VERDADES AMARGAS

ESTUDO POLITICO

DEDICADO S CLASSES QUE PENSAM, QUE POSSUEM E QUE TRABALHAM

POR

CLAUDIO JOS NUNES


LISBOA

TYPOGRAPHIA DE FRANCISCO XAVIER DE SOUSA & FILHO 26, Rua do Ferregial de
Baixo, 26

*1870*




AO LEITOR


O auctor d'estas linhas no pretende endireitar com ellas o mundo, nem
dar conselhos a quem lh'os no pede.

Como pertence, porm, a essa tribu de sonhadores que tem a simplicidade
de gastar alguns minutos no estudo das cousas da patria, e tantas vezes
te ouve ponderar--a ti mesmo, que tens agora este folheto nas mos--o
que adiante achars, julgou dever condensar em letra redonda a expresso
de teus patrioticos reparos.

Ignora elle, comtudo, se o pudor convencional te far agora tapar os
olhos em publico na presena da verdade nua, que to frequentemente
despes nas crtes e na imprensa, na sala e na rua.

 natural que no.

Mas se esse facto se der; se a tua hypocrisia tomar geitos de castidade,
repara que, ferindo o auctor, cravars o ferro em tua propria lingua.

Ha s uma differena. Tens dito mil vezes que o paiz est podre. Aqui
diz-se unicamente que o paiz apodrece.

Pdes, pois,  vontade hervar a setta da critica.


Outubro de 1870.




VERDADES AMARGAS


Ha na vida dos povos alguns momentos em que  honra e proveito o
trabalharem todos os cidados na redempo da patria commum.

O nosso paiz atravessa uma hora difficil.

De norte a sul, em todos os recantos d'este velho torro portuguez, o
edificio social escalia e range, como se houvesse cado sobre elle uma
d'essas biblicas maldies que imprimiam o cunho de uma irremissivel
fatalidade.

As foras vivas do paiz vo esmorecendo n'um deploravel abatimento.
Definha o commercio; retrae-se a industria; a agricultura v seccar os
peitos uberrimos.

Sobre os factores da riqueza nacional anda uma athmosphera suffocadora.
A intelligencia annuvia-se; o capital adormece; o trabalho
espreguia-se.

O melhor e maior de todos elles, a confiana publica, declina
rapidamente para um funestissimo occaso.

Porque?

Porque um povo no vive s do que palpa e do que v. Transpe-se o rio;
corta-se o monte; povoa-se o estalleiro; fertilisa-se o solo; mas se
todo o progresso material fr automaticamente produzido, sem que o
illumine uma faisca d'esse espirito publico, que constitue a alma das
grandes naes, tarde ou cedo a ephemera florescencia murchar de
encontro ao mais ligeiro attricto.

E assim .

Quiz Portugal acompanhar a Europa no caminho da civilisao. Poz a
estrada aonde era o barranco e o caminho de ferro aonde era a estrada.
Estimulou a produco pelo consummo e o consummo pela produco. Fez do
credito a alavanca de multiplicadas emprezas. Viveu em vinte annos o que
no vivra n'um seculo. Mas como, no meio d'esse tumultuar de
interesses, no quiz ter olhos e corao para o culto das cousas do
espirito, v-se hoje a braos com uma crise angustiosa, nascida em
grande parte da relaxao moral em que labora o paiz, debaixo do ponto
de vista politico e social.

       *       *       *       *       *

Diga-se a verdade, custe o que custar. No  com o silencio que se d
rebate a um povo em perigo. Ponha-se o cauterio na ferida, embora as
carnes estremeam com a dor.

O verdadeiro patriotismo no cala nem dissimula; descobre e repara.

E o remedio urge. Um veneno subtil, mescla atroz de apathia, de
relaxao e de egoismo, vai-se lentamente infiltrando por quasi todas as
camadas da sociedade portugueza e acabar por matal-a, se contra elle
no reagir a poderosa triaga de moralisadora e energica aco.

Sem criterio moral no ter o paiz o sentimento de seus direitos e de
sua responsabilidade.

Se lhe faltar esse duplo sentimento, faltar-lhe-ha a vontade propria.

Sem vontade propria no ha elementos de boa politica.

Sem boa politica no ha governos estaveis.

Sem estabilidade nos governos no ha confiana publica.

Sem confiana publica no ha grangeio de riquezas.

Sem augmento de riquezas no se avoluma facilmente a receita do estado.

Sem equilibrio no oramento vai-se direito  ruina.

Ruina que no provm, pois, unicamente de razes physicas occasionaes,
mas que tem raiz e tronco na condio moral em que vivemos.

Ruina que pde levar-nos ao suicidio na bancarota ou na Iberia.

Incuta-se, pois, no paiz um novo alento e o que hoje  beira de abysmo,
na phrase tradicional da imprensa, talvez no passe amanh de ponto
confuso na topographa politica de um povo regenerado.


I


Haver criterio moral no paiz, em to larga escala e com tal cunho, que
d physionomia  vida publica portugueza?

Infelizmente, no.

 certo que no escaceia nas transaces da vida particular essa
honestidade, que  fora de ser obrigao, no passa de banal virtude.
Toda a terra em que ella chegasse a constituir excepo cedo se
converteria n'uma charneca de salteadores, aonde o mais robusto e o mais
audaz tomaria a realeza do roubo e do assassinato.

No falta igualmente quem modele o seu procedimento, no tracto commum,
pelas normas de escrupulosa delicadeza, no consentindo que a sombra
sequer de uma duvida lhe embacie a transparencia do nome.

Mas no se trata aqui de individuos; aprecia-se a collectividade.

No se allude a homens; falla-se do paiz.

Do paiz que elege.

Do paiz que legisla.

Do paiz que governa.

Do paiz politico, n'uma palavra.

N'este, fora  confessal-o, as excepes invadem a regra geral.

As convices andam alli geralmente  merc dos ventos do ceu.

Um enxame de incredulos, que borboleteiam de despeito em despeito ou de
interesse em interesse, pousando hoje aqui e alm manh, suga o mel do
partido em que eventualmente pousou, flor tanto mais procurada quanto
mais se espaneja ao sol do poder.

Os proprios programmas partidarios batem repetidas ters. Ardem na
febre ou gelam no frio, segundo so difficuldades de governo ou
facilidades de opposio.

No meio d'esta balburdia quasi toda a gente  correligionaria de quasi
toda a gente.

Parece que o pobre do oramento  floresta aonde se caa a furo e a
rede, a tiro e a pau.

No ha mezes defezos, nem habilitao policial.

Entra quem pde. Fere, mata e apanha quem teve melhor olho ou mais
vigoroso lebreu.

Gasta-se metade do anno a demolir os adversarios e a outra metade a
forjar com elles alguma salvadora fuso.

E como n'esta abenoada terra no se discutem principios mas homens, o
imbecil, o devasso, o infame da vespera ser no dia seguinte honrado
collega.

A abnegao democratica  apregoada de boca em boca mas, para honra e
gloria d'ella, um chuveiro de titulos e condecoraes alaga por vezes em
ridiculo a prosapia do agraciado e a referenda do bemfeitor.

Mais ainda. Tropea um conde na plebe, levanta-se logo marquez.

