado francez que as victorias de Bonaparte e a invaso de 1807
lanaram outra vez nos braos dos seus compatriotas, guardavam as portas
de fra, ou de espadas em punho vigiavam os corredores e camaras, que
precediam o quarto reservado aonde o proconsul se encerrava com os seus
confidentes.

Deixemos passar esses vultos, que pisam os sobrados nas pontas dos ps,
escorregando quasi como sombras. So rodas secundarias da machina. O
olhar enviezado e inquieto, o rosto meio escondido na dobra do capote, e
a humildade rasteira denunciam, sem necessidade de mais exame, os
delatores obscuros, ou os agentes provocadores, destacados nas ruas e
praas, ou nas tavernas para escutar e repetir os clamores de indignao
das multides. Esperemos que algum personagem de elevada gerarchia
apparea, e nos introduza no gabinete discreto e s accessivel a poucos
eleitos, aonde o magistrado estrangeiro conta as pulsaes do corao de
Portugal, e segue com a vista fria e penetrante os estremecimentos de
cholera, ou de impaciencia do paiz, canado da oppresso e envergonhado
do silencio, em que a supporta ha sete mezes!

O general Junot, governador de Paris, entra pelo brao do conde da Ega,
seguido de seus ajudantes de campo. O ministro Herman, encarregado dos
negocios do reino e da fazenda, ex-commissario imperial, no se demora
atraz d'elle. Lunyt, secretario d'estado da marinha e da guerra j os
tinha precedido. A concorrencia de taes pessoas inculca acontecimento
notavel, e  de crer que o conselho se no separe sem que alguma
providencia venha esclarecer o segredo dos ultimos dias e dos ultimos
sucessos. Quem nos abrir caminho at ao famoso reposteiro, que deante
da entrada da sala vedada representa para os profanos o papel de vu de
Pythagoras? As sentinellas, immoveis como estatuas, velam fieis s
ordens recebidas. Os porteiros, em ar protector, ou mysterioso, despedem
os pretendentes e os importunos. Um cordo de empregados corta 
curiosidade todos os passos. Gritou-se, porm s armas. O uniforme de um
official superior reluz na extremidade de extenso corredor. Os
subalternos inclinam-se profundamente, e respondem em voz submissa s
perguntas imperiosas, que lhes dirige. Acompanhemos este iniciado.  o
capito de mar e guerra Magendie, commandante da marinha. Seguindo-o,
temos a certeza de no encontrar obstaculos.

Quando o recem-chegado franziu o reposteiro de panno escarlate orlado de
branco, no meio do qual campa uma aguia azul colossal, e empurrou de
leve um dos batentes da porta, a discusso j se havia travado, segundo
parecia, menos placida, do que promettiam os annos e auctoridade dos
diversos membros do governo, sentados  roda da comprida mesa, coberta
de couro, e cingida at ao cho de um rodap de tela encarnada. A mesa
occupava o centro da casa. Junot, facil de conhecer pela estatura, boa
presena, e garbo do porte, achava-se em p junto da cabeceira, com o
rosto inflammado, e a mo no punho da espada. Lagarde,  sua esquerda,
analyzava com o olhar prescrutador todas as physionomias, traando com a
penna sobre uma folha de papel algumas palavras soltas. Pallido, ou
antes livido, retratava no rosto a astucia unida  expresso repulsiva
de um cynismo cruel e glacial.

Herman,  direita do general em chefe, sereno, aprazivel, e delicado,
com um lapis entre os dedos enfeitados de anneis, justificava ao
primeiro volver de olhos a reputao de melindre e de primor, merecida
desde que se estrera na carreira publica exercendo as funces de
consul em Portugal. Vestia em todo o apuro da moda do seu tempo. Casaca
de lemiste talhada  franceza com botes de metal e golla alta, collete
branco aberto, que deixava sobresar a finissima cambraia da camisa e da
tira engommadas em pregas miudissimas, cales de seda, meia a estalar
na perna, sapatos e fivelas de ouro cravejadas. Um espadim curto de
bainha dourada pendia-lhe da cinta, e uma caixa de rap, mais preciosa
pelo lavor, do que pela qualidade, aberta a seu lado, e consultada a
miudo pelos dedos distrahidos de Junot, recommendava-se pela admiravel
miniatura, cercada de aljofres, que lhe ornava a tampa.

O conde da Ega, cuja intimidade no quartel general do largo do Quintella
as murmuraes populares explicavam de um modo pouco airoso, e que dias
depois havia de substituir o Principal Castro na pasta da justia,
escutava de p, e com mostras de no pequeno sobresalto, talvez
provocado pelo desassocego da consciencia, a leitura nasal, lenta, e
accentuada, que Lunyt secretario de estado continuava sem mudar de tom,
estudando de vez em quando por baixo dos oculos de ouro o effeito
produzido no animo dos ouvintes.

A entrada de Magendie, accolhida por uma exclamao de alegria do duque
de Abrantes, por uma cortezia de Herman entre dois sorrisos, e por um
gesto de urbanidade de Lagarde, foi como o signal da exploso at ahi
contida das paixes e receios mal reprimidos. Todos diriam que o
Conselho aguardava a sua chegada para arrancar a mascara, que o
suffocava, dando largas  expresso sincera dos verdadeiros sentimentos.

--Bem vindo, capito Magendie! A sua demora fazia-nos temer que
faltasse. O aviso chegou-lhe tarde?...

--No foi o aviso, general! Mas a esquadra de sir Carlos Cotton
appareceu outra vez  barra, e julguei prudente ir a bordo das fragatas
_Carlota_ e _Benjamin_...

--E ento?! interrompeu Lunyt, pondo de parte o papel que lia, e
encarando o capito de mar e guerra.

--Fosquinhas por ora! respondeu este encolhendo os hombros.
Entretanto...

--Podem encobrir planos de hostilidade? atalhou Herman, sorvendo com
pausa uma pitada, e dispersando depois com um piparote os gros que
tinham saltado sobre a tira alvissima da camisa.

-- possivel. Os inglezes animados pela sublevao dos hespanhoes,
meditam desembarques na peninsula, accudiu Lagarde em ar grave.

--Veremos se em terra so felizes como no mar! observou o conde da Ega.

--Mesmo no mar, redarguiu Magendie, espero que no ho de forar-nos a
barra sem deixarem nos escolhos um par de navios. Temos de observao
entre as torres a fragata _Graa Phenix_ e mais dois vasos de alto
bordo, artilhados, mas incapazes de navegar; em Belem esto fundeadas
tres charruas...

--Bem! Bem! tornou Junot. Duvido que rocem as barbas pela bcca de
nossos canhes, Magendie! Oxal que todas as tempestades nos viessem s
do mar... O peior de tudo, senhores,  que o cho treme debaixo dos ps,
e...

--Que a traio vela  nossa cabeceira? Notou Lunyt, limpando os vidros
dos oculos, e falando no mesmo tom lento e nasal, com que lia.

-- verdade, Lagarde! Conspira-se, trama-se, e no nos dizieis nada!...

--Para que? Quando uma nao inteira est conjurada, general, a policia
passa, v, e dissimula. Prises e devassas, de que serviriam, seno de a
irritar mais? Descobrir o que ella quer, tirar-lhe os pretextos, e
escolher a occasio de ferir a muitos de uma vez pelo terror do mesmo
golpe, eis o segredo dos que sabem dominar.

--Sim! Bem sei!  a theoria de Fouchet, do duque de Otranto!...

--E para este caso a unica aproveitavel. O que diria o sr. conde da Ega,
to nosso amigo...

--Eu!... Pois eu!...

--Se lhe mettessemos no castello, ou nas torres dez, ou doze parentes de
toga, e de espada, que esto conspirando a esta hora mesmo contra o
governo de sua magestade o imperador e rei?!... proseguiu o intendente
com o seu riso agudo e estridulo, similhante ao som do crte de uma
serra.

--Ah! Os parentes do sr. conde de Ega tambem so contra ns?!... notou
Junot vagarosamente.

--E os da senhora condessa ainda mais!... observou Lagarde trespassando
o general com a vista afiada e ironica.

Uma nuvem escureceu a fronte do duque de Abrantes. Aquella seta viera
cravar-se-lhe direita no peito. O guerreiro destemido, coroado tantas
vezes pela victoria no meio de proezas heroicas, era accusado de
excessiva sensibilidade perante o bello sexo; e a formosa condessa da
Ega, segundo se dizia, graas a seus enlevos e encantos, tinha
conseguido tornal-o escravo do menor de seus caprichos.

O general inclinou a cabea, correu os dedos pela fronte annuviada, como
se quizesse saccudir com o gesto pensamentos importunos, e, sem
responder  alluso, levantou-se, e deu alguns passos pela casa, talvez
para ter tempo de se assenhorear de si, vencendo a commoo. Os olhos
dos outros vogaes do conselho fitaram-se no semblante do conde da Ega
por um movimento irresistivel. Sem resultado! Ayres de Saldanha, por
calculo, ou por ignorancia, no denunciava na physionomia, seno a
indifferena apathica, prova real da mais virtuosa confiana. Herman e
Lagarde trocaram um sorriso fino, que no abonava a sua credulidade na
innocencia apparente do fidalgo portuguez.

N'este momento a mo de um ajudante de ordens arredou as prgas do
pesado reposteiro, e sem proferir palavra entregou a Junot dois maos
cuidadosamente lacrados. O duque recebeu-os tambem calado, e veiu
sentar-se na ampla cadeira de braos, d'onde se ergura minutos antes.
Emquanto rompia o sobrescripto do primeiro, e corria os olhos pelo
volumoso officio, era facil notar no seu rosto, de ordinario sereno e
intrepido, a apprehenso causada por noticias desagradaveis. Antes de
passar  leitura do segundo mao, e de lhe rasgar a capa, os que o
conheciam assustaram-se, apercebendo-se de certa hesitao momentanea,
notavel em caracter to firme, porque seguramente inculcava mais do que
sobresalto, ou torvao. Ao mesmo tempo recebia Lagarde um papel
fechado, que no lhe causava menor cuidado, do que os dois officios ao
general. Houve um minuto, ou dois de profundo e ancioso silencio.

--Nome de Deus! exclamou o duque de Abrantes incapaz de conter as
paixes, e amarrotando irado o papel. Verifica-se o que sempre
prognostiquei. No me quizeram attender, decidiram tudo em Paris sem
entender nada, e agora c estamos ns para carregar com o peso de todas
as culpas!... Quantas vezes os avisei e lhes disse a verdade! Deram
finalmente aos inglezes o campo de batalha porque tanto suspiravam; no
contentes fizeram suas alliadas duas naes inteiras. Veremos agora como
desatam o n!

E recostando os cotovellos na mesa, e a cabea entre as mos, sem fazer
caso do espanto excitado pelas suas phrases, abysmou-se em sombria
meditao.

--O que ? O que succedeu?... perguntava o conde da Ega a Herman.

--Pouco viver quem o no souber! redarguiu o malicioso diplomata,
encolhendo os hombros. Rapaziadas dos portuguezes, aposto!...

--Mais do que rapaziadas, senhor Herman! atalhou o intendente geral da
policia, que de livido se tornra verde, cujas pupillas chammejavam,
cujo sorriso era uma contorso diabolica. Estamos sobre um vulco.

--Apagado! replicou o ministro do reino inalteravel. Esta gente de
Lisboa no  para emprezas altas. Queixa-se com saudades, fala, ameaa,
mas por fim faz-se d'ella o que se quer. Em lhes no tocando nos seus
lausperennes, nos seus frades, e nas suas procisses, todos andam mansos
como borregos... Estes no me mettem medo a mim; oxal!...

--Medo! accudiu Junot, levantando-se de um pulo, com o rosto incendido,
e os olhos scintillantes! Medo! Quem fala em medo!? Para enxotar como um
rebanho de ovelhas toda essa plebe, toda essa espuma... basta o meu
cavallo e o meu chicote!...

--Nem tanto, senhor duque! observou Magendie. Os portuguezes so homens
e soldados. Mais de uma vez o tem provado. Perguntae aos hespanhoes...
e ao senhor conde da Ega, que ho de conhecel-os.

Herman sorriu-se. O conde parecia petreficado. A injuria do general em
chefe feria-o no rosto como golpe de mo aberta. O corao indignado
convidava-o a repellil-a, porm o servilismo tapava-lhe a bcca. No
acertava com o que fizesse. Calado deshonrava-se; falando
arriscava-se... Calou-se!

Junot cau depressa em si. O seu animo era generoso, embora cedesse aos
impetos do sangue, facil de inflammar, provocando paroxismos de cholera,
que os seus intimos deploravam, porque frisavam quasi por loucura
frenetica. As palavras de Magendie advertiram-n'o. Recuperando-se da
embriaguez da raiva, volveu s maneiras cultas e urbanas, que tantas
affeies lhe grangeavam, mesmo entre os adversarios.

--Senhor capito Magendie, a plebe no  a nao. Os portuguezes so
para muito; pena  que no os soubessem aproveitar, em quanto era
tempo!... O erro no o commetti eu. Este povo  bom, generoso, e
paciente... Podiamos, deviamos ajudal-o a regenerar-se... Preferimos
tractal-o como vencido, e fazer d'elle um inimigo!... Paciencia!
Colheremos os fructos que sememos. Lagarde! Herman! Magendie! Vamos ter
a guerra!... O segundo acto da tragedia comea em Portugal. A Hespanha
deu-nos o primeiro... Loison escapou milagrosamente aos montanhezes
sublevados no Maro, em Amarante, e em Chaves!...

--Se escapou  o essencial! Os bandos populares sem cabea depressa se
dispersam. Observou Lagarde.

-- verdade. Mas o chefe existe. Manuel Gomes de Sepulveda acclamou em
Traz-os-Montes o principe regente...

--Um velho de mais de oitenta annos, tropego, e quasi cego!?... accudiu
Lunyt sorrindo.

--Acrescentae, porm, velho mas habil general, valente, e adorado!... As
provincias do norte esto, ou estaro todas em armas dentro de oito
dias. Miranda, Villa Real, Moncorvo, e Guimares j o seguiram, ou vo
seguil-o...

--Temos o Porto, e em quanto for nosso, facilmente daremos a mo aos
nossos exercitos de Hespanha, interrompeu Herman.

--O Porto!... Lde!... E passando o officio ao ministro do reino, Junot,
em quanto este o lia a meia voz aos collegas, passeiava agitado, medindo
a sala em todo o comprimento.

--O Porto?  tarde! j no lhe accudimos. Hoje, ou manh subleva-se, e
d o exemplo. Coimbra no se demora. Contae com ella insurgida. No nos
lisongeemos com illuses...

--O mal, comtudo, no  irremediavel! Sejamos fortes! exclamou Magendie.
As nossas tropas devem ter vencido em Hespanha, e...

--As nossas tropas no venceram, foram vencidas! Tornou o general em
chefe sombrio, e mordendo os beios. A fortuna vira-nos as costas. As
divises aguerridas recuam sobre o Ebro. O rei Jos sau de Madrid.
Estamos ss e sem retirada no meio de um reino irritado e adverso...

--Ah! disse Herman empallidecendo. N'esse caso a partida  arriscada.
No a julgo, porm, perdida.

--Nem eu! Mas contemos um pouco, se nos apraz, com os inglezes. Em
Gibraltar acha-se sir Hew Dalrymple com o corpo do general Spenser. Em
Cork, na Irlanda, vo embarcar nove mil soldados. A esquadra de sir
Charles Cotton anda cruzando deante da foz do Douro, e das bahias do
Tejo e do Mondego. De um instante para outro podemos ter de pelejar com
o povo e com as tropas do rei George... N'esse caso!...

--Ameaa-nos a capitulao de Dupont em Bailen?!... accudiu Lagarde,
batendo com o punho cerrado sobre a mesa. Oh!...

--Nunca!... Pelo menos em quanto eu viver! exclamou Junot com um gesto
admiravel de firmeza. Luctaremos! A derrota no  menos gloriosa, que o
triumpho, quando o campo de batalha proclama o heroismo dos vencidos...
Poderemos ao menos contar com a obediencia de Lisboa? A capital em nosso
poder pde ser ao mesmo tempo segura base de operaes, e precioso
penhor para o infortunio. Lagarde! Chegou o momento. Respondeis pela
tranquillidade de Lisboa?...