Se vem a republica,  certo o ducado.

A lei anda em interinidade. Reformas de reformas reformam o que foi
reformado. Quem se descuidar um mez de estar em dia com a legislao
arrisca-se a dar comsigo n'algum labyrintho de referencias ou n'algum
fojo de multas.

Leis no faltam. Verdade  que, em compensao, ficam muitas em letra
morta.

O respeito ao principio de auctoridade, sem o qual nem a propria
liberdade florece e fructifica, vai-se pouco a pouco obliterando no
espirito das massas.

S em tempo de eleies e a tres metros da urna  que, por uma fatal
inverso, a indisciplinada turbulencia do campanario se dobra aos
conselhos de quem alli representa aquelle desprezado principio.

Fra d'essa quadra excepcional, queimam-se cartorios publicos;
espancam-se empregados; negam-se esclarecimentos e toca-se a rebate
contra os agentes da lei.

A intriga e a calumnia so moeda corrente. Emquanto a mentiras j no
incommodam quem as ouve e as diz. O caso  que se minta a proposito e
bem.

Questo de habilidade.

As varias frmas da utilidade invadem todos os corpos e todas as almas.
Subir e medrar, gozar e vencer so os pontos cardeaes do mappa das
crenas.

Quem negar que o escandalo seja uma excellente recommendao?

Exemplifique-se:

Anda por ventura a atteno popular em curioso convivio com os mestres
da escripta; com a musa da forte e s litteratura; com Garrett,
Herculano, Castilho, Rebello e Mendes Leal?

Passa a vista pelos trabalhos serios da imprensa?

Occupa-se, porventura, em ler as discusses parlamentares?

No, no. No seu paladar pervertido smente causa o estimulo da
curiosidade algum pamphleto immundo, em que se insulte a decencia; se
morda na lingua; se cuspa nas instituies e se esbofeteie a verdade.

E quanto mais  cobarde a insinuao; quanto  mais vil a denuncia;
quanto mais salgada  a infamia da phrase, tanto mais as saboreia a
avidez popular e se deleita com ellas o commum dos leitores.

       *       *       *       *       *

Mas basta de generalidades e venha um facto concreto.

Triumpha uma sedio militar. Nos sales, outr'ora desertos, do
conspirador, acotovella-se, horas depois, a turba cerrada dos cortezos
da victoria. No admira. Ha musica no cro e bodo no pateo. Rebenta um
partido do cofre das graas. Formigam as adheses. Enxameam os
enthusiastas. No chegam os clarins para os arautos da gloria.

 excepo da parcialidade vencida, todas as outras se derretem em
negaas ao heroe do momento. De todos os cantos estalla um catharro
provocador.

E um sargento de caadores fechra as portas do parlamento!

Vem uma e diz:

Sou a Regenerao. J no me conhece, marechal? As amizades antigas
nunca se perdem. Se no tenho o fogo da mocidade, tenho a madureza de
espirito, qualidade digna de ser apreciada por quem j no tem pulmes
para folegos profundos. Em vez de cirios e cavalgatas, passaremos os
seres a grudar as folhas da Carta, violentamente rasgada n'um minuto de
pressa, e, grudar por grudar, grudemol-as ns. Esqueam-se quinze annos
de amuo nas aras de um prudente consorcio.

Mas uma voz grita do lado:

Arreda-te, bruxa maldita. Aqui estou eu, que sou a Reforma. Sou joven e
bella, airosa e poupada. Uma choa e teu corao, meu guapo marechal!
Ahi fiaremos uma existencia de rolas e pediremos  egreja que abene
este feliz matrimonio.

Clamam de baixo:

E eu sou a Revolta! Nos meus braos robustos tens um throno de
affectos. S eu sou a forte; s eu sou a bella. Despreza a velhice
prudente e a infancia dengosa. Rodopiarei comtigo n'uma orgia perpetua.
Ora soltarei os cabellos aos ventos da demagogia, ora polvilharei de
ouro as tranas luzentes Desde a lama at s estrellas ser estreito o
espao para as nossas folias.

E assim foi.

E haver criterio moral n'um paiz aonde se corteja o poder com to
notavel impudor?

E depois?

Depois veio a queda. Um golpe de estado desfez o que fizera o motim.

Cura perigosa de uma perigosa doena.

O paiz no achra em si fora sufficiente para debellal-a e entregou 
cora a manipulao do remedio.

Triste confisso de impotencia! Triste symptoma constitucional!

Caiu o marechal. Era execrada a dictadura. Moveu-se-lhe guerra em nome
da nossa autonomia. Contra os actos d'ella subiram as queixas dos
partidos at aos degros do throno, que as ouviu e attendeu.

Pois bem. Despediu-se o artista mas guardou-se a obra. As leis da
dictadura so leis do paiz. Os auctores e collaboradores d'essa gloriosa
empreza, acabam em santa paz a digesto do festim, e um _muito a meu
contento_ que seria a condemnao do proprio decreto em que foi lavrado,
se no fra uma fico constitucional, passa um golpe de esponja sobre a
logica de uma situao!

Assim era necessario para que quem morrera ministro resuscitasse
embaixador; isto , n'um cargo de absoluta confiana politica ao servio
de uma das parcialidades que maior guerra lhe movra!

Um recebe e parte.

Outro no parte e recebe.

O paiz olha e paga.

 vista de um episodio d'estes haver criterio moral no paiz?


II


Se  verdade, o que fica exposto, no deve causar estranheza que o paiz
no tenha claras noes de seus direitos e de sua responsabilidade;
direitos pelos quaes deve responder no perante a maioria mas perante a
universalidade dos cidados portuguezes; responsabilidade que lhe
compete diante da prosperidade publica, da lei e da historia.

O codigo de nossos direitos  a Carta constitucional da monarchia.

Em quanto existir ser o vehiculo legal de toda a actividade politica.

Mas quaes so, de entre alguns milhes de portuguezes, os que tem
conhecimento directo d'esse pequeno volume, que nos custou rios de
sangue e montanhas de ouro?

O povo, opprimido ainda pela tradio secular da ignorancia que lhe era
imposta pelo interesse de uma politica de confessionario e de crte, nos
tempos do direito divino, sae ainda hoje, lentamente e como que a custo,
de uma existencia passiva e expressamente concentrada nas cousas do
mundo physico, para as regies moraes aonde brilha a ida democratica da
sociedade moderna.

Conhece, portanto, a constituio s pela pratica, e como a pratica no
tem geralmente sido a fiel interpretao da theoria original, no admira
que o grosso do paiz ao cabo de trinta e tres annos de exercicio
constitucional, ainda no comprehenda bem at onde chega o alcance das
armas que lhe poz nas mos o systema representativo.

As fontes do exemplo, seu guia, espelho e mestre, no lhe tem, de certo,
vertido os mais puros licores.

       *       *       *       *       *

Na cupula do edificio est o poder moderador na pessoa do chefe do
estado.

 certo que s espheras serenas, aonde paira, no devem chegar as
lufadas das paixes partidarias nem os pratos da balana em que se peza
a sorte arbitraria dos ministerios.

 certo que o rei  irresponsavel.

Mas tambem no  menos exacto que essa irresponsabilidade no 
congenita ao exercicio da cora, porm nasce unicamente de um artigo da
Carta.

Suspensa, pois, de facto a constituio pela dictadura, a
irresponsabilidade real caduca desde logo.

Morta a causa, desapparece o effeito.

Pde-se, pois, alludir, sem quebra de lei, a um acto importante de
responsabilidade pessoal, que teve logar no mez de maio do corrente
anno.

Quatrocentos soldados invadem o pao da Ajuda. Falla a polvora e caem as
victimas. O duque de Saldanha intima a demisso do ministerio, ao qual
dera a sua palavra de honra de que nunca se revoltaria.

Cede o rei e concede a dictadura. A bondade natural de seu corao recua
diante da possibilidade de um conflicto que levasse os salpicos do
sangue at s ruas da capital. Em seu animo, inclinado  paz, bate de
chofre, paralysando-o, a responsabilidade eventual de uma guerra civil.

No se discuta o acto; pergunte-se unicamente:

Em que ficou o direito que assiste  cora de escolher livremente seus
conselheiros responsaveis?

Em que lhe ficou o direito de addiar ou dissolver a camara dos
deputados, quando um piquete de tropa de linha dissolveu de facto os
eleitos do povo?

Em que lhe ficou o direito de perdoar, quando, seguramente contra a
vontade do soberano, o general vencedor castigou o crime de obediencia
ao juramento prestado?

Tres direitos offendidos. Tres perniciosos exemplos.

       *       *       *       *       *

O principal direito do poder legislativo  o de fazer leis que subam
depois  sanco real.

Direito que se exercita tanto sobre propostas do governo como sobre as
que dimanam da iniciativa individual dos membros do parlamento.

Mas quem ignora que esta ultima hypothese se evapora, quasi sempre,
n'uma illusoria garantia e que falta habitualmente s camaras a energia
para zelarem, como deviam, os direitos de cada um dos que a ellas
pertencem, discutindo e apreciando os trabalhos de iniciativa
particular, mrmente quando recaem sobre assumptos de interesse geral?

Exceptuem-se algumas ninharias locaes e alguns negocios sobre os quaes
no tenha convindo aos governos o comprometterem-se a favor de uma
opinio definida, e contem-se os projectos importantes que, sados da
carteira do deputado ou do par do reino, tenham chegado  meza do
conselho de estado.

O direito de interpellao  uma das mais preciosas faculdades do
parlamento.  a fiscalisao constante, a sentinella permanente do
cumprimento da lei; a recompensa de bons servios e o freio de
iniquidades.

E que acontece frequentemente? Vem um deputado e interpella o ministro.
O caso  difficil. A defeza hade custar, se no fr impossivel. Muito
bem; no se responde. O queixoso renova tres, quatro, cinco vezes a
embaraosa pergunta, e a maioria condescendente renova outras tantas um
adiamento que  sempre a negao de um direito.

       *       *       *       *       *

No lucta o poder executivo com menores contrariedades no exercicio de
suas legitimas funces, nem menos vezes abdica de algumas d'estas com
prejuizo publico.

Transfere ou demitte o governo um funccionario, que est dentro das
attribuies do poder executivo demittir ou mudar. Rompe a celeuma. Era
o acto talvez conveniente e moral. Embora. Redemoinham em torno do
carrasco os parentes da victima, at grau desconhecido no codigo civil,
e o anjo da amnistia apaga com as pontas das azas a assignatura que
legalisara a fatal, mas honesta sentena.

Quer o governo prover um logar, ou resiste ao pedido de qualquer
demisso, sollicitada por terceiro? Sobre o uso de seu direito
accumula-se tal presso, que o ministro dobra-se ou quebra, quebrando
com elle o direito e a moralidade.

Tumultua a ignorancia, explorada pela politica, armando a insurreio
contra o dominio da lei. Responde o governo  fora com a fora, no uso
de incontestavel direito, depois de esgotados os outros recursos? Nem
sempre. Titubeando entre o dever e a responsabilidade; no achando por
ventura na consciencia a base do necessario rigor, vacilla, estremece,
informa-se e contemporisa, sendo talvez necessario ir depois mais longe
do que podera, se um energico e opportuno exercicio de seu direito
constitucional tivesse atacado na origem o transtorno da ordem publica.

D'esta unanime indifferena pelos direitos de governos e camaras nasce
um tristissimo resultado. O governo, olhando s para os outros e no
olhando para si, julga poder assumir diante do parlamento uma quasi
attitude de superioridade; o parlamento, vendo no governo a
maleabilidade de que j por vezes tirou beneficio, acostuma-se a
acreditar que os ministros devem ser chancella de empenhos ou boceta de
recommendaes.

Tem o paiz o direito....

Adiante. Quem falla n'isso?

       *       *       *       *       *

O peor  que, por uma logica inexoravel, aonde falta a noo do direito,
anda igualmente em falta o sentimento da responsabilidade.

Serio e bem serio deve elle ser, quando seriamente comprehendido.

Mas a verdade  que de responsabilidades ninguem cura, porque a ninguem
se tornam effectivas.

Cada um faz, geralmente, o que quer.

O ponto est em que haja audacia para fazel-o e algum vestigio de fora
para o sustentar.

Por exemplo:

Manda um ministro pagar sete annos de ordenados a quem no serviu, por
ter sido desligado da competente repartio. J foi reparada essa
extorso ao thesouro do estado? J se pediu a responsabilidade d'esse
inaudito successo?

A Bruxellas! A Bruxellas! E o passado, passado!

E quando se despreza assim a responsabilidade legal, a que assenta em
cousas tangiveis, o que succeder com essa outra que vive nas regies do
mundo moral? Que no entra nos codigos, porque no sae das consciencias?
Que no sae das consciencias, porque nem tudo arromba o metal e a pedra?

Que sentimento de responsabilidade acompanha o agitador, que a troco de
alguns reaes, submerge na desordem a vida laboriosa de seus concidados?

Que sentimento de responsabilidade influe nas phalanges cerradas de
eleitores, que envernizam com um diploma alguma carunchosa podrido?

Que sentimento de responsabilidade onera os que despedaam os idolos da
vespera, para alimento do fogo em que arde o incenso aos triumphadores
da ultima hora?

Que sentimento de responsabilidade impera no indifferente, que entre
dois bocejos, lana a vista, apathica e distraida, para o veio de agua
que leva  costa o desarvorado baixel da causa publica?

Que sentimento de responsabilidade aconselha o voto do deputado que
limpa com a dignidade os ps dos eleitores, ou que traz no diploma o
vinco das libras?

Que sentimento de responsabilidade opprime o funccionario publico nas
mos de quem os negocios ficam sempre em processos pendentes?

Que sentimento de responsabilidade experimenta o militar que semeia a
indisciplina nas tarimbas dos quarteis?

E que sentimento de responsabilidade tem uma nao que, no seu desapego
profundo ao que de perto lhe deve tocar, se contenta com o sorrir 
carencia de todas estas responsabilidades?

Essa carencia no frma ainda o typo completo da nossa sociedade, mas
alastra-se tanto sobre a politica e sobre a administrao, que a
existencia da nodoa ser problematica smente para quem escuta e no
ouve; para quem olha e no v.