Houve um momento de silencio. O intendente geral da policia, atalhado,
olhava para o papel, que lhe tinham trazido, e conservava ainda aberto,
e para o general, e hesitava.

--Que nova desgraa nos ameaa!? accudiu o duque arrebatado. Hoje  o
dia das fatalidades? Falae! Estou preparado para tudo. Que dizeis de
Lisboa?...

--Que respondo por ella, como por mim!... balbuciou Lagarde tremulo.

Bem! No  preciso mais. Ds-nos a alavanca de Archimedes!...

--S depois de manh em deante!... concluiu o intendente engasgado, e
convulso.

--Ah! E hoje porque no?! exclamou Junot, que os revezes pareciam
reanimar  medida que se accumulavam. Nome de Deus! No sois medroso.
Conheo-vos! Esse papel trouxe-vos a cabea de Medusa? Que segredo
terrivel encerra? Vamos! Vencei a consternao, e dizei-nos o que ha. O
peior perigo,  o perigo encoberto. Quero saber!

E o duque de Abrantes assentou-se com a fronte erguida, os olhos
brilhantes, e um sorriso intrepido nos labios. Era assim que elle
costumava affrontar a morte nas batalhas.

Lagarde principiou em voz baixa a leitura. Era o plano de uma revoluo
traada para rebentar no dia seguinte depois da procisso do Corpo de
Deus.

Os auctores d'este commettimento, todos membros do Conselho Conservador
de Lisboa, tinham sido denunciados  policia em differentes occasies,
mas poupados como conspiradores theoricos e inoffensivos. A ousadia do
trama excedia, porm, d'esta vez quanto podia prever-se de audaz e
decidido. O rompimento havia de comear de tarde, s seis horas, muito
depois de concluida a festa religiosa. Junot devia ser preso no caminho
do palacio de Anadia para o Rato, as guardas do Rocio, do Terreiro do
Pao, de S. Domingos, de Santa Clara, e do quartel general, atacadas e
desarmadas, e o Castello rendido por assalto, ou por algum artificio de
guerra. As tropas francezas privadas do seu chefe, e surprehendidas,
seriam obrigadas a depor as armas em virtude das ordens dictadas ao
duque de Abrantes pelos seus carcereiros. O povo e os soldados
portuguezes coadjuvariam a revolta occupando as ruas e as praas.

O assombro dos vogaes do governo durante a communicao, que acabmos de
resumir, custaria a descrever. A gravidade das physionomias tornou-se
mesmo to solemne, que ia degenerando quasi em comica. O unico ouvinte
desassombrado e de sangue frio era o duque de Abrantes. A ida de se ver
colhido ao anoitecer no seu transito costumado pelos cumplices do
Conselho Conservador, affigurou-se-lhe por tal modo absurda, que,
recostado no espaldar da cadeira, desatou o riso em frouxos, suspendendo
a leitura, e desengatilhando de sua expresso severa o rosto dos que a
sua hilaridade no admirava menos, do que o plano de sublevao forjado
para a capital.

--Admiravel! Sublime!... clamava Junot estorcendo-se entre risadas.
Parece-me que os estou vendo d'aqui a esses illustres conspiradores de
rabicho e samarra, decidindo  pluralidade de votos o theor das ordens,
que hei de escrever depois de prisioneiro!... Mas  um entremez puro o
que esta boa gente imaginou: art.^o 1.^o O general Junot ser
apprehendido, e ao mesmo tempo as guardas do Terreiro do Pao e do
Rocio!... art.^o 2.^o (porque o no puzeram tambem?) O presente decreto
ser registado nos livros da chancellaria da Junta Provisoria!
Excellente! Deixae-me rir, Lagarde. Sois um homem unico para desterrar
tristezas.

Herman, Lunyt, e o intendente olhavam uns para os outros, pasmados, e
no sabiam se deviam conservar-se serios, ou imitar o general. Magendie,
militar e resoluto, ria a ponto de lhe saltarem as lagrimas dos olhos. O
plano peccava pela ingenuidade. Os innocentes conspiradores fundavam
todo o edificio de suas esperanas na priso de Junot, e essa priso era
justamente o que lhes esquecra assegurar. O duque de Abrantes, cujo
valor todos respeitavam, os seus ajudantes, e a escolta de cavallaria
que sempre o acompanhava, no cairiam de leve em uma cilada de poucos
homens, e para o esperar em grande numero, vigiadas como estavam as
ruas, parecia duvidoso que meia hora depois no se achassem recolhidos
na cadeia os Scevolas incumbidos d'este prologo essencial no grande
drama da restaurao da patria.

--Herman! O vosso voto sobre esta fara que terrificou Lagarde!...

--O plano  fraco, porm a inteno...

--De intenes, boas, ms, e pessimas est calado o inferno! Tendes
acaso receio de me vr preso no meio das becas dos conspiradores, suando
medo por todos os poros, e ordenando aos meus valentes soldados que
entreguem as espadas e espingardas aos milicianos de Lisboa!?... Que
gente admiravel a do vosso Conselho Conservador, Lagarde! Respeitae-os
como se respeita a innocencia. Conjurados assim inventam-se, quando se
no acham, e guardam-se debaixo de redomas de vidro... Art.^o 1.^o O
general Junot ser apprehendido! Nada mais! Que bella conciso spartana!
Ah! Ah!... Quem serve de espirito santo a este cenaculo? Algum macrobio?
Alguma reliquia do tempo do marquez de Pombal, aposto?... A conspirao
d ares de quinhentista. Foi desenterrada de certo de algum archivo!...

--Informam-me que Jos de Seabra no principio dra alguns conselhos, mas
que hoje...

--No quer saber d'elles para nada!?...  evidente! Jos de Seabra, duas
vezes ministro de estado, sisudo, e espirituoso, morria de vergonha se
visse o seu nome ligado a similhante satyra do senso commum... Art.^o
1.^o O general Junot!... Desculpem, mas  incrivel! Os desembargadores e
os padres de Lisboa cuidam que um general francez  algum passaro raro,
que se apanha e mette na gaiola para o ensinar a cantar o hymno
nacional!?... Lagarde! Prohibo-vos de tocar nos veneraveis juizes,
fidalgos, frades, abbades e negociantes, de que se compe este
bemaventurado Conselho. Dae graas a Deus pela sua existencia, e no os
incommodeis. D'alli no vem de certo mal! Oxal que Sepulveda fizesse
parte d'elle, esperando pela minha priso para se sublevar. O Porto
ainda poderia salvar-se!

--Mas, general, o dia de manh parece-me critico, observou o
intendente, que o riso e os motejos do duque tinham confortado pouco.
No  s gente da capital a que sae s ruas. Os arrabaldes e o Ribatejo
despovoam-se, e talvez fosse mais prudente prohibir a procisso, e
prender por algumas horas os cabeas conhecidos dos arruidos
populares...

--Pela gloria do imperador! Enlouqueceis, senhor Lagarde?!...
Assustam-vos tanto os planos ridiculos de uns poucos de dementes, que
vos no envergonha o argumento de fraqueza, que dariamos, escondendo-nos
com medo dos frades e das irmandades de Lisboa? A procisso ha de sar.
Nada de prises! Os nossos soldados trazem polvora e bala nas patronas.
 quanto basta!... Meus senhores, hoje, o general Junot, depois das seis
horas da tarde sae do palacio da Anadia para o Rato, e vae ser
apprehendido. Ah! Ah! Est encerrado o conselho. Herman enfeitae-vos bem
manh. Tereis de pegar a uma das varas do palio. Magendie no deixeis
_apprehender_ os nossos navios. Lagarde, mandae saber ao hospital se ha
logares vagos na casa dos orates; os vossos amigos do Conselho
Conservador acabam todos l. Lunyt, vinde commigo; tenho que vos
communicar... isto  se no receiais que o general Junot _seja
apprehendido_ no caminho para o largo do Quintella. Ah! Ah!... Senhor
conde da Ega acceita um logar na minha carruagem?... Note que lhe
offereo um posto perigoso.

E o duque sau precedido por Magendie e acompanhado do conde e do
secretario de estado da guerra e da marinha. Herman e Lagarde, que
ficaram atraz, olharam um para o outro, interrogando-se com a vista e
com o gesto.

--O que devo fazer? perguntou o intendente.

--Nada.  o melhor!

--Mas!...

--Meu querido senhor Lagarde, o homem que ha de prender Junot... no
est de certo no Conselho Conservador de Lisboa! Redarguiu o ministro
rindo. Socegue!

Momentos depois o intendente tocava a campainha, e por ordem sua um
porteiro introduzia no gabinete o sargento Cabrinha e o seu assessor
Gaspar Preto, por alcunha o _Sapo_.

Saberemos a seu tempo o que alli vinham fazer aquellas duas boas almas.




XI

Achilles e Nestor


Em quanto no palacio do Rocio se representava a scena, a que assistiu o
leitor, em uma casa, situada quasi no arrabalde, perto de Campo de
Ourique, no qual trabalham ranchos de operarios sem repouso a levantar
um acampamento militar para as tropas francezas, que Junot recolhe das
provincias, e concentra na capital, iremos encontrar alguns dos
personagens, que deixmos na Ponte de Asseca, n'aquella tempestuosa
noite, que viu as proezas do sargento Cabrinha, a evaso de Paulo de
Azevedo, e as artes diabolicas do astuto lavrador Joo da Ventosa.

Estava formoso o dia, mas quente. Nem um leve sopro de aragem meneava as
cortinas de caa, que por detraz das quatro janellas da frontaria
substituiam os modernos e elegantes _stores_. A casa, de um s andar,
caiada de branco, pintada de verde claro em todas as portas, grades,
hombreiras, e maineis respirava aceio e alegria. Um muro baixo rodeava o
jardim, d'onde as rozas de trepar, as baunilhas, e outras plantas,
subindo pelas paredes, vinham debruar do espigo seus festes floridos
e recendentes.

Um preto quasi ano, grosso, rolio, com a carapinha semeada de cans,
indicio de provecta edade, e brincos de prata nas orelhas, acabava de
varrer, gemendo e rosnando, os tres degraus de pedra, que desciam da
porta da entrada para a viella quasi deserta.

No jardim a areia, fina e vermelha, das ruas, orladas de buxos
recortados, rangia debaixo dos ps de duas pessoas, que passeavam,
conversando em voz submissa. No angulo, que olhava para as terras, um
mirante entrelaado de caracoleiros e jasmins, offerecia em seus bancos
de cortia commodo assento aos que desejassem recrear a vista,
espairecendo-a pelos largos horisontes, que d'alli se descobriam.

--No perca o animo nas vesperas da victoria, senhor Manuel Coutinho!
Lembre-se de quem , e creia mais em si, e em ns... deixe-me ter tambem
um momento de vaidade!... Deus ha de ser por este reino, e no ha de
permittir...

O homem que proferia estas palavras era um velho de aprazivel aspecto,
trajado em habitos ecclesiasticos, inculcando na phisionomia, na voz, e
nas maneiras, a prudencia que do os annos, e a experiencia do mundo
unida  confiana e ao enthusiasmo sereno, que nascem do corao, que
ardem com viveza aquecidos pelo calor de uma alma generosa, e que os
gelos da edade nem amortecem, nem apagam.

O sorriso meigo e tranquillo, que lhe franzia os labios, contrastava de
visivel modo com as sombras de profunda tristeza, que escureciam o rosto
do amante de Leonor de Azevedo, e com a expresso de desalento retratada
em suas feies abatidas.

Quem attentasse, todavia, com mais cuidado no semblante palido do
mancebo, e sobre tudo no fulgor dos olhos, que despediam por vezes
lampejos quasi sinistros, denunciando as intimas commoes, logo
percebia, que, se um assomo repentino de duvida, ou desconforto podra
abalar por instantes a energia d'aquella forte vontade, depressa a
reaco a havia de despertar do lethargo, e que pouco depois, em logar
de ser necessario reanimal-a, todo o poder da persuaso seria pequeno
para a conter dentro de limites razoaveis.

--Deus?!... exclamou Manuel Coutinho, respondendo  ultima phrase do
ancio, e volvendo ao cu, limpido e azul, um olhar de amarga
desesperao. No se esqueceu Elle de ns? No est com os inimigos do
seu nome e da nossa liberdade?!...

--No diga isso. Caia em si. No v que accusa a divina justia? Deixe-a
caminhar...

--Coxa e lenta como a dos homens?!... Senhor bispo! Sou moo e militar,
desculpe-me, mas no posso supportar com paciencia christ o espectaculo
de tantas miserias e de tantos crimes!... Fala na justia de Deus?!
Aonde estava ella, quando o Vigario de Christo, arrancado por mos
sacrilegas da sua cadeira, foi como seu divino Mestre arrastado de
priso em priso, de opprobrio em opprobrio, por turbas de soldados 
voz de Bonaparte?...

--Estava no Calvario, como no dia em que padeceu o Redemptor! Continue!

--Ah! E porque dorme ella, quando naes inteiras choram escravas o seu
martyrio, e banhadas em sangue invocam a morte nos campos talados, nas
cidades saqueadas, nos patibulos e nos carceres, a morte, unica
esperana que lhes resta, depois de roubados os seus altares, de
incendiadas as suas moradas, de infamadas suas esposas e filhas, e de
dispersas como vil p as cinzas de seus paes e de seus avs?!...

--Quem lhe diz, que dorme, e no que aguarda a sua hora? Quantos seculos
durou a perseguio da egreja e a tyrannia dos Cesares?... E hoje,
d'esse colosso romano, que assoberbava o mundo, o que sobrevive? Ruinas,
memorias, e a cruz triumphante alada no Vaticano!... Tranquillize-se,
conforme-se, espere...

--Que espere!... Mas elles, os verdugos, os malvados, acaso esperam?
Paulo de Azevedo, duas vezes salvo por ns, escapou por fim aos laos do
infame Lagarde? Est no castello, bem sabe, e o conselho de guerra, que
ha de julgal-o, tem sde do seu sangue... Hoje, manh, de uma hora para
a outra, as balas de um peloto!... No tenho animo de o imaginar!...
Vel-o morto, assassinado, e no poder valer-lhe!... E sua filha, a
desgraada, que j no tem lagrimas que verter, que sente a todos os
instantes no corao o frio da morte, ameaando o que mais ama e
estremece n'este mundo?!... E hei de esperar?! Resignar-me! Deixal-o
morrer?!...

--Ha de esperar, sim. Que remedio!... Paulo de Azevedo est em perigo,
porm ainda no morreu...

-- verdade. Mas para o salvar?!...

--Havemos de empregar todas as nossas foras.

--Oh! accudiu o mancebo, cujo desespero rompeu por fim em dolorosa
ironia. Ho de salval-o! Contam assaltar o castello, prender Junot, e
colher Lagarde como um lobo no seu antro?!... Lagarde!... O auctor de
todos os nossos infortunios!... ajuntou em voz cava e com terrivel
expresso. Pelo menos esse no se rir impune, festejando o ultimo
suspiro da sua victima. Lagarde pertence-me. Sou o seu juiz, e a minha
justia no coxa, nem dorme, como a da Providencia.

--No blaspheme, e escute, se pde! Os dias da usurpao esto contados.
Quem sabe! manh mesmo talvez troquemos o lucto da escravido pelas
galas...

--Sonho! Irriso!... bradou Manuel Coutinho saccudindo com fora o brao
do seu interlocutor. Aonde esto os homens para isso? Bastaria o som de
um tambor para os espantar, e Junot conhece-os. Cuida que dou f s
proclamaes e aos conciliabulos do Conselho Conservador? Becas,
sotainas, velhos fracos, negociantes, e frades, que tremem da sua
sombra, ousaro nunca medir-se com os soldados de Bonaparte em um
combate?!... Senhor bispo de Malaca, se palavras e balas de papel
matassem, ento sim, mas!...

--Manuel Coutinho, a dor torna-o injusto. Essas becas e esses frades so
mais fortes, do que os soldados em volta de suas bandeiras. Lembre-se de
que puzemos a cabea em cima do cepo, e de que estamos resignados a
padecer!... No esperava que o escarneo casse da sua bcca sobre ns!
Aprende-se mais depressa a morrer com ruido no meio do fogo e dos
alaridos de uma batalha, do que a aguardar o algoz sobre os degraus do
cadafalso?... E ninguem sabe melhor se elle pde ferir, e se todos
estamos decididos a jogar a cabea n'esta partida... em que apostmos
honra, bens, e vida pela patria...