III


Do que dito fica deriva esta natural consequencia:

O paiz no tem vontade propria.

A recordao do que se acaba de passar, no curto espao de sete mezes,
dar inequivoca prova d'esta deploravel proposio.

Corria o mez de maro de 1870. Governava o partido historico. Houve
eleio geral. D'ella saiu to numerosa maioria, que apenas dez ou doze
candidaturas de opposio declarada conseguiram cantar victoria no dia
da lucta.

Caiu o ministerio progressista e veio o senhor duque de Saldanha, que,
mais feliz do que Diogenes, conseguiu ao cabo de alguns dias achar o seu
homem. Foi ministro do reino o sr. Jos Dias Ferreira e dissolvida a
camara dos deputados. No fim de poucas semanas as urnas inchavam com tal
hydropisia ministerial, que a opposio luctava apenas n'um tero dos
circulos.

Passou d'esta para melhor vida a pasta do sr. Jos Dias. Entrou o sr.
bispo de Vizeu. Pois dezoito dias bastaram para que a maioria, que
andava na forja, to luzida e primorosa, se convertesse em refugo diante
do baculo episcopal.

Ter, portanto, vontade propria o paiz?

Responda o que fica narrado.

 fra de duvida que ainda ha muito cidado honesto e intelligente, que
tem a consciencia do acto que pratica, quando lana um voto na urna.
Suppr o contrario seria injusto e pouco verdadeiro. Quem escreve estas
linhas sabe, por experiencia propria, at aonde pde alcanar o
desinteresse e subir a dedicao reflectida de centenares de eleitores.

Desgraadamente a regra  outra. O corpo eleitoral tem por nome Legio,
e ahi, aonde se conta por dezenas de milhares, nem sempre a
espontaneidade e o raciocinio constituem a mais pronunciada feio
d'essa cohorte numerosissima.

O que o paiz quer sabemos ns todos. Quer boa administrao; quer paz;
quer ordem publica; quer finanas prosperas, independencia e moralidade.

O que o paiz no sabe querer  servir-se dos meios legaes para a
obteno do que deseja.

E, comtudo, a formula de eterno conselho:--Ajuda-te que Deos te
ajudar--leva mais de cincoenta seculos de existencia nos ouvidos da
humanidade!

Ora como o paiz no sabe querer, corre tudo geralmente fra de seu
influxo directo.

As eleies, a primeira funco constitucional; a melhor Egeria da
cora; a pedra de toque da popularidade; a expresso da mais augusta
soberania, a soberania popular, no dependem, em sua maioria, do
sentimento politico, na boa e lata accepo da palavra: systema, idas,
principios, mas de uma evoluo artificial dentro de tres detestaveis
corporaes que as falsificam com uma influencia impura ou deleteria:

O grupo dos indifferentes;

O rebanho dos timoratos;

A guerrilha dos corruptos.

Para os da testa do rol todos os candidatos so de igual estatura. Uma
razoira, implacavel por descuidosa, confunde n'uma superficie commum o
talento e a estupidez; o saber e a ignorancia; a aptido e a
inutilidade; a boa f e a especulao; a honradez e a improbidade. Do
ao favor,  cortezia,  amizade e ao empenho, o que deveriam conceder ao
interesse publico e  reflexo. Para elles tanto vale que entre nas
crtes um homem d'estado, como que alli tome assento alguma creatura que
do velhissimo Ado s tenha herdado o barro quebradio, ermo de qualquer
fagulha de espirito.

Quanto mais de ao p da porta os salteia a petio; quanto mais palpam
no candidato alguma costella de parentesco; quanto mais de cima lhes
baixa o memorial, tanto mais batem as redeas ao Pegaso do elogio, que
va de aldeia em aldeia, levando no dorso a musa da recommendao.

Sorrir o leitor das ampoulas da phrase. No tem razo. Chama-se a isto
cr local, ou cousa que a valha.

A lista  para elles uma carta que no necessita de ser aberta. O papel,
a estampilha, a marca e o portador, bastam para satisfazer-lhes a
curiosidade.

Porm se os indifferentes so muitos, os timoratos ainda so mais.

Est n'elles a materia prima das maiorias parlamentares.

So o _paiz_ de varios governos.

So a _opinio publica_ de algumas situaes.

 frente d'elles caminha a auctoridade, que se j respigou na primeira
corporao, ceifa aqui, a fouce plena, por entre braados de votos, mil
affagos do eleito ou de quem o mandou nomear.

Tudo vara. Ha revolues no ceu e revolues na terra. Giram os astros
na immensidade e succedem-se no mundo as estaes. Tudo vara. S o
rebanho dos que votam com quem est de cima estende o lombo  thesoura
eleitoral com imperturbavel constancia, submissamente pastoreado por
esses vigarios do Poder na terra, que se chamam administradores de
concelho, regedores de parochia, escrives, cabos de policia, vereadores
e malsins.

Suspende-se o catalogo para no enfadar quem lr, e l se foram os
ministros d'estado e os governadores civis!

E no se diga que nem todos os ministros; nem todos os governadores
civis; nem todos os administradores de concelho; nem todos os regedores
de parochia; nem todos os escrives; nem todos os cabos de policia; nem
todos os vereadores e nem todos os malsins, trabalham n'essa tosquia.

Tosquia a especie. Dos individuos no se trata aqui e  possivel que at
no sejam raros os que o no fazem, ou que,  menor repugnancia da
ovelha, a deixam sair intacta e livre das mos do tonsurador.

Outros so de peor genio. Travam de ps e mos a paciente; tomam-lhe o
pescoo entre os joelhos e, sem que o velo no caia ao fio do
instrumento, no a deixam saltar do redil para o campo.

E quantas vezes leva na pelle as costuras!

O que mais custa a confessar  que anda to atrazada a educao politica
do paiz, que, se a auctoridade no collabora um pouco na formao das
maiorias, apparecem camaras anarchicas, aonde os chefes so tantos como
os soldados, e os partidos, por um sentimento de pudor constitucional,
se do a si mesmos o nome de _grupos_.

Cumpre que isto no seja assim.

 da maior urgencia que a auctoridade administre e no eleja.

Se,  primeira vista, a interveno d'ella, mais ou menos directa, pode,
em dadas circumstancias, aparentar uma sombra de proveito em favor de
uma necessidade parlamentar e constitucional, qual a da existencia de
uma maioria solidamente organisada, essa apparencia desapparece ao mais
ligeiro exame.

Primeiramente, no ha maioria solida quando, em vez da ligao de
principios, tem s para unil-a a identidade de uma origem viciosa, que
lhe rouba as condies de prestigio, sem que no pode desassombradamente
funccionar.

Em segundo logar, ha menor perigo na eleio de uma camara, que pela sua
turbulencia sirva de escarmento e lio ao povo, do que em habituar este
a uma subserviencia; que apague n'elle o sentimento de seus direitos e
de sua responsabilidade, e, portanto, qualquer impulso de vontade
propria.

       *       *       *       *       *

Se a verdade da representao soffre com a interveno da auctoridade
nas eleies, no padece com ella menos a regularidade da administrao.

Que fora moral pode conservar sobre os seus administrados o
funccionario que, no espao de alguns mezes, de algumas semanas, de
alguns dias at, como succedeu ultimamente, apoia o mesmo nome que pouco
tempo antes guerreara, ou guerreia aquelle que dias antes defendera?
Voltando, s vezes, dias depois a combater o que combatera e a
recommendar o que recommendara?

Que prestigio lhe assiste quando se v forado, por interesses
eleitoraes, a lanar mo da escoria de sua localidade, pelo unico motivo
de que entre ella pode recrutar algumas dezenas de votos?

Que auctoridade lhe d o comprometter em vo a sua palavra com promessas
que no possa cumprir, ou o abater a dignidade de seu cargo tornando-se
o homem ligio de qualquer suzerania de campanario?

Para se salvar das consequencias do primeiro erro ou do primeiro
delicto, ter de requintar cada vez mais a violencia ou a sujeio, e,
ainda mesmo que a consciencia de seu dever ou de sua dignidade lhe no
tenha consentido que se exceda ou se avilte, a mescla de politica e de
administrao redundar sempre em prejuizo do servio e em descredito
das instituies.

       *       *       *       *       *

Mas os corruptos? Aonde ficam os corruptos?

Bom seria no polluir a penna com esta hedionda palavra, mas a cousa
existe e o seu nome  este; e, como se est seguindo um filo de
verdades, fora  que se atravesse esse immundo deposito de abjeces,
pois de tudo ha na mina,--ora tapetada de esplendidos crystaes, ora
vertendo lamas infectas infectas--a que vulgarmente se chama eleio.

E mina , ou parece, para quem faz commercio de votos; commercio que,
devendo ter tido por bero provavelmente um armario sem po, vai hoje
tambem querendo matar a fome de vaidades ou de interesses, nos sales da
abastana.

No  o peor corrupto quem se vende por alguns reaes.

-o muitas vezes quem compra.

Porque, salvas honrosas excepes, a diploma comprado deve corresponder
deputado vendido.

Ora a corrupo eleitoral cresce de anno para anno.

O sublime do genero  comprar a fazenda com a algibeira do vendedor!

O que parecia molestia esporadica vai-se transformando em epidemia.

 corrupto:

Da penuria---o que se vende a dinheiro;

Da estulticia---o que se vende a promessas;

Da vaidade--o que se vende a fitas;

Do odio--o que se vende a vinganas;

Da pieguice--o que se vende a mesuras;

Do interesse baixo e sordido--o que se vende, remediado de bens de
fortuna, a qualquer favor que lhe poupe, ou faa ganhar alguns reaes, ou
o dispense de alguns ligeiros incommodos.

Ainda ha outra especie de corrupo, no to cynica, porm mais
perigosa:

A corrupo collectiva em nome da utilidade publica.

So corruptos, por exemplo:

O districto que se vende a estradas;

O concelho que se vende a arames;

A freguezia que se vende a reparos;

A localidade que se vende a concertos;

Tudo com _et coetera_ na clave.

Todos os votos, emfim, que se hypothecam ao lucro.

Trabalhe o deputado por satisfazer as necessidades do circulo.  dever;
mas no se reduza o beneficio a contracto. Isso rebaixa.

Demais, se o contracto  decente e justo, torne-se extensivo a todas as
povoaes do reino e diga-se depois o que sero os oramentos das
camaras municipaes, dos districtos e do estado, e que imposto chegar
para satisfazel-os.

No se torne extensivo a todas, e pagar a independencia uma parte do
preo da compra, que ter de sair do cofre commum.

Paga a honestidade o que lucra a mercancia.

Indifferena, subserviencia, corrupo!

E por ellas e com ellas se atraioam os amigos; se quebra a f jurada;
se falsificam os escrutinios; se deshonra o mais sagrado de todos os
direitos!

Uma observao:

Quanto ganhou n'este commercio o operario ou o jornaleiro que vendeu o
voto por algumas peas de prata?

Concorreu para a feitura de um mau deputado. Maus deputados do ms
camaras. Ms camaras do maus governos. Maus governos do ms finanas.
Ms finanas assustam os capitaes. O susto dos capitaes faz esmorecer o
trabalho. Sem trabalho no ha po, e o jornaleiro e o operario perdero
mais n'essas _grves_ foradas, de semanas e mezes, do que lucraram
n'esse dia de ignobil veniaga.

Nem ao menos a compensao do proveito!

Estenda-se o argumento a todas as outras frmas de corrupo e
achar-se-ha sempre o mesmo fatal resultado.

       *       *       *       *       *

Vontade propria no paiz!

So dez horas da manh do dia 19 de maio de 1870.

Est Lisboa em socego profundo.

Nem a mais ligeira alterao na apparencia da nobre cidade!

A loja no se abre a meia porta; patenteia-se de par em par ao freguez
que a procura, como a procurara na vespera, pacifico e talvez risonho.

O negociante trabalha no escriptorio.

O operario moureja na officina.

O vendedor ambulante apregoa na rua.

Socego profundo! Uma tal ou qual reaco que houve, smente semanas
depois comeou a traduzir-se em factos.

E, comtudo, o paiz desandara em dez horas o que lhe levara dez annos a
andar!

A ordem e a liberdade, o rei e a lei, estavam  merc da espada!

Francamente; haver no paiz vontade propria?


IV


Sem vontade propria; sem que se pense, se compare e se escolha; sem
iniciativa de dentro e sensibilidade por fra, no pde haver elementos
de boa politica n'uma nao que se rege pelo systema representativo.

Porque no ha boa politica sem bons partidos, e no ha partidos
regulares sem espirito publico no povo.

Quando falta o espirito publico no ha partidos; ha _parcialidades_ e
_grupos_.

A raiz etymologica  a mesma, mas a accepo philosophica cava um abysmo
entre estas palavras.

As ultimas so o troco, em cobre azebrado, de uma pea de ouro formosa e
luzente.

Valor convencional em frente de valor intrinseco.

Partido regular  o que tem logica nas idas; constancia na defenso
d'ellas; unidade e disciplina.

Quantos conta Portugal n'estas circumstancias?

A logica:

Esto seis homens em conversa politica. Andam ha dois ou tres annos
(dois ou tres seculos!) em camaradagem seguida. Frequentam as mesmas
reunies e tem por guia identico chefe. Muito bem. Trata-se de uma
escaramua de bando? Unanimidade completa? Discute-se um interesse de
grupo? Completa unanimidade. Mas apparea uma questo economica ou
social: a liberdade de commercio; a descentralisao administrativa;
qualquer outra que deva ser crena de escola, e a concordia desapparece,
sendo talvez necessario que uma parte dos correligionarios busque
reforo na sala visinha, aonde um conventiculo de adversarios se
dilacera tambem,  mesma hora, cerca do mesmissimo ponto.

Grita-se, discute-se, invectiva-se. O amigo  inimigo. O inimigo,
defensor ardente. Confundem-se os campos e s algum incidente que traga
a terreiro uma questo grave, uma questo pessoal, por exemplo, ter o
condo de restituir cada um aos amigos com quem batalhara.