--Sei, mas o povo cala-se e obedece. Lisboa chora e supporta. O reino...

--O reino accordou, e no torna a adormecer. Por isso lhe disse que
estavamos nas vesperas da victoria...

--O reino accorda?! Mas eu ignoro tudo!... Senhor bispo de Malaca!...
Compadea-se da minha impaciencia. Bem v! Estou quasi louco! Conte com
o meu brao, com o meu sangue. Ha alguma esperana?...

--Ha mais do que esperanas, ha factos. Prepare-se! dentro em pouco o
seu posto ser nas fileiras de seus compatriotas, no exercito da
independencia. Leia! Adore os designios profundos da Providencia.

Manuel Coutinho, arrancando-lhe quasi da mo o papel, que lhe offerecia,
correu-o todo em um relance de olhos, e apenas o sentido lhe penetrou a
intelligencia, o sangue em ondas affluiu s faces, as pupillas
faiscaram, e uma expresso de jubilo, e de enthusiasmo subito avivou-lhe
as feies.

--O norte sublevado!... murmurava lendo, e detendo-se, como se julgasse
impossivel o que lia. O Porto talvez levantado a esta hora!
Traz-os-Montes e o Minho manh, ou depois em armas!... Os inglezes em
Cork, ou j no mar para desembarcarem!...

E o suor borbulhava-lhe na fronte, e a vista scintillante devorava cada
lettra do escripto.

--Meu Deus! Se isto  sonho, ou delirio meu, fazei que nunca desperte
d'elle.

--Ento, filho, disse o bispo sorrindo-se com mansido, ainda acha que a
justia divina coxa, e dorme? Arrepende-se agora da sua pouca f?! Pois
bem! J v que as becas e as sotainas ainda valem alguma coisa. O
milagre fez-se, e um bispo  quem ha de no Porto presidir, ao governo do
reino restaurado. Sei-o de certeza.

--Seguiu-se uma pausa curta, durante a qual os olhos e as mos do
mancebo se elevaram ao cu em um gesto sublime de gratido e de crena
fervorosa. Depois a cabea inclinou-se, a vista fitou-se no cho, os
braos descaram e duas lagrimas de dor e de alegria saltaram do
corao, e correram vagarosas pelas faces.

O bispo contemplava o rosto do amante de Leonor de Azevedo, e traduzia
com a perspicacia dos annos e da reflexo os signaes fugitivos da lucta
das paixes.

Por fim venceu a razo. Manuel Coutinho, como se quebrasse de repente a
priso, que lhe paralyzava as faculdades, serenado o semblante, acabou
de exhalar em um suspiro a maior oppresso, que lhe confrangia o peito.

--Fui temerario, senhor bispo. Falei mal de Deus e dos homens! Cegou-me
o orgulho, e deixei-me arrastar pelas loucuras da tristeza. Desesperei
da Providencia no momento em que ella nos accudia!...

--S Deus  grande, filho! O que somos, e o que podem os nossos juizos
falliveis em presena da sabedoria eterna?! Arrepende-se?  o essencial.
Vamos ao que importa. J viu D. Leonor?...

--No! Faltou-me o valor. O que havia de dizer quella infeliz, ferida
de tantos golpes a um tempo?... A imagem do patibulo de seu pae, viso
lugubre e incessante, segue-a por toda a parte. Nos seus olhos leio o
desespero e a morte. Amo-a, senhor bispo, amo-a desde a infancia, como
no amei minha me, como no estremeo meus irmos, como no adoro... ia
soltar uma blasphemia!... Enlaadas desde a meninice pela mesma ternura
nossas duas almas ha muito que no fazem seno uma. O que ella sente e
chora, as suas lagrimas de sangue, caem-me todas, ardentes como fogo,
aqui, dentro do peito, e escaldam-m'o. O vu branco da noiva ser em
breve o negro fumo da orph, e viuva sem chegar a ser esposa, sei,
adivinho, que um claustro comear a abrir-lhe a sepultura, aonde ella,
aonde ns havemos de descanar ambos!... No sem eu me vingar primeiro!

--Manuel Coutinho, deixe a Deus o cuidado de punir! Socegue! A voz da
liberdade, a voz da patria chamam por ns. Seja homem! Seja soldado! Tem
uma espada, no faa d'ella um punhal, arma de traidores!... Leonor est
mais tranquilla, mais resignada. Vi-a hoje, e j falmos a seu
respeito...

--E ella?!... Disse-lhe?! Espera?!...

--Disse-me tudo e espera. Paulo de Azevedo no morreu, e havemos de
salval-o. Tenha mais f. No atormente com os delirios da sua paixo a
existencia propria, e aquella alma sensivel e melindrosa, que treme que
uma imprudencia, venha abismar no mesmo naufragio os dois amores da sua
vida!... Se no fosse o seu genio arrebatado confiava-lhe um segredo,
que Leonor se no atreveu nunca a dizer-lhe, porque receia os impetos da
sua cholera, mas que havia por outro lado de aplacar-lhe a afflico...

--Diga-me tudo, senhor bispo. Prometto, juro vencer o meu genio.

--Veja l! D-me a sua palavra de cavalheiro de fazer o que eu lhe
aconselhar depois?...

--Dou. O segredo?...

--A vida de Paulo de Azevedo no corre por ora risco.  o penhor com que
Lagarde tenta extorquir a D. Leonor uma promessa de casamento...

--Oh o infame!... E eu aqui de braos cruzados!...

--Se me no me escuta, calo-me. Lembre-se da sua promessa.

--Sou mudo. Sou uma estatua.

--Bom! Saiba, pois, que o intendente da policia imaginou enriquecer um
sobrinho arruinado, dotando-o com os bens da filha de Paulo de Azevedo.
Pediu-lhe a mo em Mafra ha mezes, foi repellido, e vingou-se
perseguindo o cavalheiro e sua filha...

--Assim a causa de todas as desgraas sou eu!?... atalhou o mancebo
impetuoso. Leonor e seu pae padecem por amor de mim, e no meio de seus
prantos e do lucto da sua alma aquelle anjo nem uma queixa soltou ainda
contra o algoz da sua vida! Porque sou eu que a torno infeliz e
inconsolavel!... Hei de mostrar-me digno do sacrificio! Hei de...

--Comece por se mostrar digno das minhas confidencias, escutando-as.
Observou o bispo com um sorriso. Lagarde ameaa Paulo de Azevedo,
tem-lhe a espada suspensa de um fio sobre a cabea para vencer a filha;
mas no fim  to interessado como ns em conservar vivo o unico fiador
de suas esperanas!... O conselho de guerra no se reune, e mesmo que
chegue a ser convocado, a sentena no passa do papel.

--E Leonor?!...

--Altiva e varonil redobra as resistencias. Mesmo ao p do cadafalso de
seu pae prefere morrer com elle, creio, a comprar-lhe o perdo por um
preo vil...

--Bem sei! O seu corao envergonha o de muitos homens!... Como se chama
o sobrinho de Lagarde, esse noivo feito  fora, cujo papel, to nobre
(!) entra como parte principal na tragedia de nossas desventuras?...
accrescentou Manuel Coutinho em voz lenta e sombria, a que um toque de
ironia cruenta avivava a expresso.

--Porque o pergunta?

--Para ajustar no mesmo dia todas as minhas contas.

--J se esqueceu da sua promessa?

--No! Mas!...

--Quando for tempo de o desligar d'ella sem perigo seu e nosso... ento
falarei. Agora no. Sabe que manh, depois da procisso do Corpo de
Deus, se esperam grandes novidades?

--Aonde?... Se soubesse a minha impaciencia?!...

--Em Lisboa. Aonde queria que fosse?...

--E contam commigo?... Qual  o posto que hei de occupar?...
Asseguro-lhe que s por cima do meu cadaver...

--Sei muito bem. Guarde para si a noticia, v ver Leonor, demore-se
pouco, porque ella espera uma visita, ou antes duas...

--Visitas!... De quem?...

--Segredo de estado. Depois saber...

--Porm!...

--No insista. Se podesse dizer-lh'o, cuida que me calava? A proposito!
Se por acaso estiver l em cima, quando elles... digo, quando as visitas
chegarem, jura pela sua honra obedecer em tudo a Leonor, e voltar aqui
pela escada do meu gabinete?...

--Mas!... Tantas precaues fazem-me suppor!...

--Supponha o que quizer. Jura?...

--A minha confiana na sua virtude  tal, que de olhos fechados me
entrego em suas mos. Juro!

--No ha de arrepender-se. Sem isso no o deixava subir...

--Mas padre, mas senhor bispo! Essas visitas so ento de inimigos?...

--Talvez! E ento?! Cobre-os, quem quer que sejam, o tecto d'esta casa,
recebo-as como hospedes,  quanto basta, julgo!...

--Oh! Dava metade da minha vida por adivinhar...

--O caso no merece o sacrificio!... Deixe instruir o processo, deixe
informar os juizes, e quando lhe chegar a sua vez... ns o chamaremos.

--Obrigado! Como instrumento cego?!...

--No. Como um corao generoso, como um amigo seguro, porm...
perigoso. Estamos perdendo tempo! Leonor espera-o. Nem uma palavra do
que se conversou aqui, e sobre tudo recorde-se do que jurou...

--Hei de cumprir a minha palavra como homem de honra, mas depois, sr.
bispo!...

--Depois... O que Deus quizer! D o mundo tantas voltas em poucas horas,
Manuel Coutinho, que nos deitmos rapazes, e s vezes accordamos velhos.
Deixe andar os homens e as cousas. Creia no tempo.  grande medico.
Adeus! Vou tractar de uma doena, que d maior cuidado... Portugal est
enfermo e no pde esperar.

E despedindo-o com um sorriso e um aceno de mo cheio de bondade, o
velho prelado entrou para um aposento terreo, cujas portas de vidraas
abriam sobre o jardim, em quanto o mancebo voltou em busca da escada de
pedra, que subia para as salas do primeiro andar.




XII

Arcades ambo!


--Est certo do que affirma? Veja l!... A policia no gosta de
representar papeis tristes, e um erro nas circumstancias actuaes pde
ter consequencias... Repita! Viu os homens? Sabe o seu intento?...

--Vi, sim senhor! Largava a falua quando eu cheguei, e por um triz me
no apanham!... Sempre curti um medo! A gente no ganha para sustos...

--Est bom! E como soube que vinham para a revoluo, que os inimigos de
sua magestade o imperador e rei tramaram para manh durante a procisso
do corpo de Deus? Olhe bem! No se allucine...

--No ha engano, no senhor. Aqui trago quem ouviu tudo. Gaspar,
chega-te! S. ex.^a d licena. Dize para ahi o que saccaste do bucho ao
alarve do Paulo Penedo, e o que ouviste na Ponte da Asseca.

--Ah! Este homem ouviu?!... Bem! Ento que fale.

O dialogo, que estamos escutando, tinha-se travado, como o leitor j
percebeu de certo, entre o intendente Lagarde, o sargento Cabrinha, e o
seu assessor Gaspar Preto.

Os honrados malsins, farejando a denuncia lucrativa, corriam de Villa
Franca, aonde se haviam transportado a cavallo, e traziam nos alforges
nada menos do que uma boa conspirao para attrahir sobre si a chuva de
ouro, com que o ministro francez costumava recompensar os servios
relevantes dos seus agentes.

Ainda que o sargento desempenhasse o papel principal, manda a verdade
que se diga, que a gloria do descobrimento pertencia de direito s
longas e afiadas orelhas do seu digno assessor. Fra o _Sapo_, apezar de
meio homiziado depois da priso de Paulo de Azevedo, devida, como
sabemos,  sua traioeira actividade, quem, espreitando os passos do
Antonio da Cruz e do Joo da Ventosa, e as idas e voltas nocturnas dos
embuados, que frequentavam a casa arruinada da Ponte da Asseca,
principira a desconfiar de que as ruidosas cavalhadas das almas do
outro mundo nas salas desertas do palacio encobriam planos politicos.

Para melhor se certificar, provou Gaspar, que no roubra a alcunha por
que era conhecido.

Cozeu-se, como o _Sapo_, com as pedras cadas, que do lado da porta do
Joo da Ventosa pegavam com o tapume, por onde elle introduzia as
visitas, segundo vimos atraz, nos quartos do primeiro andar, penou frios
e fomes, tiritou de mdo mais de cem vezes, mas por fim conseguiu o seu
fim.

Seis dias antes da festa do Corpo de Deus, s onze horas da noite, por
um luar esplendido, colheu em flagrante tres dos fantasmas, que tanto
desejava avistar, e teve a rara felicidade de os conhecer a todos.

Viu-os entrar. Ficou firme no seu posto. A divindade protectora dos
mexericos segredava-lhe que se os olhos tinham alcanado muito, os
ouvidos ainda podiam obter mais. A sua paciencia merecia premio, e o
demonio, cujo era, no lh'o negou.

Quando se a j sentindo quasi inteiricado de jazer enroscado, como a
serpente, os conspiradores saram. Principiava a aclarar a madrugada. Um
d'elles, o capito de milicias de Rio Maior, dotado de uma voz de baixo
profundo, voltando-se para os outros, disse-lhes:

--Faam-me uma fogueira bem vistosa l pelos sitios de Leiria, e
assem-me n'ella esses hereges e jacobinos, que os de aqui ficam por
minha conta! No havemos de ser menos que os de Bragana e Villa Real!
Viva o principe regente, nosso senhor!

Os poderes do orgo vocal do herculeo capito eram to extensos, que
este desafogo innocente do seu patriotismo seria assaz perigoso, se a
solido e a noite o no cubrissem. Entretanto os amigos, menos
intrepidos, recommendaram-lhe prudencia, e o gigante, docil como uma
creana, submetteu-se, encolhendo os hombros, a estes conselhos timidos.
O morgado de Penin e outro cavalheiro apartaram-se ento um pouco. Quiz
o acaso que fosse para o lado, justamente, em que o virtuoso Gaspar se
occultava; e o terror do malsim subiu tal ponto, que esteve um instante
para o trahir!

Vendo de repente o Antonio da Cruz, o Joo da Ventosa, e o Manuel da
Aramanha, o resurgido, to proximos do seu covil, que bastaria um
d'elles extender o brao para o agarrar, no foi senhor de si. Vinham
atraz dos personagens principaes, e tudo inculcava que no vinham por
curiosos. O _Sapo_, frio de neve, e todo um calafrio de medo,
ennovellou-se n'uma bola para occupar menos espao, e fez a Nossa
Senhora da Saude a promessa solemne de uma missa e de uma perna de cra
se permittisse, que nenhum dos cinco dsse com elle alapado n'aquella
toca, seguro de que, se escapasse por milagre ao alentado varapau do
ex-assassinado fazendeiro, a bala da espingarda, que o moleiro trazia ao
hombro, no o erraria de certo em nenhum caso.

Os conspiradores estavam longe de se supporem espiados, e traziam outros
cuidados.

Voltando-se para Antonio da Cruz, o morgado disse-lhe:

--J sabes! No dia de Corpo de Deus has-de estar em Lisboa. s l
preciso!

--Se meu amo mandar!

--De certo. Mas sei que manda. O Paulo Penedo no tarda com as ordens...
E voc, sr Joo da Ventosa, deixa-se ficar por c, ou acompanha tambem
o Antonio  crte?

--Eu, sr morgado, l por ir, ia; mas assim sem saber o que a gente l
vae fazer?!...

--Ora! Vae dar um passeio, vr a procisso, que se despovoam aldas e
logares para accudir a ella... e depois!... Adivinha-me este dedo, que o
seu cajado talvez no fique por l parado!... Gosta dos francezes?...

--Como o diabo da cruz, senhor! Pelo amor que lhes eu tenho... e o bem
que me fizeram!...

--Pois v, homem, que pde ser que no perca o seu tempo. s vezes
d'onde menos se espreita sae coelho...

--V. s.^a que diz isso!... Est bom. No  preciso mais. Senhor mandar,
preto obedecer!... E tu, Antonio Simes, ests ahi sem atar nem desatar?
Porque no vens com o Antonio e commigo  festa? Tens medo dos
francezes, homem?