A constancia:

Combate a opposio em pr de uma doutrina. Nos seus jornaes, nos seus
comicios, na tribuna e no livro bate em brecha com a propaganda escripta
ou fallada os erros de seus contrarios. Um golpe de fortuna; a fraqueza
do ministerio; certa manobra parlamentar, deposita-lhe as pastas nas
mos. Pois desde esse momento caduca o enthusiasmo pela reforma pedida e
os erros tomam taes laivos de inoffensivas bagatellas, que talvez possam
passar, em momentos criticos, por necessidades a que no se pde fugir.

A unidade:

As fuses;

As colligaes;

As conciliaes.

A disciplina:

O despeito;

A inveja;

A sizania.

Um homem que falla e se move faz mais ruido do que cem, mudos e quedos.
As individualidades inquietas e ambiciosas das parcialidades politicas,
do-lhes muitas vezes a feio com que a condescendencia dos
companheiros as deixa mascarar, e que, por ser a mais visivel, se torna
a mais caracterisada.

       *       *       *       *       *

Da falta de partidos logicamente organisados e fortemente constituidos,
no em vista de uma necessidade de momento ou de um ponto especial de
administrao, mas de um systema fixo, tem nascido as approximaes,
esboadas ou realisadas nos ultimos tempos.

A maior ou menor fraqueza dos grupos tem promovido esses actos, que
andam em moda permanente de ha cinco annos para c, mas que deviam ser
anormaes n'um paiz, que soubesse comprehender bem as instituies que
nos regem:

Fuses, em que cada um dos fusionados conta pelos dedos quantos governos
civis ou quantas candidaturas lhe couberam em partilha, e que fundem to
bem, que cada um se separa dos outros no momento opportuno, sem que as
foras da coheso ponham estorvo a esse trabalho;

Conciliaes que nada podem conciliar e que desmoralisam todos e tudo.

Necessita a nao de todos os esforos de seus filhos para arrostar com
immensas difficuldades? Haja patriotismo e saiba-se usar d'elle.
Auxilie-se o poder constituido n'essa immensa tarefa.

Diz-se popular o governo? Carregue com as consequencias d'essa
popularidade. Tome a responsabilidade da iniciativa nas medidas de
salvao publica.

Pedem as circumstancias que as opposies ensarilhem as armas? Faa-se
isso lealmente, mas no se confundam nos bancos ministeriaes,
inutilisando-se mutuamente para os effeitos da rotao no poder, os que
fra d'elles podem dar ao paiz melhor documento de sua iseno
partidaria.

Conciliao sincera e permanente de todos seria a extinco completa dos
partidos, proposio que antes de ser uma quimera seria um absurdo
constitucional.

Conciliao, apenas de alguns e temporaria, no seria conciliao; seria
unicamente um novo elemento de confuso no que anda j to confundido.

Que temos ns visto e com que resultado?

Maiorias de colligao em frente sempre de opposies colligadas.

Colligaes que s tem uma certa desculpa na tenuidade das linhas
divisorias que separam, por emquanto, uns dos outros os partidos de
maior valor no paiz.

Como no ha systemas completos de governo, falla este em ordem publica e
respeito  constituio; aquelle em fomento; esse outro em economias.
Todos, na organisao das finanas. Mas desde quando a ordem publica, o
respeito  constituio, o fomento, a economia e a organisao das
finanas, pontos que devem ser communs a todos os partidos serios, podem
constituir o programma especial de cada um d'elles? No prova que anda
ausente o dogma, ou que  de f para todos, quando se falla s nas
exterioridades do culto? Que ha em alguns d'aquelles rotulos mais
artificio do que verdade? Que so maiores, de grupo para grupo, as
incompatibilidades de pessoas que de cousas?

       *       *       *       *       *

Em Portugal a organisao de um _partido_  a cousa mais facil do mundo.

Ha tres, cinco, dez homens (no urge que sejam mais) que, desejosos de
terem uma influencia que no podem alcanar, por andarem confundidos com
outros que os affogam no numero, buscam o modo de adquirir essa
importancia que lhes anda roubada, quer pela ingratido da patria, quer
pela sombra dos proprios amigos. Problema posto, problema resolvido.
Inspira-se um jornal. Inventa-se um nome. Chrisma-se um chefe. Falla-se
no paiz, e, depois de estar prompto o scenario, pe-se o titulo 
comedia, cujos auctores se esfalfam em dar ao publico, por belleza
excelsa e privativa d'elles, o que nunca devera passar de logar commum
n'este ramo de litteratura dramatica.

Outros nem se cansam com estas poeiras. Mettem no laminador o simples
nome de um homem; estendem-no at que chegue  desinencia adoptada pelo
uso, e est feito o partido!

O partido!

Pobre vocabulo, que j tens sido a estrella polar de intelligencias em
busca da perfeio social, quem te diria que viria tempo em que por ahi
te reduzissem a alampada de viella obscura, ardendo de dia e de noite, e
mais de noite do que de dia, diante de algum santo, advogado contra as
cambras em quem deseja trepar s alturas do poder!

Como se pde chamar partido a qualquer associao de homens, que no
ache at dentro de si quem possa tomar o peso s pastas n'um momento de
crise?

Como se pde dar esse nome a qualquer confraria, que em tempo de
procisso no possa com o andor, ou d com a imagem em terra logo 
beira do altar?

Como merece tal importancia o grupo que no se atreva a galgar sem
dianteiras a mais leve encosta da governao publica?

E em taes casos a fraqueza  m conselheira.

Para que augmente o numero dos adeptos no se olha a condies.

Todas as vadiagens; todas as deseres; todas as insignificancias; todas
as immoralidades; todas as traies; todos os cynismos; todos os
despropositos so bem vindos, quando encarnados em quem d mais um
elogio na imprensa ou mais um voto nas crtes.

Ha eleies. Combate-se com decencia, honra e lealdade, contra alguns
especuladores que farejam donde correm os ventos. Succube-se. No dia
seguinte, com a estatistica na mo, cortejam os socios da vespera a
existencia do facto brutal, e os adversarios, anda que vencessem pelo
suborno e pela infamia, recebem um sorriso amavel, prologo e provocao
de allianas, ao passo que um gesto desdenhoso acolhe os amigos que
perpetraram o crime de no querer triumphar por identicos meios.

 moralidade!

Para obviar  fraqueza, recorre-se ainda  forte alimentao das
secretarias de estado. Atulham-se as pastas de recommendaes. Cada
dignitario da ordem tem mesa posta na cella. O thesouro  copa e
cosinha. O despacho  mesa e talher.

Por fraqueza propria se larga o poder e por fraqueza dos outros se torna
a alcanar, para depois o tornar a perder.

 fraqueza dos partidos;  falta de esclas politicas definidas, logicas
e racionaes;  carencia de esta mla indispensavel ao jogo regular das
instituies representativas, deve esta nao um originalissimo
espectaculo.

O sr. marquez de Avila e de Bolama, que diz que no tem partido, foi
ultimamente ministro em 1865, 1868 e 1870.

Que o fosse por ser, como , zeloso e honrado administrador, no poderia
causar isso estranheza; mas tel-o sido, n'um paiz constitucional, talvez
especialmente pela condio de no ser no governo a representao
ministerial de um partido qualquer,  porventura a maior singularidade
do liberalismo contemporaneo.

Contae isto ao mais obscuro membro do parlamento inglez, e podeis estar
certos de que o vosso interlocutor se encurvar, dos ps at  cabea,
na mais espantada interrogao que jmais tenha desaprumado a proverbial
rigidez britannica.

D'esse paradoxo tem resultado que as camaras eleitas sob a immediata
influencia d'esse distincto homem de estado no lhe tenham produzido
maiorias que o habilitem a governar, ficando depois sujeitas a deseres
vergonhosas ou a uma dissoluo infallivel. No se contrara impunemente
a indole do systema representativo.


V


Haja partidos sinceros e fortes, e haver estabilidade nos governos,
condio em que no vivem as situaes que se vo succedendo com pasmosa
rapidez.

Um ministerio entre ns  geralmente um castello de cartas.

Toma a criana um baralho. Dobra, ampara, ajusta e compe. Comea a
desenvolver-se o vistoso edificio. Crescem os estrados; sobem as
galerias. O que, ha um instante, cabia no bolso, ameaa dar comsigo no
tecto. Mas venha um gro de ara; uma carta mal disposta; um movimento
de impaciencia, ou mesmo um gesto de alegria trema no brao do joven
architecto, e o que era Alhambra rendada se converter logo em naipes
dispersos no cho.

Outro tanto acontece com a politica da nossa terra.

Organisa-se um ministerio com todas as apparencias de fora e de vida.
Parece que o leva ao poder uma onda de popularidade. Em torno ha s
ruinas. Tem maioria nas camaras e goza da confiana da cora. Espera-se
que dure o tempo necessario para, ao menos, transpr o mar de calmarias
que se chama--o estudo--e que  preliminar quasi obrigado n'estas
viagens, ainda mesmo para os pilotos mais experimentados e que uma
pratica de annos e annos devia j ter desviado de similhantes derrotas.

Mas de repente, sem que at muitas vezes se saiba como e porque, desmaia
o commandante, esmorece a tripulao, e pede-se ao cabo do rebocador a
salvao, que no se poude encontrar na paciencia perdida e na energia
esgotada.

Outras vezes, j voga o navio. De repente, tambem, cavam-se as ondas,
sem que um minuto antes sopre a menor brisa, e a marinhagem boqui-aberta
v que o baixel apra ao recife, que, n'um relampago, o descose e
afunda.

E como pde haver manobra a tempo, se uma parte da tripulao descora
diante do perigo; outra, por bisonha, cambaleia de enjoada; esta, no
conhece da faina, e aquella, indifferente ou turbulenta, no quer ou no
sabe submetter-se a trabalho proveitoso, sendo poucos os marinheiros que
restam para que o barco possa resistir  tormenta?

       *       *       *       *       *

As razes determinantes da instabilidade dos ministerios so de natureza
objectiva ou subjectiva, mas subordinadas sempre  falta de partidos e a
todas as consequencias que d'ella derivam.

So de natureza objectiva:

As vacillaes do poder moderador diante de tumultos preparados adrede
na rua, e as quaes, embora nascidas de melindres de obtemperao ao que
se lhe figurou opinio publica, e embora ligadas na origem a um receio
de guerra civil ou de derramamento de sangue, tem comtudo influido
desfavoravelmente desde 1868 na marcha politica do paiz, deixando
quebrar maiorias que iam, ao lado dos governos, gerindo com alguma
regularidade os negcios do estado e occorrendo s mais urgentes
necessidades financeiras, por meio de augmento nas receitas publicas;
vacillaes que deixam pairar sempre uma tal ou qual incerteza sobre o
desenlace de qualquer conflicto que de novo se forje, e cerceiam a fora
moral dos governos;

O estado geral do paiz, profundamente anarchisado pelos conselhos da
especulao, que o tem levado a pedir melhoramentos sobre melhoramentos,
incutindo-lhe ao mesmo tempo a falsa ida de que os no deve pagar,
quando a especulao v que os adversarios sero os que tem de cobrar o
augmento de receita, depois de legalmente votado;

A descrena que lavra com referencia aos homens que se succedem nos
bancos ministeriaes, descrena devida em grande parte ao trabalho
constante da imprensa em demolir reputaes dentro de uma terra to
pequena como a nossa, aonde o pessoal de gente habilitada para voltar,
ou subir, aos conselhos da cora est em harmonia com a exiguidade de
populao e territorio. Ao cabo de tres mezes de ministerio, ou de
simples desejo, s vezes, de ser ministro,  raro o homem que j no
ande escalavrado no conceito popular e apontado como indigno de to
nobres destinos, acabando a nao por acreditar,  fora de lh'o
repetirem uns contra os outros, que Portugal anda entregue a quem o leva
 perdio com perfeito conhecimento de causa e por erro expresso de
vontade;

A vadiagem politica dos que percebendo que o governo estaciona na
carreira ascendente, e que no ha perigo de dissoluo ou de qualquer
outro acto que os contrarie, comeam a virar o thuribulo para os lados
do oriente; ou dos que trazendo j satisfeito qualquer empenho de costa
arriba, ou perdido a esperana de alcanar o que lhes anda pendente do
favor ministerial, se deitam a morder a mo que se abriu antes de tempo,
ou que no quer abrir-se em cornucopia de graas;

A ambio invejosa dos acolitos, que principiam a duvidar de que o
governo seja o melhor dos governos possiveis, desde que alguns d'elles
se acham preteridos para o posto de ministro de estado, quando j contam
dez ou vinte semanas de praa assente nas crtes, e j pensaram n'um
discurso, que ainda no poderam pronunciar, por um conjuncto de
infelicidades inauditas, mas que de certo salvaria a patria se o tivesse
j humedecido o copo de agua da tribuna parlamentar; a ambio invejosa
dos especialistas... de todas as pastas.

So de natureza subjectiva:

A falta de firmeza para se resistir, em todas as estaes do processo
politico,  presso externa que difficulta os movimentos do ministerio,
que, como parte que  de um poder independente, segundo a carta, deve
ter plena liberdade de aco e de conselho dentro da esphera legal de
suas attribuies;

O pequeno valor da media politica ou pessoal dos conselheiros
responsaveis da cora, entre os quaes por vezes uma minoria de
individualidades importantes  absorvida, aos olhos do paiz, na
obscuridade relativa de seus companheiros, que talvez escolhidos por
interesses de _coterie_, prejudicam, no sentir popular, quem tinha
melhores direitos a sentar-se nas cadeiras ministeriaes;

A falta de prestigio que resulta de se reunirem no governo individuos
que dias antes se olhavam de revez, e que (sem que o paiz tivesse
conhecimento da purificao anterior e reciproca dos delictos de que
mutuamente se accusavam, e em que talvez o povo no acreditava, mas em
que deviam acreditar elles, uma vez que os expunham) apparecem de chofre
to intimamente ligados, que se diria que nunca a sombra de uma nuvem
passara entre esses obreiros da ultima hora;

A constituio de ministerios sem que os membros d'elles tenham
formalmente combinado entre si a maneira de resolver os mais urgentes
negocios, deixando para conversas, em conselho de ministros, o que
devera ter sido conversado antes de subirem os decretos de nomeao 
assignatura do chefe do estado--Entremos e depois conversaremos-- a
formula invertida da mais elementar noo de politica constitucional, em
que a responsabilidade solidaria dos governos exige um perfeito accordo
entre os membros do ministerio.  a remora na quilha. O travo na roda.
A impotencia ou a discordia;

A gravitao em torno de cada ministro de um grupo especial de
satellites, que, segundo  mais ou menos numeroso, lhe d voz
preponderante no conselho, ou lhe amesquinha a importancia entre os seus
proprios collegas;

A falta de cumprimento de promessas feitas na opposio, e as opinies
imprudentemente sustentadas n'esse campo para grangeio de popularidade,
mas que se convertem depois em armas de guerra ao servio dos mesmos
contra quem foram dirigidas quando o poder estava longe do brao e o
odio perto do corao;

A versatilidade de temperamentos que ora se desencadeiam em paroxismos
de ardor para sustentar a posio adquirida, ora se espreguiam em
bocejos de tedio, no acertando em achar entre o aborrecimento e a teima
o meio termo de prudencia corajosa e placida.