--Salva tal logar, sr compadre! Mas que quer voc que eu v fazer 
crte pregado no meio das ruas como uma estaca? Com mil cobras? Se por
l bispasse o alma ruin do sargento, ou aquelle excommungado _Sapo_,
ainda, ainda; mas qual! sumiu-se a terra com elles!...

--Qual sumiu! Aposto um almude dobrado contra duas canadas singelas em
como as duas osgas esto pegadas em alguma parede de Lisboa...

--Veja l, sr compadre! Se tem palpite n'isso  outra cousa: pernas a
caminho. N'um sopro deito o albardo  gua... No morro quieto se no
racho de meio a meio aquelles dois patifes.

--O _Sapo_ fica por minha conta, atalhou o moleiro. Prometti-lh'o e hei
de cumprir. Voc, sr Joo, que me diz da figueira de Jos Lopes, alli
em cima, no alto do logar?

--Ora essa! Que  boa arvore. Porque?...

--Pois juro-lhe que d figos de enforcado para o anno. Antonio me no
chame eu se no pendurar do pescoo em um dos ramos o judas do Gaspar
Preto antes do dia do natal!...

--Voc sempre tem cousas, sr Antonio!

--V com o que lhe digo. De mais, pouco ha de viver quem o no vir.

--Ento, rapazes? atalhou o morgado, que estivera conversando a meia voz
durante o colloquio dos tres. Quem vae a Lisboa?...

--Saber v. s.^a que ns todos tres!

--Ora assim  que . Gosto de os vr de feio. Bebam por l um copo, ou
dois, de vinho  minha saude, e outro  do principe regente, nosso
senhor, o qual, querendo Deus, muito cedo teremos n'estes reinos para
gloria da patria e da santa religio!...

E o morgado, assim como os ouvintes, desbarretaram-se com toda a
reverencia como bons catholicos e vassallos fieis e respeitosos.

--Adeus, Antonio, proseguiu. Recados a teu amo! Diz-lhe que ns c
estamos, e que o que fr soar. Sr Joo! Volte depressa. A caldeira
est ao lume, ha de ferver, e pde ser necessaria a casa...

--Quando v. s.^a mandar, sr morgado.

--Olhe! Se no meio da procisso, ou depois, houver algum barulho, no me
metta as mos nas algibeiras. D-lhes com alma, desanque-me os jacobinos
moa-m'os como farinha, hein?...

--V v. s.^a descanado.

--Vou! Vou! Vocs no deixam mal o Ribatejo. At  volta. So horas.

Os tres de fra foram buscar os cavallos, e d'ahi a pouco desappareciam
a galope pela Ponte da Asseca. O lavrador e os seus amigos recolheram-se
tambem logo. D'ahi a instantes resonavam a somno solto.

Quem no tinha vontade de dormir era o _Sapo_, o qual, arrastando-se do
esconderijo, fulo de terror, respirava a custo, estirando os braos,
mais morto do que vivo.

A ameaa do Antonio da Cruz soava-lhe nos ouvidos como um dobre funebre,
e por vezes sentia j em imaginao os gorgomillos to apertados como se
lh'os estreitasse a promettida e fatal corda!

A reputao merecida do moleiro de no quebrar palavra dada fazia-o de
mil cres, e a voz da consciencia, que s o susto tinha o condo de
accordar de vras, advertia-lhe, que provocra, no uma, porm cem
vezes, o castigo.

No vendra elle ao sargento o segredo do asylo em que se homiziava
Paulo de Azevedo, abusando da hospitalidade de Antonio da Cruz, o qual,
tendo-o poupado, o julgra grato? No fra causa da priso do Cavalheiro
de Mafra, da magoa de Leonor, e do desespero de Manuel Coutinho? Agora
mesmo, no colhra um segredo, que podia custar a vida e a liberdade a
tantas pessoas?

Gaspar era logico. Convencido de que a sentena proferida era
irrevogavel, tractou de se eximir aos seus rigores pelos meios usuaes,
isto , accumulando novas traies. Coxeando e rastejando partiu para a
villa, aonde amanheceu  porta do sargento, cuja cholera exacerbada pela
certeza de ter servido de alvo  irriso na famosa noite dos fantasmas,
soube artificiosamente exaltar. O _Sapo_ acabou de o petrificar,
narrando-lhe as ameaas do Antonio Simes da Aramanha, e o plano,
interceptado por elle, de grandes tumultos em Lisboa durante, ou depois
da procisso do Corpo de Deus.

A noticia valia o seu pezo em ouro, e Cabrinha decidiu-se a ser em
pessoa o portador d'ella.

A chegada de Paulo Penedo, emissario de Manuel Coutinho para chamar o
moleiro em seu nome  capital, confirmou as informaes do agente.
Gaspar, a troco de po, queijo, vinho, arrancou sem difficuldade ao
camponez boal quanto elle vira e ouvira do patro em Lisboa.
Separou-se, deixando-o convencido de que o amante de Leonor de Azevedo
no tinha mais leal amigo.

Depois d'esta ultima proeza, os dois malsins comearam a jornada at
Villa Franca, aonde haviam de embarcar, o sargento ardendo em
impaciencia de cingir na fronte os louros, e de sepultar no bolso as
peas de 7$500, que Lagarde no cisava aos que o serviam zelosamente: o
_Sapo_, cujas vigilias eram cada noite mais tormentosas, acompanhando o
patrono a Lisboa, primeiro para se afastar o mais possivel da figueira
do alto do Valle, depois, para ter o gosto de vr mettidos na enxovia do
Limoeiro, graas  sua honrada lingua, o Antonio da Cruz, o Joo da
Ventosa, e o Antonio Simes.

J os ouvimos confessar ao intendente da policia, que por um instante
no caram na bcca do lobo em Villa Franca, e encontrando-os no
gabinete do ministro, no exercicio de suas funces, convem notarmos,
que tinham sido activos no desempenho da sua misso, como homens fieis
aos interesses proprios, e devotos da causa que abraavam.

Lagarde escutra com atteno o depoimento lucido e conciso, que o
_Sapo_, sem trepidar, lhe recitou, como lico aprendida de cr,
admirando a prodigalidade, com que a natureza favorecra este ente quasi
disforme e rachitico, que, encarado  primeira vista, no promettia,
seno fraqueza e estulticia.

Depois de tomar algumas notas, consultando um, ou dois papeis, e
tornando-os a encerrar nas gavetas do bofete, o intendente conservou-se
silencioso por momentos, scismando profundamente.

--A conspirao existe, dizia elle comsigo. Aqui esto as provas d'ella;
mas quem ha de persuadir o duque, e vencer o seu amor proprio? A leitura
d'aquelle maldito plano atrazou-nos!... No importa. Deixal-os rir! A
mim compete-me velar para que riam sem perigo.

Virando-se depois para os agentes, que aguardavam calados as suas
ordens, acrescentou:

--Sargento! Estamos na pista de um trama complicado. Fique em Lisboa com
este homem, e procure hoje de tarde o meu secretario Loisy. Elle lhe
dir o que ha de fazer.

Estas palavras, e o gesto do ministro avisaram os dois, de que a
audiencia estava terminada. Saram logo, mas ainda Lagarde no tinha
tido tempo de percorrer com os olhos um papel, que acabavam de lhe
entregar, abriu-se uma porta particular, e entrou no escriptorio um
mancebo, de rosto jovial, vinte oito annos de edade, e figura esbelta,
realada pelo uniforme de official de cavallaria, trajado com garbo. Era
seu sobrinho Armand de Aubry.




XIII

Dois parentes


O intendente accolheu o recem-chegado com um sorriso, e extendeu-lhe a
mo com amizade. Aubry apertou-lh'a sem ceremonia, encarou-o com ar
malicioso por momentos, e disparou-lhe depois na cara a mais longa e
estrepitosa risada, que de certo tinham ouvido aquellas paredes, desde
que a Santa Inquisio reinava dentro d'ellas.

--Ah! Ah! exclamou fazendo esforos em vo para se reprimir. Que duas
figuras unicas, que duas corujas agoureiras acabo de encontrar no
corredor!... Pelo que vejo a procisso de manh leva anjos, demonios,
serpentes, e at estafermos do mais curioso feitio. Estes dois so
magnificos. Sobre tudo um... o mais baixo.  admiravel!

--Porque? atalhou Lagarde.

--Porque, meu tio? A pergunta  rara! Aquella cabea de ano, aquella
cara de papel, e os saltos de r da perna coxa promettem  festa um
palhao soberbo. Por quanto se aluga aquelle senhor? Juro-lhe que vale
quanto pesa... em cobre. Dou-lhe os parabens! Foi um achado. Posso saber
o que elle custa  policia de sua magestade o imperador e rei?!...

E o official dizendo isto ria como um louco, afagando o bigode louro, e
saccudindo o p das botas de montar com a ponta do junco flexivel, que
trazia na mo.

--No custa barato, Armand! redarguiu o intendente, sorrindo-se tambem.
Aquelle ano, assim mesmo contrafeito e ridiculo como te pareceu...

--Esse _pareceu_  delicioso, meu tio! Continue. Sou todo ouvidos.

--Vale mais do que muitos homens guapos e bem postos.

--Quem tal diria! Ento  um diamante bruto?...

--Talvez. Dentro em pouco vel-o-has chefe...

--Chefe? Muito bem. E de que tenciona invental-o chefe? Acaso a policia
conta distrar os portuguezes de suas saudades, armando tablados ao ar,
e escripturando polichinellos?

--No! redarguiu Lagarde um pouco enfadado dos motejos do sobrinho. A
policia aspira a funces mais modestas. Lisboa, esta cidade immunda
como as do Oriente, comea j a ser outra cousa... As ruas...

--T! T! Meu tio. Esse elogio dos servios da policia, na sua bcca 
capaz de abrandar as pedras... das mesmas ruas. A proposito!
Denuncio-lhe os ces vadios. Resistem s ordens como janizaros. Hontem 
meia noite estivemos em perigo de sermos devorados, eu, e o meu cavallo!
Que morte para um official do exercito imperial!... Diga-me: o ano, de
que tractmos, ser nomeado executor da alta justia contra as matilhas
famintas? A cara do personagem  de um verdadeiro Herodes, e no
desmente o officio. Puah! O maldito sempre deixou aqui um cheiro
patibular!...

--Armand! No te cansaste ainda?!...

--Oh! Cuida meu tio, que os assumptos recreativos se encontram a cada
canto n'esta boa terra? O que admiro mais  a sua longanimidade. Parece
incrivel! Aturar fechado n'este gabinete dias, semanas, e mezes, entre
cachos de malsins e grinaldas de larapios aposentados! Santo Deus! Que
emanaes asquerosas.  de engulhar at o estomago a um tubaro!...

--Ainda! Armand, o que sinto mais, do que a triste sociedade, que sou
obrigado a admittir...

--Diga tristissima, meu tio, que no diz seno a verdade. Os melhores
dir-se-am desenterrados das enxovias, ou das gals...

--Ento! O que deploro, mais do que isso,  essa tua leviandade
incuravel. O homem, que ests escarnecendo, prestou-nos a ambos um
servio relevante...

--No sabia. Pelo que observo o precioso aborto accumula as funces de
palhao s de nigromante? Faz magia branca nas ferias. Excellente!

--Ah, Aubry! Quando te verei um momento serio e preoccupado dos deveres
da tua posio?

--Quando uma bala me varar o peito, ou a cabea. Se no levasse a vida a
rir e a folgar, entre dois amores, um que hoje foge para volver manh,
outro que arrebata e embriaga; o amor dos sentidos e o amor da gloria;
cuida que valia a pena de a arrastar de desengano em desengano, de revez
em revez at aos rheumatismos, e aos defluxos asthmaticos da velhice?
Por alma de meu pae! Nasci e hei de acabar com esta sina. Sou assim
feito. No tem remedio! Mas apezar de rir muito, de chorar pouco, e de
preferir o lado comico ao aspecto lugubre da existencia, ajuntou,
tornando-se um tanto grave, creia que este corao, facil em se
alvoroar com a promessa de uns bellos olhos pretos, azues, ou verdes, a
cr  indifferente uma vez que sejam formosos (!),  incapaz de trahir a
honra e a amizade, ou de se aviltar por nenhum preo...

--Bem sei. Por isso te estimo. Desejava-te s menos estouvado. No pde
ser? accrescentou sorrindo-se involuntariamente do gesto negativo do
sobrinho. Paciencia! Escuta-me. Aquelle homem, que saiu d'aqui ha
pouco... No rias! ao qual ignoro porque pozeram a alcunha de _Sapo_...

--Quem seria o philosopho que to bem chrismou o reptil? Preciso
abraal-o! O _Sapo_?! Mas  verdadeiramente um sapo o seu homem, meu
tio! Bom! No se agaste. J me calo. Passo a estar serio e aprumado como
uma estatua... Diga!

--Aquelle homem... foi quem descobriu o asylo de Paulo de Azevedo, e
entregou  policia a sorte do cavalheiro, do qual depende...

--Cuidei que lhe tinha escapado! interrompeu o mancebo. Pareceu-me
ouvir-lhe dizer que duas vezes...

--O tivemos nas mos, e que nos escorregou por ellas, zombando de nossas
diligencias?  verdade. No te enganaste. Mas  terceira fomos mais
felizes. Estava escondido aqui mesmo em Lisboa, e mandei-o prender... O
sargento Cabrinha, um dos meus agentes mais activos, e este _Sapo_, que
ainda promette ser melhor...

--Ah, meu tio, fale-me de tudo menos d'esse miseravel. Deploro vl-o
convertido em Plutarco de similhante monstro...

--Pois sim. Mas attende-me. Lavemos agora um pouco a nossa roupa suja em
familia. O que te resta dos bens de tua casa?...

--Dividas e credores, replicou Armand com um sorriso stoico sublime.

--Nada mais?...

--Acha pouco? Dividas desassocegadas e credores inquietos!... Tenho com
que me entreter toda a minha vida.

--Um!... Pois de todas as propriedades, que herdaste, mobilias, ouro,
prata... no possues absolutamente nada?!...

--Nada!... O ouro a que posso chamar meu... e assim mesmo s por uma
audaciosa figura de rhetorica, porque o no paguei ainda... trago-o aos
hombros... so as dragonas!

--Ah! Ento o naufragio foi completo!?... E com que contas para o
futuro?...

--Essa  boa! Conto com os meus vinte e oito annos, com esta figura
soffrivel, com a saude  prova de todas as fadigas, que devo  minha
compleio, e que tem sido o desespero dos medicos, e com o acaso de uma
bala, ou de uma proeza, que me eleve em patente, ou me deixe no campo
como muitas outras buxas de canho, que valem menos do que eu.

--s louco!...

--Sou philosopho!

--Talvez! Mas dize! Eras filho unico. Teus paes deixaram-te...

--A sua beno e alguns punhados de escudos nas gavetas. Que quer, meu
tio?! As Aspasias de Pars, as Sylphides do corpo de baile, e as Musas
da opera vendem os sorrisos caros. No imagina!... E sorriram tanto, e
com tal graa para mim, que as mos abriram-se-me sem as sentir...
Quando ca na realidade... sabia de cr todas as piruetas e saltos de
Vestris, todos os passeios e casas de pasto de mais fama, e podia dar
lices de gosto e de ouvido a todas as platas civilizadas... Mas nem
um real no bolso para afugentar o demonio! Encolhi os hombros e fiz-me
soldado.

--Bem sei. Porm a herana de tua tia?!...

--Santa e excellente velha!... Saltam-me as lagrimas dos olhos ainda
quando me recordo d'ella! A herana da boa tia veiu nas poucas horas de
melancholia, que tenho penado em minha vida.

--Isso no explica!... Lembro-me de ter ouvido falar em terras...

--Oh, de certo. Um bom par de geiras... Eram muito fracas. Vendi-as por
economia.

--Mattas e pinhaes!?...

--Magnificos!... Eram muito sombrios. Troquei-os a dinheiro para me no
entristecerem.

--Uma casa de residencia vasta com jardins?...

--A casa era humida e constipava-me. Os jardins precisavam de muito
amanho, e no apparecia jardineiro. Desfiz-me da casa e dos jardins.

--Uma mobilia antiga, mas rica?!

--Custava-me muito caro o transporte, cedi-a.

--Percebo!... N'esse caso ests?...

--Como diz o livro de Job: N sa do ventre de minha me, e despido de
bens da fortuna descerei  cova.

--Admiro o teu sangue frio. No te parece j tempo de assentar, e de
mudares de vida...

--Conforme a mudana! Saltar da agua fria para car no fogo, no sei se
 peior.

--Armand!  necessario cazares, e que o dote de tua mulher...

--Chegue para remendar a capa esburacada do mendigo?!

--Mais do que isso.  preciso que d para uma capa nova.

--No digo que no. Mudarei ainda de pelle. Estou prompto.

--Estimo. Falei-te na filha de Paulo de Azevedo...

-- moa?...

--Dezoito annos.

--Feia como uma herdeira, ou desastrada como as morgadas?...

--No. Linda, airosa, e gentil como uma parisiense.

--Santo Deus!... E esse thesouro, essa fada, mimo de todas as
perfeies, guardou at hoje o seu corao livre  espera de um
perdulario, de um estouvado, que nunca viu?! Meu tio! Sabe que o unico
ridiculo, de que tenho medo,  da sorriada merecida de Jorge Dandin?...

--Repito.  uma menina sria, prendada, e espirituosa...

--No duvido. Antes isso! A ingenuidade de Agns sempre me assustou
muito! Essa menina... Mathilde?... Clara?...

--Leonor! Leonor de Azevedo...

-- verdade! Leonor!... Essa Leonor no estava justa a cazar com um
cavalheiro, tambem fidalgo, official, capito, creio eu, do segundo
regimento do Porto, licenciado depois do tumulto das Caldas?... Se no
erro, elle chama-se?...

--Manuel Coutinho! accudiu o intendente. No houve nunca promessa de
cazamento, enganas-te. As duas familias davam-se muito. O que poderia
existir era algum namorico, alguns requebros naturaes... innocentes...

--Sim! Sim! Muito innocentes. Sabe que nunca me resolvi a calar sapatos
de defuncto, e que de sapatos de vivos gosto ainda menos?... Uma
pergunta, meu tio?... Hei de ser sempre noivo por procurao? Conta
cazar-me sem eu vr nunca minha mulher... nem at no oratorio da
policia?...

Lagarde piscou os olhos, assoou-se com ruido, e coou depois ao de leve
a ponta do nariz aquilino. Eram os gestos, que n'elle inculcavam
hesitao e perplexidade.

--Cazares sem vr tua mulher?! exclamou rindo constrangido. Pelo amor de
Deus! Quem te metteu isso na cabea?

--Cuidei! Como os principes cazam pelos retratos...

--Has de vl-a, adoral-a, e agradecer-me de mos postas a escolha.

--Estou certo, meu tio. Porm!... Como o meu voto me parece essencial
desejo dal-o em consciencia. Quando me apresenta a D. Leonor?...

--Um dia cdo! manh talvez! redarguiu o intendente, agitando-se, e
estorcendo-se na cadeira, como se o assento fossem brazas.

--E porque no ha de ser hoje. Sou to curioso!...

--Hoje! Sem a avisar! De mais tenho que despachar... Espero...

--O honrado sargento, ou o palhao talvez?!... Vamos. Decida-se. Hoje,
ou nunca! _Alea jacta_! como ns diziamos no collegio. Os bons palpites
aproveitam-se. O matrimonio  um grilho de ferro coberto de flres...
Quem sabe se manh eu terei medo da felicidade conjugal, e me
arrependerei? Seja docil! Deixe-me vr hoje esse portento encoberto...

--Pois bem! Faa-se a vontade ao teimoso, contestou Lagarde, depois de
alguns instantes de reflexo, tirando o relogio do bolso, e
consultando-o. So dez horas. Ao meio dia aqui te espero.

--Viva o melhor dos tios! bradou Armand, rindo, e abraando-o. Diz o
rifo: em quanto venta molha a vla! Quero remar com a mar.  verdade
que na Ponte da Asseca, em um casaro arruinado, apparecem aventesmas, e
que um troo de milicianos debandou por uma noite de tempestade, fugindo
de um fantasma?...

--Porque?

--Nunca tive a honra de conversar particularmente com nenhum espectro, e
desejava certas informaes sobre o paraizo e sobre o purgatorio...

--Os fantasmas da Ponte da Asseca sabes o que so? accudiu o ministro
agastado. Um bando de conspiradores, que a policia vae desmascarar e
punir.

--Jesus, que ares tragicos, meu tio! Pela sua vida no represente de
tyranno. O papel cai-lhe mal. D-me essa misso a mim. Adoro as
aventuras, e Cazote  o meu idolo... Quem sabe se irei l encontrar
algum diabo amoroso?

--Pois bem, irs! atalhou Lagarde sorrindo. Mas j te previno. O que l
achars so morgados lorpas, e rebeldes endurecidos. Agora adeus. No te
esqueas. Ao meio dia em ponto!

--Ao meio dia em ponto! respondeu o sobrinho, saudando-o, e saindo.




XIV

Amor


Quando Manuel Coutinho assomou aos umbraes da porta do aposento, acabava
Leonor de lr uma carta de seu pae, escripta com a firmeza de animo, que
tornava to nobre o caracter do velho cavalheiro. Da sua priso do
castello, com a morte eminente e a vingana de poderosos inimigos
suspensa sobre a cabea, falava Paulo a sua filha com o mesmo socego,
com que o faria solto e desaffrontado. Nem uma queixa! Nem um indicio de
tristeza, ou desalento! Ausente em uma viagem longa, ou distrado em uma
partida de caa, no tractaria com indifferena mais soberana as
vigilias e amarguras do carcere.

Dizia-lhe que o seu processo, apressado a principio pelo odio, agora
coxeava, retido por mo occulta. Zombava da vigilancia, com que era
guardado, attribuindo-a  scena comica da sua evaso no palacio da Ponte
da Asseca.

Perguntava-lhe por Manuel Coutinho, e pedia-lhe que recommendasse ao
mancebo muita paciencia e conformidade, e resignao para atravessar os
dias dolorosos do captiveiro. Finalmente, lembrava-lhe em estylo risonho
alguns episodios de suas peregrinaes pelas aldeias e casaes do
Ribatejo, assegurando-a, de que o descanso do corpo e a serenidade do
espirito iam obrando n'elle o prodigio de o transformarem, de seco e
agil, em um ente mais obeso, mais corpulento, e mais oleoso, do que fr.
Raymundo, frade notavel em Mafra pela estatura agigantada, pela
estupidez, e pela voracidade.

Aonde a sua ternura extremosa se denunciava, e a alma stoica deixava
perceber a ferida dos espinhos da saudade, era nos conselhos dados 
donzella, e nos gracejos constrangidos, com que a motejava cerca da
alvura da tez e das rosas pallidas, to festejadas no seu rosto,
deplorando que o sol, as geadas, e a vida alpestre de uns poucos de
mezes as tivessem queimado! Rogava-lhe ironicamente, que aprendesse de
alguma dama franceza o segredo d'aquella frescura artificiosa, que s
ellas sabiam fabricar para engano da edade, e conservao de successivas
geraes de adoradores.

Apezar do tom jovial, a carta era mais triste do que se respirasse
sincera melancholia. Leonor, avaliando o corao paterno pelo seu,
sentiu correrem-lhe as lagrimas e empanar-se-lhe a vista  proporo que
a a lendo. Dotada, tambem, de indole varonil e soffredora adivinhava
facilmente as apprehenses e os tormentos, que aquellas lettras
escondiam, e quasi revia por baixo d'ellas as nodoas do pranto suffocado
por uma vontade forte.

A donzella recostava-se em uma marqueza de palhinha. O brao n do
cotovello para baixo descansava em um velador entre duas jarras de
porcelana cheias de rozas e madresilvas. Duas portas de vidraas abertas
sobre o jardim, para onde se descia por escada de poucos degraus
deixavam entrar a luz em jorros. A sala era atapetada de esteira, e
estava ornada de alguns paineis de paizagem, pendentes das paredes
estucadas. Nos vos das portas duas gaiolas douradas encerravam aves
africanas de vistosas plumagens. Em cima do marmore de um trem, entre
flores, jazia esquecido o livro, que tivera na mo pouco antes de rasgar
anciosa o sobrescripto da carta, que viera interrompel-a. A um lado, no
bastidor, sobre a tela repregada notava-se ainda a agulha picando a
talagara na petala delicada da ultima flor, cujo matiz deixra em meio.
Um vidro de peixes, de cores cambiantes, enfeitava a mesa fronteira ao
trem e ao espelho.

--A filha de Paulo de Azevedo vestia de escuro sem affectao. Um
corpete, dos que ento se chamavam _Mimosos_, de seda preta com
guarnies singelas, e cintura curtissima, desenhava mal a rara
elegancia d'aquelle corpo esbelto, moldado pelas graas. Uma fita larga,
com lao e pontas caidas, unia-o  saia de tafet de cauda alta, orlada
com uma barra de requifes; mas a saia, segundo a moda do tempo, no era
menos desairosa do que o corpete; e n'esta nossa epocha de crinolines e
bales de verga de ao a magreza da roda, e a estreiteza do crte, que a
cingia aos membros quasi a ponto de accusar de mais as frmas, faria
estalar de riso um conciliabulo de modistas e petimetres. Uma singela
cruz de coral, encastoada em ouro, e suspensa de um fio de aljofres
debruava-se sobre o collo de neve, que um poeta sem exagerao
denominaria verdadeiro collo de gara. O penteado, no menos singular
para os nossos dias, que o feitio do trajo, era todo de anneis
irregulares, acompanhando a testa em figura quasi de diadema, e
rematando no alto da cabea por uma flor natural cravada nas tranas.
Sapatos de setim de entrada muito baixa, cobriam ou antes descobriam o
p mais breve e mais lindo, que um estatuario poderia desejar para
modelo das extremidades de uma Heb. A manga do corpete desnudava todo o
brao, que na pureza e correco das linhas no desmentia a formosura do
semblante, o enlevo namorado dos olhos, e a expresso nobre, quasi
altiva, e apesar d'isso ingenua e suave da physionomia.

Vendo-a assim reclinada, com os atomos dourados do sol a brincar-lhe nos
cabellos, com a meiga pallidez, que um carmin fugaz e transparente
apenas crava por momentos, e com aquella melancholia to feiticeira
pousada na vista, perdida com o pensamento bem longe de si e de tudo o
que a cercava, um pago, se a contemplasse de repente, hesitaria entre
Juno e Diana, mas de certo no equivocaria sua belleza casta com os
encantos mais faceis da lasciva deusa de Paphos.

Manuel Coutinho, que a amava, que desde a infancia a vira crescer em
annos e attractivos, deteve-se suspenso de admirao, no se atrevendo a
despertal-a do enlevo com o ruido de seus passos. Mas o corao tem
sentidos mais subtis, que os ordinarios. Sem o vr, sem ter percebido a
sua chegada, Leonor adivinhou que era elle, e a sua alma, fugindo  dor,
logo voou a encontral-o. Um suspiro  flor dos labios, um sorriso em que
a magoa e o jubilo se fundiam, duas lagrimas congeladas, tremendo nas
pestanas, disseram ao mancebo, que o sonho se quebrra, e que a amante,
baixando das illuses do devaneio, volvia s realidades doces, mas bem
tristes, da existencia, e da paixo.

Leonor olhou para elle. N'este simples volver de olhos disse tudo,
calados os labios, mas cheia de luz a vista radiosa. Um rubor, que
esmorecia, e breve tornava a avivar-se, denunciou ao mesmo tempo o
sobresalto da alegria e as tremulas palpitaes do peito. O mancebo, no
menos rendido, porm mais impetuoso, soltou a alma em um suspiro de
entranhavel affecto, prostrando-se-lhe aos ps e, adorando-a, quasi como
se adora a Deus. O que ambos falaram mudos n'este momento s pde
concebel-o quem j gosou tambem as delicias por vezes acres das
expanses do primeiro amor.  donzella ria a esperana na bcca e nas
pupillas. Ao amante, olvidados os zelos e amarguras das confidencias,
que acabra de escutar, tumultuavam no seio agitado as commoes, como
vo e vem as ondas inquietas espumando sobre a areia.

Por fim a mo estreita e melindrosa extendeu-se para o obrigar a
erguer-se. Um beijo ardente, seguido de mil osculos, n'essa mo que no
fugiu, affrontou de novas e vivas cores as faces da filha de Paulo de
Azevedo.

Desviando com um gracioso gesto de infinita brandura o amante ajoelhado,
e constrangendo-o a levantar-se com o imperio s dos olhos. Leonor
disse-lhe:

--Veiu tarde!... No imagina o cuidado com que o esperava!...

--Leonor! Leonor! exclamou Manuel Coutinho incapaz de se vencer. Jure-me
que no dar nunca a outro esta mo, que tenho nas minhas, como penhor
da nossa ventura...

--Juramentos?! J se no contenta com menos? No cr em mim?!...

--Como em Deus!

-- de mais agora. Basta a f... Teve noticias de meu pae? Ser possivel
ao menos demorar a sentena? que o ameaa. Quando me lembro!... Manuel!
E ns aqui n'estes colloquios, quando elle.. geme desamparado, e se
prepara para a morte... que ser tambem a minha, porque, se o perder,
sei que no posso, que no hei de sobreviver-lhe!...

--No diga isso. Seu pae est mais perto da liberdade, do que da
morte...

--Quem lh'o disse? Elle escreveu-me. Aqui est a carta; mas s confia em
Deus! Ha alguma novidade? Veja que padeo ha tantos dias, chorando quasi
orph aquella vida, que  tudo para mim... Diga! Devo ter ainda
esperana?...

--Deve!... O bispo, e sua irm no lhe contaram nada?...

--No! Mas o que ha? Ouvil-o-hei da sua bcca... A boa nova ser para
mim mais risonha!

--O Porto vae acclamar o principe regente. Sepulveda sublevou as
provincias do norte! O Alemtejo e o Algarve fazem e faro o mesmo!... Os
francezes acossados retiram sobre Lisboa de toda a parte!...

--Seja para sempre glorificado o vosso nome, meu Deus! exclamou a bella
enthusiasta, caindo de joelhos, e erguendo as mos. Os ferros do
captiveiro so asperos e pesados e a minha alma, ferida e cega de
prantos, nem j a vista se atrevia a elevar ao ceu para vos pedir
justia!... O dia da liberdade comea a raiar. Manuel! O seu posto no 
aqui,  ao lado de nossos irmos que pelejam e morrem pela patria...

--Bem sei. Parto em dois dias. Vinha dizer-lh'o.

--Perdoe-me. Tenho pressa de vr meu pae! Quero dever-lhe o seu
resgate... As damas antigamente mandavam os cavalleiros correr
aventuras, e no os premiavam seno coroados de louros. Quer ser meu
cavalleiro?... ajuntou com um sorriso e em um tom irresistivel.

--No o sou j? Que votos pde fazer que eu no cumpra?

--V! A empreza  gloriosa. Ajudar a restaurar a patria, a restituir o
throno ao seu rei legitimo, e um pae extremoso aos braos da sua
filha!... Porque no sou homem?! Nunca invejei tanto uma espada!...

--Quem sabe, accudiu o mancebo sorrindo, se os dias das amazonas no
voltaro!...

--Porque o diz zombando?... Cuida que me faltaria o valor?... Estou
louca! Desculpe! De balde quero dissimular a minha fraqueza mais do que
posso. Elles so briosos; ho de combater aqui como combateram em toda a
parte... Quantas victimas! Quanto sangue! Manuel! No seja temerario!
Quero tornar a vel-o!... Oh! se uma bala, se um golpe!...

--Deus ser comnosco. Havemos de vencer. Anime-se!

--E eu?!... Ficarei s entre dois amores, que so toda a minha
esperana, entre duas saudades, que prendem toda a minha alma! S! No
sem outra companhia mais do que receios e cuidados, sem outras armas
seno as minhas lagrimas e oraes!... Attentando, depois, na confisso
que acabava de soltar, vermelha de pejo como uma roza, cobriu o rosto, e
o pranto, rebentando, principiou a deslisar-se-lhe por entre os dedos. O
mancebo, exaltado, lanou-se outra vez a seus ps, e em vozes suffocadas
e incoherentes repetiu-lhe mil protestos. A final, Leonor levantou a
face orvalhada d'aquellas lagrimas to suaves para ambos, e os bellos
olhos sorriram humidos, como o sol de abril por entre chuveiros finos.
Uma vista longa e apaixonada beijou com ineffavel delirio a vista do
amante, que se sentia desfallecer de jubilo, e que sem foras para
exprimir com palavras o alvoro, amiudava os osculos frementes nas mos,
que tremiam, entregando-se a seus carinhos.

--Leonor! disse depois de alguns momentos. Agora pde vir a morte, pde
redobrar o infortunio, achar-me-ho forte! Sei que sou amado! Levo
commigo a confisso da sua ternura!...

--Ingrato! accudiu ella com meigo requebro. Era preciso que um instante
de dor, mais poderoso que o pejo, lhe dissesse o que devia ter
adivinhado!?... No sabia que a ninguem, a mais ninguem... depois de meu
pae, tenho a affeio...

--Porque no diz o amor!... Teme ver-me feliz?!...

--Pois sim! O amor! redarguiu, alando a fronte com nobre altivez, e
fitando no mancebo um olhar de indizivel e terno orgulho. Porque hei de
encobrir o que sinto; porque hei de negar o que no posso esconder?
Amo!... Desde a nossa infancia jurei que no teria outro esposo. No 
crime escutar o corao! Amo-o, Manuel Coutinho!...

--Leonor!...

--Agora oua! Antes de partir, volte aqui. Deante de Deus estamos
unidos. Quero dar-lhe uma prenda, que nos recorde a alegria triste
d'este dia!... A guerra vae a principiar. A sua ausencia pde ser
larga... Hei de supportal-a com toda a constancia, hei de ser digna
mulher de um soldado!... Volte! Lembre-se de que deixa n'esta solido
metade da sua alma em troca da minha que leva toda... Quero vl-o
victorioso, coberto de gloria, mas!... Que eu no fique viuva sem ser
esposa! Tem outra amante que vae servir, a patria! Sacrifique por
ella... tudo... tudo! menos a vida que me pertence! Adeus agora! Preciso
de socegar o animo para uma visita, que espero, e da qual depende talvez
a sorte de meu pae...

--Lagarde!?... atalhou Manuel Coutinho irado e sombrio de repente.
Porque se sujeita a ouvir esse monstro, auctor de nossas desgraas?

--Porque o meu dever o manda. Cuida que ha sacrificio, que me custe,
para salvar meu pae? Oxal que viesse pedir-me todo o meu sangue em
preo do sangue d'elle!

--Sabe o que Lagarde quer exigir-lhe pela soltura do sr. Paulo de
Azevedo? perguntou o mancebo tremulo e pallido.

--Sei! contestou ella serenamente.

--E conta responder-lhe?!... interrompeu o amante ancioso.

--No lhe disse que o amava? Duvida do meu corao, ou da minha f!?
Pela vida de meu pae estou prompta a immolar tudo, menos... a honra do
seu nome, que  sagrada, e a minha alma, que  livre... O esposo, que
posso ter, j o escolhi.

--Obrigado, Leonor, pela doce promessa! Partirei tranquillo... Mas,
ento porque escuta Lagarde? Com que espera movel-o?...

-- o meu segredo. Todos os sacrificios, menos um! Tudo menos vender-me,
ou aviltar-me!... No ouviu rodar uma carruagem?  a d'elle! Sia por
aquella porta... No! No! ajuntou, notando a agitao do amante. No
lhe devo occultar nada! Entre para aquelle gabinete!... Mas jure-me, que
oua o que ouvir, veja o que vir, mesmo que eu fosse ameaada... o seu
brao, a sua voz, a sua presena,  como se estivessem ausentes...

--Juro! Mas se elle ousar!...

--No ousa! De mais, sei, e posso defender-me! Creia em mim. Agora v!
Um momento! Deixe-me colher foras para o combate!... E pousando-lhe na
fronte os labios de rosa afagou-lh'a com um beijo.

--Leonor!... exclamou elle ebrio de jubilo.

--Recompense-me! Seja homem! Hoje a nossa arma  a paciencia. No o
sente? Sobe a escada... V! Nem um gesto, nem uma palavra! Responde pela
vida de meu pae!

E impellindo-o com maviosa brandura obrigou-o a entrar para o gabinete,
cuja porta de vidraas recatavam duas cortinas de seda despregadas quasi
at ao cho.

Depois, levando a mo ao peito, como se quizesse contel-o, alou a vista
com expresso sublime e magoada, e aguardou que a porta se abrisse.

No tardou. Lagarde d'ahi a um instante appareceu entre os umbraes.




XV

Cubia e Nobreza


O intendente geral da policia era homem de sala. No tracto usual ninguem
o excedia em delicadeza.

Apenas apontou ao limiar, inclinando-se profundamente, adeantou-se com o
chapu na mo. Com o sorriso estereotypado nos labios beijou a mo, que
Leonor de p, sria, e grave, nem lhe estendeu, nem lhe recusou.

Seguiu-se uma pausa curta durante a qual a vista do ministro se cruzou
com a da donzella, frias e penetrantes ambas como duas espadas.

A um aceno cortez da filha de Paulo de Azevedo, offerecendo-lhe cadeira,
Lagarde escusou-se com o gesto, ajuntando logo risonho:

--Minha senhora... Venho como supplicante mover a piedade da belleza
deshumana, e os supplicantes no se assentam em presena dos juizes.

--Vem mover a minha piedade, ou offerecer-me a sua?! accudiu a donzella
em tom ironico. No mudemos os papeis! A supplicante devo ser eu. O
vencedor no veiu aqui dictar-me as condies na ida de me achar
resignada a escutal-as e a submetter-me?!... No o incommoda ficar de
p?...

--No, minha senhora. Tenho de pedir licena para lhe apresentar outra
visita...

--Outra visita?!

--Meu sobrinho...

--Seu sobrinho?!...

--Era tempo, no lhe parece?...

--Eu!...

--Percebo! -lhe indifferente? Consinta que junte duas palavras. Quer
que lhe fale como amigo?...

--Se pde!... Receio tanto o intendente geral da policia!...

--No receie. Seja menos injusta. Desejo-lhe bem. Respeito a sua
firmeza, prso os seus sentimentos de filha extremosa, e sei que se
quizer ha de fazer a felicidade do marido que preferir.

--Tantos louvores, sr. Lagarde!... Ha quantos mezes me avalia assim?
accudiu Leonor sorrindo, mas tornando-se logo sria. Confesse que tenho
motivos fortes para suppor o contrario. Costuma tractar, como nos
tractou a ns, as pessoas que lhe merecem bom conceito?!...

--Ah, cruel!... volveu o ministro, crando um pouco, porm disfarando a
torvao momentanea com o riso. As setas so agudas, e essa mo mimosa
aponta-as com uma certeza! Pois bem! Se fiz o mal, posso ao menos
dar-lhe remedio... O conselho de guerra manh, ou depois, reune-se para
julgar seu pae... A sentena depende das provas, e as provas principaes
esto nas minhas mos. De mais, Lunyt, o secretario de estado dos
negocios da guerra,  meu amigo intimo... J v! Se eu interceder e
ajudar... o sr. Paulo de Azevedo sae absolvido e solto...

--Bem o sei, redarguiu a donzella. Querer o sr. Lagarde?...

--Duvda?! Porque tem to pouca f?...

--Porque no acredito facilmente em converses repentinas. Perseguiu-nos
sem tregua, no socegou em quanto no teve meu pae em ferros, e hoje...
offerece-me ser o seu protector!?... Ha grande mysterio n'isto, no o
negue!... Temo que exija tanto da minha gratido em premio, que eu no
deva acceitar!

--Nada escapa  sua agudeza! Quer saber tudo? Tem razo. Joguemos liso.
Posso interessar-me, e ser ouvido, falando a favor do pae da noiva de
Armand, de meu sobrinho; mas percebe muito bem, por maiores que fossem
os meus desejos de servir, que o empenho no teria a mesma fora, se o
mettesse em beneficio de estranhos... de pessoas desaffectas ao governo
de sua magestade o imperador e rei. Agora permitte que meu sobrinho
entre? Espera as suas ordens n'aquella saleta...

--Pois sim. Uma palavra antes, sr. Lagarde.  a noiva, ou  o dote, o
que mais o tenta n'este negocio?!...

--Oh, minha senhora, que pergunta! Que offensa!... O dote?!... No faz
mal, de certo o dote, a riqueza nunca se despreza; porm o thesouro
d'essa linda mo!...

--Supponha que... em troca da sua... como hei de dizer?

--Diga amisade, minha senhora, amisade sincera. Fale affoutamente!...

--Talvez seja muito. Benevolencia parece mais natural... Supponha, pois,
que em troca da sua benevolencia eu cedia o dote, e guardava a _linda_
mo... que  j de outro, e que em nenhum caso, acontea o que
acontecer... darei a seu sobrinho?...

Leonor falava serena, e sorrindo-se, porm a voz e o tom affirmavam
asss, que a proposta era positiva, e que a resoluo tomada seria
inabalavel. Lagarde franziu o sobrolho, raspou com o dedo a ponta do
nariz, cortejou-a em silencio, e reconcentrou-se por instantes como quem
reflectia.

--O dote sem a mo?! disse por fim lentamente, e esbrugando as palavras
como se as pezasse. Julga, minha senhora, que seria possivel?...

--Depende da minha vontade, e estou prompta.

--No me entendeu!  uma esmola, que nos quer fazer a meu sobrinho e a
mim, ou uma peita, com que espera subornar o ministro?...

A interrogao parecia aspera; porm o olhar e a voz no podiam ser mais
amaveis. Leonor concebeu esperanas.

--Nem uma, nem outra cousa!  um testemunho de reconhecimento.
Protesto-lhe que dos tres a mais agradecida serei eu.

--Esquece-lhe, que o mundo dir, que me vendi!... No pode ser! Uma
esposa no se nota que seja generosa, porm uma estranha!... Minha
senhora, no decida nada sem o conhecer. Armand est aqui.  moo, 
gentil,  brioso. Merece-a. Sei que o accusam de ser um pouco estouvado
e perdulario. No o defendo. So defeitos que o matrimonio corrigir.
Veja-o!... Tome tempo!... No me julgue to mau como dizem os meus
inimigos. Tudo ha de compor-se.

--Deus permitta! replicou a filha de Paulo de Azevedo.

Mas a sua phisionomia espirituosa traduzia perfeitamente, sem os
disfarar, a malicia e o despreso, com que assistia ao combate da avidez
e da cubia na alma de Lagarde, impaciente de receber o que lhe
promettiam, mas preso ainda, apezar do cynismo, pelos escrupulos de um
resto de decoro e de respeito da sociedade. Talvez, que no o
embaraasse pouco n'este conflicto a ida, que formava do caracter do
sobrinho, e a apprehenso de que elle recusasse favores, cuja origem o
cobriria de opprobrio.

--Deus quer o nosso bem, e ha de permittir!... atalhou o magistrado,
todo brandura e delicadeza. Sobre tudo se fizermos da nossa parte...

--Da minha tudo, menos!...

--No diga isso!... Esse _menos_  que precisamos que desapparea. Meu
sobrinho  um cavalheiro...

--Affiana-m'o?... N'esse caso estou socegada. O _menos_ vir d'elle!...

Uma sombra escureceu o rosto do intendente. Ainda no lhe occorrra esta
hypothese, e um estremecimento nervoso avisou-o, de que ella podia
converter-se em obstaculo insuperavel. Que certeza tinha de que Aubry
annuisse ao pacto infame, que procurava extorquir, fazendo da cabea de
Paulo de Azevedo o penhor da docilidade de sua filha?

--No imaginemos coisas tristes! redarguiu contrafeito. Seu pae,
lembre-se, est preso, e em vesperas de ser sentenciado...

--Meu pae, tornou a donzella altiva, saber morrer, que lh'o ensinaram
os seus antepassados; o que nunca soube, nem ha de aprender na velhice,
 a vender o sangue da sua alma, a ventura e a dignidade de sua filha
para salvar a vida.

--N'esse caso!... Mas o pobre Armand!... Falmos tanto d'elle que por
fim esqueceu-nos! Como ha de estar impaciente. Tinha um desejo to
ardente de vir aqui!... Ah, ri-se? No acredita?!... Pois  verdade. D
licena?!...

E sem aguardar mesmo o aceno secco de cabea, com que Leonor respondeu,
Lagarde, precipitando-se direito  porta, cortou com esta sada theatral
a conversao no ponto, em que ameaava tornar-se tempestuosa. Em quanto
elle saia, a donzella enxugou  pressa duas lagrimas, reprimidas at
ento pelo orgulho, e inclinou a fronte como se lhe faltasse o vigor
para supportar mais. Durou s um momento esta fraqueza. Um minuto depois
erguia a face, e tornava a obrigal-a a exprimir a frieza glacial do
papel forado, que se via constrangida a representar. Um rapido volver
de olhos  porta de vidraas, detraz da qual Manuel Coutinho escutava, e
um suspiro ancioso foram os ultimos signaes do seu desalento.

O intendente entrava com o sobrinho.

Vendo-o, Leonor crou, e fez-se logo, pallida.

O mancebo, contemplando-a, sentiu-se vencido de repente, e conheceu que
aquella bella e doce imagem se lhe gravra profundamente no corao. A
tristeza resignada, que respiravam as feies da donzella, a sua vista
magoada, mas serena e quasi severa, e a casta e graciosa elegancia do
porte, acabaram de o render. O semblante, em que um momento antes sorria
zombeteira a mofa do conquistador, seguro do triumpho, desarmou-se
instantaneamente da expresso quasi insolente, e inclinando-se,
perturbado, e reverente, Armand saudou a filha de Paulo de Azevedo como
poderia saudar uma rainha no seu throno.

--Aqui vem a seus ps mais este captivo, minha senhora! exclamou o
intendente no estylo refinado e galanteador da crte franceza.
Compadea-se d'elle. No consinta que suspire em vo!

Armand empallideceu. No era com gracejos vulgares e pueris, que elle
agora desejava expressar  donzella a admirao. O official, de
ordinario to solto e audacioso, j no achava phrases que pintassem o
estado da sua alma. Mas se os labios eram mudos, falavam os olhos, e o
proprio enleio significou uma homenagem  amante de Manuel Coutinho.

--Veja como a adora! proseguiu Lagarde, que, sem o querer, representava
o papel comico de um tutor de entremez. Que victoria, minha senhora! Fez
como Cesar, viu, e venceu!...

--Ah! interrompeu Leonor, deixando cair de alto sobre o tio e o sobrinho
uma vista ironica e aguda, que os gelou a ambos, porque o despreso e o
escarneo, que exprimia, traspassava.

--Meu tio!... murmurou Armand confuso, e recuando como ferido de uma
bala.

Houve uma breve pausa. O ministro estudava um exordio, que o salvasse
dos apuros do lance, em que se mettra, amaldioando interiormente
Aubry, cuja falsa delicadeza comeava a assustal-o. A filha de Paulo de
Azevedo, em p, branca como uma estatua de alabastro, mas imperiosa,
amparava o corpo gentil com a mo no espaldar da cadeira e n'esta
posio, cheia de dignidade, aguardava silenciosamente, que um dos dois
ousasse dizer-lhe tudo.

O mancebo, que a interjeio de Leonor fizera crar at  raiz dos
cabellos, e que a vista de tantas graas e enlevos cada vez seduzia
mais, esperava ancioso, que o intendente, auctor do enredo, lhe rompesse
o caminho, temendo adivinhar na mudez e no ar soberano e offendido da
bella portugueza um trama, que a honra o obrigasse a desmentir.

--Armand, minha senhora, disse por fim Lagarde, que o amor proprio e a
cubia foravam a insistir, encarrega-me de lhe pedir, que se digne
receber os testemunhos de seu respeito e adorao.

--Sempre como procurador?!... atalhou ella com um sorriso ironico.

--Em pessoa, minha senhora, em pessoa!... Se no veiu mais cedo  que...

--Meu pae no estava ainda quasi no oratorio, e o sr. Lagarde temia que
a filha fosse menos docil?

--Oh!... bradou Armand, encarando o ministro severamente, e
adeantando-se impetuoso. Minha senhora, balbuciou depois, se aqui vim
foi attrahido por uma doce esperana, que vejo ter sido chimerica...
Posso saber o que meu tio quiz fazer, valendo-se do meu nome? Presinto
um segredo de violencia, talvez de iniquidade, mas, juro-lhe pela minha
honra, que estou innocente... que sou incapaz de acceitar a sua mo, que
me faria bem ditoso, agora o sinto, se livremente m'a no dsse.
Peo-lhe a verdade! Ao menos no me condemne sem me ouvir!...

Lagarde no soube conter-se. Um raio, que lhe estalasse de repente sobre
a cabea, no o teria desfigurado tanto. Empregado o ardil classico do
famoso quadro do sacrificio de Ephigenia, escondeu metade da cara no
leno de assoar, pedindo a Deus que um alapo propicio se lhe abrisse
debaixo dos ps para o sumir da vista irritada dos personagens, cujas
explicaes previu, que iam desmascaral-o inteiramente.

Leonor, escutando as nobres palavras de Aubry, recompensou-as com um
olhar sympathico. O semblante perdeu a expresso severa, e a voz, meiga
e commovida, vibrou harmoniosa, como um canto suave, no peito agitado do
official francez.

--Agradecida! redarguiu offerecendo-lhe pela primeira vez a mo, que
elle beijou estremecendo. No tenho que lhe perdoar... Agora vejo! O sr.
Lagarde... como hei de dizer toda a verdade!? O sr. Lagarde prendeu meu
pae, accusou-o, e tem suspensa sobre a sua vida a espada de um conselho
de guerra... Tinha-me falado ha mezes n'este casamento... A minha recusa
aggravou-o... e hoje, aqui mesmo, veiu propor-me salvar meu pae se eu
consentisse...

--Oh, meu tio! interrompeu o mancebo fulminando o intendente com os
olhos, e vermelho de colera e pejo. No diga mais, minha senhora.
Adivinho a resposta. Regeitou!...

--Regeitei! continuou a donzella. A minha mo pertence a outro; o meu
amor no se vende.

--Nem o meu nome se infama! rugiu Aubry tremulo de raiva. Sr. Lagarde
agradea ao sangue, que nos corre nas veias, a minha paciencia! Se no
fosse! E suffocado em ira apertou os punhos, e levou-os  fronte.
Lagrimas de indignao rebentaram de seus olhos seccos. O intendente
parecia petrificado.

--Offereci o dote sem a noiva; proseguiu Leonor. Era o meu resgate. Oh,
perdoe sr. Aubry, no o conhecia ainda. Depois que o ouo... no lhe
faria a affronta de suppor...

--V! accudiu o official, colhendo o ministro do brao, e saccudindo-o
com furia. V a que me expoz?!... Meu tio, tenho vergonha, queima-me os
labios dar-lhe este nome! Quem lhe deu o direito e a ousadia de arrastar
o meu, o nobre appellido de meus virtuosos paes pelo lodo de suas
torpezas?! Sou pobre, accrescentou voltando-se convulso para a filha de
Paulo de Azevedo, mas a pobreza supportada com valor, com alegria, como
eu a supportei sempre, no desdoura, engrandece. Hoje no possuo outras
riquezas, seno o orgulho da propria indigencia, que nunca ajoelhou, o
respeito do nome sem macula que herdei, e esta espada... que pde
abrir-me o caminho da gloria, ou o da sepultura!... Nunca me passou pela
ida, que houvesse no mundo um corao to vil e corroido, que se
atrevesse a cuspir no meu rosto e sobre as cinzas dos que mais amei a
injuria de me aviltar ausente a especulaes infames!... Socegue, minha
senhora! Todos os thesouros da terra, depois d'isto, no me obrigavam a
acceitar a sua mo, ainda que m'a offerecesse.

--Louco! D. Quixote! Nescio!... rosnou Lagarde, ao qual a generosa
declarao do mancebo restituiu a voz, e redobrou a ira de se ver
descoberto e punido.

--Senhor Lagarde! disse Armand, cravando n'elle um olhar sombrio. Sei
que devo parecer-lhe nescio e estouvado. Glorio-me da censura. O que me
faria crar eternamente seria um elogio... depois do que acabo de ouvir.

--Senhor Aubry, observou Leonor, creia que nunca hei de esquecer a
nobreza do seu caracter. Aonde quer que a fortuna o leve... conte com a
minha amisade. No sou ingrata. Se meu pae escapar...

--Ah! exclamou o mancebo. Esquecia-me! Senhor Lagarde! ajuntou, travando
rijo do brao ao ministro, que se ia desviando para se evadir
desapercebido. Uma palavra antes de sair! Os vinculos do nosso
parentesco esto rotos de hoje em deante. Quer que o mundo ignore os
motivos? Ponho uma condio a esse sacrificio da minha parte!...

--Condies?!... interrompeu o intendente, ameaando o sobrinho e Leonor
com os olhos e com o gesto.

--Condies, sim! atalhou o mancebo friamente. Offereo-lhe o seu
perdo, e a minha indifferena...

--Offereces-me o teu perdo?  admiravel! Que me importa o teu
perdo?...

--Em troca de um acto de generosidade... forada. Bem v que lhe fao
justia, e que digo _forada_, proseguiu Aubry, contendo-o, e
dominando-o com a vista.

--Oh! exclamou Lagarde, rindo convulso e constrangido. A scena era para
se ver no theatro francez! Enlouqueceste Armand?!...

--No! redarguiu Aubry, cerrando os dentes e crescendo para elle
indignado. No enlouqueci! Mas ninguem at hoje me affrontou
impunemente. Em tres dias o pae d'esta senhora ha de estar absolvido e
solto...

--Ah!  de mais! accudiu o ministro affectando intrepidez, porm
assustado. E se no estiver? pde acontecer que as tuas ordens no sejam
cumpridas  risca. Se no estiver pdes dizer-me o que fars?
Accommettes a policia, fuzilas o conselho de guerra, ou assaltas os
moinhos de vento de Monsanto?!...

--Por Deus, senhor Lagarde, no tente a minha paciencia! bradou o
official empallidecendo de colera, em quanto as pupillas scintillantes
faiscavam mil ameaas. Se no estiver livre e absolvido... como lhe
mando!... ouve? juro-lhe pela santa memoria de minha me,  qual deve s
n'este momento a vida! que manh o nome mais infame do imperio ser o
seu!...

O intendente fez-se branco e recuou, lendo na vista inflammada do
sobrinho o odio e o despreso.

--Armand! exclamou balbuciando, renegas o teu sangue por estranhos?!
Unes-te aos inimigos da tua patria contra mim!?...

--Os inimigos combatem-se com as armas na mo, no se salteam nos
corredores da policia, pedindo-lhes a bolsa, ou a vida!... Fez-me crar
de vergonha! A maior injuria, que podia irrogar-me, era suppor alguem
que eu fosse cumplice de mercados to viles...

--s uma criana! Julgas o mundo pelos romances!...

--Basta! clamou o mancebo. Quer acaso convencer-me?! Se no obedecer ao
que lhe disse, que  o desaggravo da minha honra ultrajada, no se
admire do que eu fizer!...

--Do que fizeres! Ameaas?! Crs que te receio?... Em eu te desamparando
cuidas que vales alguma cousa?! rugiu o intendente exasperado.

--Hei de valer sempre o que vale um nome honrado! No preciso de mais.
Repito. Tome bem sentido! Se o pae de D. Leonor no for solto em tres
dias...

--No . Que mais?! atalhou o ministro, cruzando os braos.

--O general Junot e o conselho do governo sabero como se enriquece o
intendente geral da policia! Vou revelar-lhes tudo. Ento veremos.

--Tu! Meu sobrinho! exclamou Lagarde retrocedendo fulminado.

--Eu! Seu sobrinho por minha desgraa. Escolha agora.

Voltou-se depois para Leonor, que o dialogo tornra immovel, e
acrescentou:

--Minha senhora, adeus. Levo d'aqui a admirao da sua formosura, e a
magoa de ter sido causa innocente de suas lagrimas. Sei que me perdoa, e
que me fica estimando. No peo mais. Socegue. Mesmo sem o dote, o
senhor Lagarde ha de servir seu pae... Elle sabe que eu costumo cumprir
a minha palavra. Vamos, ajuntou apontando a sada ao ministro com um
gesto imperioso. O luto entrou comnosco n'esta casa...  tempo de
deixarmos que a alegria e a tranquillidade voltem.

E quasi obrigando Lagarde a retirar-se, lanou sobre Leonor um olhar de
apaixonado enlevo, inclinou-se com um suspiro, e desappareceu.

--Manuel Coutinho, disse a donzella, erguendo a fronte de repente,
depois de alguns momentos de silencio, ouviu tudo?...

--Tudo, redarguiu elle, que no se demorou em vir lanar-se de novo a
seus ps.

--Ento sabe a divida que hoje contrahi... que ambos contrahimos com
Armand de Aubry. Espero que a vida d'elle lhe seja to sagrada...

--Como a de um irmo, respondeu Manuel.  uma grande alma.

--Alviaras! Alviaras! Senhora D. Leonor! Gritou a voz do bispo do lado
do jardim. Os inglezes esto a desembarcar. O nosso captiveiro pouco
durar se Deus quizer.

E o prelado entrou afadigado e tremulo de jubilo no aposento, aonde os
dois lhe abriam os braos no menos alvoroados.


FIM DO PRIMEIRO VOLUME




NOTAS AO PRIMEIRO VOLUME


I

     O poder do ministro eclipsou-se com o ultimo suspiro do principe e,
     com elle expiraram as tradies viris e os commettimentos
     reformadores... pag. 24.

O governo do marquez de Pombal abrangeu todo o reinado de el rei D. Jos
I. Varios, e mais ou menos parciaes, foram os juizos dos contemporaneos
cerca da administrao severa, intolerante, e absoluta, mas a muitos
respeitos fecunda e reorganizadora de Sebastio Jos de Carvalho e
Mello. A obra, que emprehendeu, o rejuvenescimento da unidade monarchica
sustentado pelo apoio das classes medias devia encontrar, e de feito
encontrou, a opposio dos privilegios, dos abusos, das hypocrisias, e
do fanatismo. No pao a familia real, nos gremios puritanos da nobreza
os fidalgos mais poderosos, nas corporaes religiosas a companhia de
Jesus, declararam guerra mortal e incessante ao ministro, aos seus
actos, e s suas tendencias. Para a familia real Sebastio Jos de
Carvalho era quasi um inimigo da fora e da consciencia do rei. Para a
nobreza arrogante e affeita a dominar o poder despotico de um ministro,
que no acurvava as vontades, ou as leis ao aceno imperioso dos eleitos
de sangue azul era um peo fidalgo, insolente e soberbo, que importava
derrubar e punir o mais depressa possivel. Finalmente, para os jesuitas,
cuja influencia dilatada nos ultimos annos de valimento durante o
reinado de D. Joo V, no consentia emulos, e muito menos peias, os
planos atrevidos do secretario d'Estado, representando ameaas e perigos
perennes para a prosperidade da sociedade, equivaliam a um cartel, que a
todo o transe convinha acceitar e concluir pela derrota do orgulhoso sob
pena de aplanar aos adversarios os caminhos do triumpho.

A firmeza do rei, o prestigio que a auctoridade monarchica possuia
ainda, e a intrepidez do ministro venceram estas resistencias
colligadas. Por que preo, porm? Que o digam os carceres e prises
povoadas de suspeitos, ros apenas muitos d'elles de alguma opinio mais
livre. Que respondam os processos, as aladas, os degredos, e os
supplicios, paginas luctuosas de um governo inexoravel e vingativo.
Copiando do cardeal de Richelieu at as perfidias cruentas, Pombal
assignalou com um rasto patibular as principaes estaes da sua
administrao. Por fim escorregou e caiu no sangue vertido muitas vezes
sem necessidade. Os horrores, que afogaram nos tratos e crueldades da
praa de Belem a famosa conspirao de 1758, a expulso dos jesuitas; os
castigos atrozes contra os tumultuarios do Porto; a execuo de Joo
Baptista-Pelle; o encarceramento prompto e perpetuo de quantos podia
receiar como rivaes, ou como censores pelo nome, pela integridade, pela
jerarchia, ou pela sciencia so nodoas indeleveis e accusadoras, que no
apagam o merecido elogio de outros actos, nem a recta e desassombrada
apreciao de suas reformas uteis e opportunas.

O marquez de Pombal tentava em parte o impossivel. No admira, por isso,
que na queda arrastasse comsigo quasi tudo o que nos monumentos do seu
governo era fragil, instavel, e transitorio. A monarchia pura tinha
envelhecido muito e depressa para ser exequivel salval-a por meio da
transfuso de idas e principios repugnantes  sua ndole, contrarios
aos preconceitos e crenas do povo e das classes elevadas, e sem base
firme em que assentasse uma construco duravel. Os tres reinados de D.
Affonso VI, D. Pedro II e D. Joo V adeantaram a tal ponto a caducidade,
que os milagres do genio, e os prodigios da vontade o mais que poderam
conseguir foi suspender a dissoluo espaando at ao fim do reinado
seguinte a revoluo eminente. O ministro absoluto serviu-se em muitas
occasies do poder como de uma arma cega e demolidora, e a ferro e fogo
imaginou transformar a sociedade decrepita e moribunda em uma sociedade
nova, e vigorosa e viril, filha legitima das grandes idas philosophicas
fadadas  conquista do futuro. Suas leis e seus esforos provam a
elevao do pensamento e a intensidade dos bons desejos; mas do que elle
decretou ficou de p smente o corpo logo tornado cadaver. O espirito...
no eram aquelles ainda os dias da sua victoria nem os seus meios de
persuaso. Por isso com o ultimo suspiro de D. Jos I baqueou no s o
poder, mas subverteram-se em grande parte at as idas representadas
pelo marquez de Pombal.


II

     Um gabinete quasi todo composto de aulicos, sujeito ao voto do
     confessor valido substituiu o mando odiado do marquez... pag. 24.

A rainha D. Maria I contava, quando subiu ao throno, quarenta e tres
annos de edade. Nascida e educada para reinar houve um momento, em que
seu pae, segundo se affirma, concebeu a ida de proclamar a lei salica,
cingindo a cora na fronte juvenil do principe D. Jos. Acclamada em 13
de maio de 1777 com D. Pedro III, esposo e tio, o primeiro acto do seu
governo foi um acto de clemencia. Mandou abrir as prises e soltar os
presos d'Estado. Chamou dos longos desterros, em que jaziam, a muitos
vares respeitaveis pelos annos, pelo caracter, e pela jerarchia. Menos
feliz do que Richelieu e Colbert o marquez de Pombal assistiu vivo s
exequias do seu poder e  demolio da sua obra.

Demittido dos principaes empregos exercidos por largo tempo, teve o
marquez por successores na presidencia do real erario o marquez de
Angeja, cuja lealdade D. Jos I attestra espontaneamente recolhendo-se
a sua casa na fatal noite de 3 de setembro de 1778; na secretaria
d'Estado dos negocios do reino, o visconde de Villa Nova da Cerveira; na
dos negocios estrangeiros e da guerra Ayres de S; e na repartio da
marinha e ultramar Martinho de Mello e Castro.

Estes cavalheiros no eram homens obscuros, ou ineptos, mas qualquer
d'elles estava longe da vigorosa iniciativa de Sebastio Jos de
Carvalho, e todos juntos confundiam e atavam, mais do que desenredavam e
esclareciam, as resolues.

A consciencia timida da rainha, o genio apoucado de seu marido, as
insinuaes hypocritas dos beatos, que se apoderaram logo de todas as
avenidas do pao e comearam a influir na direco dos negocios, no
concorreram pouco para tornar o novo reinado uma quasi restaurao de
tudo quanto o marquez de Pombal intentra destruir, ou modificar.

Combatida de escrupulos suggeridos por falsos devotos a raso da rainha
principiou logo a vacillar, e  prudencia e caracter limpo de alluses
do seu confessor o arcebispo de Thessalonica, D. Fr. Ignacio de S.
Caetano,  que ella deveu no se afogar mais cedo nas trevas da
demencia.

O governo de D. Maria I no foi, comtudo, um governo absolutamente
estacionario e inimigo de reformas. Se o risco das grandes cousas
traadas pelo marquez de Pombal assustava a capacidade menos elevada dos
ministros, que lhe succederam, todos elles ao menos manifestaram bons
desejos e rectas intenes, seguindo, ainda que muito de longe, o
espirito moderno, que alvorecia em Frana, e cujos clares ainda se no
haviam convertido nos relampagos deslumbrantes, que precederam a
revoluo de 1789; ou nas tempestades medonhas, que revelaram as
subverses de 1792 e 1793.

Modesto nas idas e nos commettimentos, o gabinete da rainha creou a
junta do codigo civil, cujos trabalhos nunca viram a luz da estampa;
fundou a Academia Real das sciencias; estabeleceu os estudos de
primeiras lettras e humanidades nos claustros das corporaes regulares;
instituiu a casa Pia para asylo das creanas orphs; dotou as aulas de
Fortificao e a Academia de Marinha; e decretou novas estradas e meios
de as executar sob a direco de Jos Diogo de Mascarenhas Netto.

A entrada de D. Rodrigo de Sousa Coutinho no ministerio em principios de
1797, por morte de Martinho de Mello, introduziu na administrao um
elemento activo, emprehendedor, e dedicado por indole e tendencias a
arriscar planos mais vastos e mais altos muitas vezes, do que o
consentiam as circumstancias e as foras debilitadas da monarchia.


III

     Os tres sujeitos eram nada menos, do que tres delegados do
     _conselho conservador de Lisboa_, associao composta de patriotas
     dedicados  restaurao da independencia, etc., pag. 88.

A existencia d'esta sociedade secreta politica no  uma inveno. Saiu
 luz dos prelos da imprensa regia um opusculo de 24 paginas de 8^o, com
a seguinte denominao _Catalogo por copia extrahido do original das
sesses e actas feitas pela sociedade de portuguezes, dirigida por um
conselho intitulado CONSELHO CONSERVADOR DE LISBOA, e installada n'esta
mesma cidade em 5 de fevereiro de 1808; tendo se unido os installadores
em 21 de janeiro do mesmo anno para tractar da restaurao da patria_.

O conselho fundou-se em 5 de fevereiro de 1808 com seis socios que eram:
G... Matheus Augusto, Jos Maximo Pinto da Fonseca Rangel, Jos Carlos
de Figueiredo, Antonio Gonalves Pereira, Andr da Ponte do Quental da
Camara; Jos Maximo da Fonseca foi nomeado secretario. O local das
reunies decidiu-se que fosse alternadamente a casa de cada um dos
adeptos. A hora das conferencias s 8 da noite.

A formula do juramento adoptada era esta: Na nossa presena, oh
immenso, Sempiterno, Omnipotente Deus, creador do Universo, estando em
nosso accordo, sem constrangimento, ou duvida, livres e deliberados
jurmos tractar de hoje em deante com todo o possivel disvelo, fervor,
prudencia, e firmeza a causa nobilissima da religio da patria e do
throno applicando para isso nossas foras, talentos, bens e vida at
conseguirmos entregar este a seu dono o PRINCIPE REGENTE e quelles o
esplendor, a liberdade, a gloria. Este juramento seja para sempre o
fundamento da nossa honra e da nossa felicidade, que chame sobre ns a
beno divina e os applausos da nossa posteridade: a violao d'elle,
pelo contrario, attrair sobre ns as maldies do cu e da terra; a
vileza para ns e para os nossos descendentes.

Na setima sesso prestaram este juramento um pouco theatral o coronel de
cavallaria Alvaro Xavier de Povoas e Fernando Romo da Costa Athaide
Teive. D'ahi em deante cresceu todos os dias o numero dos socios e
associados. Na sesso de 25.^o constituiu-se o _conselho conservador_ 
pluralidade de votos e ficou composto dos seguintes deputados e
adjuntos: o bispo de Malaca D. Francisco, o D. abbade de Belem fr.
Manuel de Mesquita, o arcediago do Funchal Manuel Joaquim de Sousa, o
beneficiado Joaquim Jos da Costa, o marquez de Angeja D. Joo, o conde
de Rio Maior, o visconde da Bahia, o desembargador Sebastio Jos de
Sampaio, o brigadeiro Antonio Marcelino da Victoria, os coroneis Lemos,
Lacerda, e Raposo, o tenente coronel Costa Athaide, o major Antonio
Marcelino Soares, e todos os mais socios approvados e admittidos. Joo
Carlos de Saldanha Oliveira e Daun, hoje duque de Saldanha, entrou
tambem no conselho inscripto sob numero 27. Consta da relao publicada
a pag. 87 do opusculo.

O conselho desde 5 de fevereiro at ao 1.^o de outubro de 1808, em que
se dissolveu, celebrou quarenta e duas sesses. O numero dos socios
ajuramentados subia a 183. O dos auxiliares abonados por varios d'elles
elevava-se a 959, alm do concurso de tropa e povo, com que contava para
o caso de um rompimento.

Os planos de sublevao, as proclamaes, os avisos ao almirante inglez
sir Charles Cotton, e os projectos da sociedade no corriam to secretos
como elle imaginava.

A policia franceza suspeitava, pelo menos, se no conhecia plenamente a
organizao d'este nucleo; porm no julgou prudente proceder contra
elle, temendo-se talvez mais de um processo ruidoso em circumstancias
criticas, do que dos tramas pouco bellicosos e activos dos
conspiradores.  o que se deprehende de um trecho da _Historia da Guerra
da Peninsula_ do general Foy.


IV

     Muitos homens illustrados, que o grandioso espectaculo dos
     acontecimentos advertia, suspiravam por uma renovao, que nunca
     podia ser inspirada, bem o sabiam por experiencia, nem pelas idas,
     nem pela iniciativa de um governo caduco pag. 101.

Allude-se no texto ao plano de uma constituio similhante  que
Napoleo I concedra ao gro-ducado de Varsovia, plano concebido,
segundo affirma o general Foy, no liv. II da sua _Histoire de la Guerre
de la Peninsule_, por alguns patriotas portuguezes, desejosos de
colherem ao menos da intruso estrangeira os beneficios da liberdade.

O general Foy cita como auctores principaes do plano o desembargador
Francisco Duarte Coelho, o doutor Ricardo Raymundo Nogueira, reitor do
Collegio dos Nobres, e o conego Simo de Cordes Brando, lente de
direito natural e das gentes na Universidade de Coimbra, e insere nas
provas sob a lettra _J_ o projecto de codigo politico, que ento se
queria pedir a Bonaparte. (Tomo II, edio de Paris pag. 38 e seguintes
e pag. 469 e seguintes).

Jos Acurcio das Neves (_Historia da Invaso dos Francezes em Portugal_
tomo II) transcreve egualmente o documento, porm no diz claramente a
quem elle deve ser attribuido; mas o auctor da _Historia de El-Rei D.
Joo VI_, vertida em portuguez (Lisboa typographia Patriotica 1838 a
pag. 189-191), depois de nos dar tambem o projecto, accrescenta, que
esta mensagem fra dirigida pelo doutor Gregorio Jos de Seixas de
accordo com muitas pessoas distinctas por engenho e representao.
Entretanto o padre Jos Agostinho de Macedo, como nota o sr. Innocencio
Francisco da Silva no tomo VII do seu _Diccionario Biliographico_ pag.
276, accusou em mais de um logar de suas obras a Simo de Cordes,
lanando-lhe em rosto o haver sido um dos que no fim do seculo passado
maior impulso tentram dar  maonaria em Portugal, e principalmente em
Coimbra, aonde chegra a organizar algumas lojas.

O bispo de Vizeu no _Elogio Historico_ frma juizo absolutamente opposto
do procedimento e doutrinas de Simo de Cordes.

Sejam, porm, as que aponta o general Foy, ou outros auctores, o
projecto de constituio redigiu-se e corre hoje impresso. Restava o
mais difficil. Era necessario achar pessoa auctorizada, que se decidisse
a apresental-o. Acceitou a misso arriscada o juiz do povo, que era
ento um tanoeiro chamado Jos de Abreu Campos, notavel pela firmeza e
integridade. Mais de um lance de nobre ousadia confirma esta opinio
formada com justia cerca do seu caracter.

Quando o conde da Ega foi incumbido por Junot de aggregar aos membros da
_Junta dos Tres Estados_ os representantes denominados dos braos da
nao para lhes extorquir em simulacro de crtes um voto de adheso, o
juiz do povo protestou contra os actos da assembla, como illegaes e
emanados de corpo incompetente. Quando as quinas foram picadas e
substituidas pela aguia corsa, Abreu Campos negou-se a apagal-as da
cabea da sua vara.

O juiz do povo correspondeu s esperanas depositadas n'elle. Intimado
para assignar com o clero e a nobreza, em nome do povo, a mensagem de 24
de maio de 1808 (provas de _l'Histoire de la guerre de la Peninsule_,
par le general Foy. Paris 1827, tom. II, pags. 467-469) o honrado
tanoeiro, protestando contra o acto por nullo e abjecto, e contra os que
o practicavam por incompetentes, apresentou o projecto de constituio
composto em frma de petio dirigida ao imperador, e appellou para o
voto do paiz representado em crtes.

Esta voz isenta proclamando a emancipao politica offendeu os ouvidos
do duque de Abrantes. O juiz do povo, chamado ao quartel general, foi
asperamente reprehendido, e varias pessoas, suspeitas de liberaes,
mandadas sair de Lisboa.

Prevaleceu assim a mensagem servil dictada  simulada junta da nao.
Jos Sebastio de Saldanha partiu encarregado de a apresentar a Napoleo
I. Achando, porm, j interceptadas as communicaes da Hespanha com a
Frana, recolheu a Lisboa sem ter podido passar adeante da cidade
Rodrigo.


V

     Deixemos passar esses vultos, que pisam os sobrados nas pontas dos
     ps, escorregando quasi como sombras. So rodas secundarias da
     machina, pag. 111 e 112.

O general Junot, intitulando-se nos seus actos governador de Paris,
primeiro ajudante de campo de S. M. o imperador e rei, e general em
chefe do exercito invasor, compz desde principio e da maneira seguinte
o pessoal do governo em Lisboa:

Por decreto datado de Lisboa no 1.^o de dezembro de 1807, nomeou
Francisco Antonio Herman commissario do governo francez junto do
conselho do reino de Portugal, o qual lhe daria conta de todas as suas
deliberaes, podendo assistir a ellas, querendo, e assignar as actas.
Por decreto de 3 de dezembro, do mesmo anno foi Herman incumbido tambem
da administrao geral da fazenda. Em 8 de dezembro foi encarregado o
general Laborde do commando superior de Lisboa e o conde de Novion do
commando das armas da cidade. O marquez de Alorna recebeu a nomeao de
inspector geral e commandante das tropas nas provincias de Traz
os-Montes, Beira e Extremadura (22 de dezembro de 1807).

J. J. Magendie j exercia as funces de commandante em chefe da marinha
em 1 de maro de 1808, como consta de um aviso seu aos officiaes da
arma, e aos empregados do porto de Lisboa, expedido n'essa data. P.
Lagarde foi nomeado intendente geral da policia do reino em 25 de maro
de 1808, por decreto de Junot, referendado pelo secretario de Estado dos
negocios do interior e da fazenda, Francisco Antonio Herman. Por
decretos da mesma data nomeou Junot corregedor-mr da Extremadura a mr.
Pepin Bellisle, auditor do conselho de Estado, da provincia do Alemtejo
a mr. Lafond, e da provincia de entre Douro e Minho a Taboureau, ambos
tambem auditores do conselho de Estado. Quintella foi feito
corregedor-mr da Beira.

O decreto, que approvou as instruces dictadas a estes novos
magistrados, sahiu com a data de 2 de abril de 1808. Por decreto de 16
de abril do mesmo anno foi Lagarde nomeado conselheiro do governo para
assistir s sesses do conselho. A 16 de abril j o general Junot havia
recebido de Napoleo o titulo de duque de Abrantes.




INDICE


A Camillo Castello Branco      5
I--Uma noite desabrida      7
II--O moinho da Raposa      15
III--Duas paginas da historia d'este seculo      21
IV--O bem soa, o mal voa      32
V--No ha atalho sem trabalho      43
VI--Ressurreio de Lazaro      55
VII--Segredos em toda a parte      67
VIII--Entre os bastidores      83
IX--Que talvez podesse servir de prologo      100
X--Tolda-se o tempo      111
XI--Achilles e Nestor      127
XII--Arcades ambo!      138
XIII--Dois parentes      147
XIV--Amor      156
XV--Cubia e Nobreza      166




UM REINADO TRAGICO

(Complemento da HISTORIA DE PORTUGAL)

Por * * *

Edio Popular e Illustrada

Com grande numero de retratos dos homens contemporaneos, e de gravuras
representativas dos acontecimentos mais notaveis do reinado de D. Carlos

Attendendo a instantes pedidos de muitos dos assignantes da nossa
*Historia de Portugal*, resolveu esta Empreza publicar um novo livro
que, embora seja como que o complemento d'aquella--e por isso
absolutamente egual em formato, papel, etc.--ser no emtanto
completamente independente dos anteriores volumes, e no qual, sob o
titulo de *Um Reinado Tragico*, se far a descripo de todos os
successos politicos que vo desde o _ultimatum_ de 11 de janeiro de 1890
at aos tragicos acontecimentos de 1 de fevereiro de 1908, que
determinaram a subida ao throno portuguez do rei D. Manuel II.

Publicao em fasciculos semanaes de 16 paginas, in-4.^o grande, ao
preo de

60 RIS

ou a tomos mensaes de 5 fasciculos, ao preo de

300 RIS




FLOS SANCTORUM

Vida de todos, os santos e martyres do Christianismo

SEGUINDO, DIA A DIA, A ORDEM DA SUA COMMEMORAO PELA EGREJA

Trabalho de compilao e de synthese, feito sobre os mais modernos e
conscienciosos estudos

PELO

Rev. Dr. SANTOS FARINHA

Bacharel formado em theologia pela Universidade de Coimbra e parocho
collado da freguezia de Santa Izabel, de Lisboa

Illustrado com centenares de gravuras

Cada fasciculo semanal de 2 folhas de 8 paginas cada, in-4.^o grande,
contendo pelo menos 2 gravuras,

60--REIS--60

Cada tomo mensal de 5 fasciculos, ou 80 pag., grande formato, contendo
numerosas gravuras,

300--REIS--300

DIRIGIR OS PEDIDOS 

EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL

SOCIEDADE EDITORA

Livraria Moderna--Rua Augusta, 95, Lisboa

TYPOGRAPHIA--45, RUA IVENS, 47


Notas:

[1] Eram pannos lavrados, ou lisos, que vestiam as paredes. Tambem se
usavam de couro.

Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:



  +----------+------------------+-------------------+
  |          |     Original     |    Correco      |
  +----------+------------------+-------------------+
  |#pg.  15 | hombos           | hombros           |
  |#pg.  17 |                 |                  |
  |#pg.  26 | nosas            | nossas            |
  |#pg.  27 | Bonapart         | Bonaparte         |
  |#pg.  29 | anino            | animo             |
  |#pg.  31 | presa            | pressa            |
  |#pg.  33 | ruidasa          | ruidosa           |
  |#pg.  33 | costumudo        | costumado         |
  |#pg.  44 | cava             | cave              |
  |#pg.  53 | do               | de                |
  |#pg.  57 | Pedr             | Pedro             |
  |#pg.  64 | inop nada        | inopinada         |
  |#pg.  68 | quatros          | quatro            |
  |#pg.  68 | e                | o                 |
  |#pg.  78 | acabavaento     | acabava ento     |
  |#pg.  79 | da mesmo         | do mesmo          |
  |#pg.  84 | naural           | natural           |
  |#pg. 108 | noneada          | nomeada           |
  |#pg. 110 | setes            | sete              |
  |#pg. 122 | os que os        | que os            |
  |#pg. 127 | Azevdo           | Azevedo           |
  |#pg. 156 | attribindo-a     | attribuindo-a     |
  |#pg. 180 | do               | dos               |
  |#pg. 185 | segunda          | segundo           |
  +----------+------------------+-------------------+