Accrescente-se a tudo o nosso estado financeiro e facilmente se
comprehender que ande o paiz mal com todos os governos, e que andem
todos os governos mal com o paiz; isto : que a instabilidade seja a
feio mais caracteristica dos gabinetes, por se reflectir n'elles a
perturbao moral que agita a sociedade em que vivem.

       *       *       *       *       *

E no se queixe dos governos o paiz.

Seria o mesmo que o original a queixar-se da photographia, apezar de a
luz lhe ter sido exactissimo pintor.

Quereis que o edificio no grete, quando a base em que assenta no tenha
a firmeza indispensavel?

Quereis que a planta vos d flores e fructos, se as raizes no acharem
alimento no solo?

Quereis effeitos sem causas?

Quereis que as causas no produzam seus necessarios effeitos?

Effeitos em virtude dos quaes  raro que um governo viva entre ns menos
da propria fora do que na debilidade alheia.

Continuae, portanto, a desprezar o desenvolvimento das foras moraes do
paiz e deplorae depois que o governo seja manh uma simples questo de
densidade relativa, em virtude da qual as camadas mais leves do talento
ou da aptido, da honestidade ou do patriotismo, subam  superfcie da
governao do estado, alagando em mil desgraas o paiz, que ter de
soffrer as consequencias do facto, sem se poder at queixar d'ellas com
razo, porque as dever  sua propria imprevidencia, seno  sua propria
cumplicidade!

O que  finalmente impossvel  que o governo em Portugal ande arrendado
a trimestres, e que se resolvam as crises por conferencias que nada
resolvem, e as conferencias por crises que ainda resolvem menos.

Circulo vicioso em que se pode gastar a vida a percorrer centenas de
leguas sem que se pize mais do que um palmo de cho!


VI


 ponto axiomatico que da instabilidade das situaes resulta
naturalmente a falta de confiana publica.

Quando se no sabe qual ser o dia de manh, o sentimento da duvida,
assaltando os espiritos, suspende n'elles esse _quid_ mysterioso, em que
se fundam os actos do raciocinio e da vontade.

O raciocinio obscurece-se  falta de bases solidas; a vontade contrae-se
no receio.

Sem confiana publica no funcciona regularmente, portanto, o systema
representativo, que  o governo do livre arbitrio, aconselhado pela
intelligencia, dentro das orbitas legaes do direito e da aco.

Comprehende-se, pois, que o governo absoluto possa, at certo ponto,
existir sem esse poderoso auxiliar, porque centralisando em si a origem
da lei e sendo o juiz unico da utilidade, em nome do interesse social,
produz pela fora e pelo segredo o que no governo da opinio deve nascer
da liberdade.

Perante as instituies que nos regem o caso  outro. Sem confiana
publica, sada das entranhas do paiz, adoece tudo e morre no seio de uma
geral estagnao.

E a confiana publica no se intima com programmas de ministerios nem
com discursos de parlamentos. Positivista como o apostolo, quer ver para
acreditar. O facto para ella  o melhor argumento. Serve-lhe mais uma
realidade do que mil intenes.

Quer, pois, factos, e factos estaveis. Quer realidades, mas realidades
serias.

Necessita de saber com o que pde contar.

Sendo isto verdade, como , que confiana publica pde haver n'uma nao
aonde as situaes politicas andam como as luas, ora em minguante, ora
em crescente, mas em prazos to curtos e to irregulares, que no ha
sciencia astronomica que se atreva a calcular as intermittencias das
phases?

E que fazem os governos para diminuir as consequencias de essa
instabilidade, que est sendo a vida normal de todos elles?

Ligam n'uma tradio corrente algum systema certo de administrao?

Deixam os negocios mais urgentes sem soluo de continuidade?

Atam logicamente o que  ao que foi, preparando facil soldadura ao que
ha-de ser manh?

Nem sempre.

O mais commum :

Que se anarchise a tradio envolvendo-a em reformas mais de nomes do
que de idas;

Que se abra mo do que  urgente em beneficio do apparatoso;

Que se semeie de difficuldades a resoluo futura do que no se soube
realisar.

       *       *       *       *       *

E que fazem os partidos?

Apertam as filas em presena do ataque?

Obrigam a governar depressa e bem?

Sujeitam-se lealmente s consequncias de uma batalha perdida?

Poucas vezes.

No faltam exemplos de que:

Aos primeiros tiros debandem as tropas;

As maiorias no se considerem responsaveis pela frouxido ou pela
incapacidade dos governos que apoiam;

A embuscada traioeira substitua o combate a peito descoberto.

E os governos a mudar, e a confiana publica a desapparecer!

Circumstancia deploravel que envolve n'um descredito commum o fructo
amargo da sedio, e a flr esperanosa de algum ministerio que por
ventura teria de resolver-se em pomos sazonados, se lhe dessem ar e luz,
espao e tempo, solo e nutrio!

Atmosphera suffocadora em que respira, desde o primeiro momento, tanto o
que nasce da violencia ou da intriga, como o que deve a existencia 
indicao constitucional!

       *       *       *       *       *

Incerto do presente e, ainda mais, do futuro, como quereis que o paiz
progrida desafogado; se uma perpetua interrogao  a formula de nossa
politica, para alm da qual ninguem sabe se ha fojo ou caminho?

A experiencia  a grande mestra da vida, e como o instincto no  talvez
mais do que a experiencia dos individuos, crystalisada nos attributos da
raa, o instincto popular, auxiliando a razo, gera a desconfiana
publica, quando v que de mudanas repetidas no tem saido mais do que
augmento de incompatibilidades, antigas nos homens, e de confuso,
preexistente nas cousas.

       *       *       *       *       *

As dissolues succedem-se em vertiginoso tropel. Andam as urnas em
servio consecutivo, e, quanto mais esfalfadas, menos fora tem para
suster na fuga a confiana publica, que se assusta com estes appellos
repetidos, symptomas de grave molestia nas funces constitucionaes do
paiz e a mais desgraada escola de devassido para a massa dos
eleitores.

Nove dissolues da camara dos deputados em treze annos! E para que?

Para que o fabrico de diplomas tenha entrado na industria politica, como
officio de applicao permanente, e a confiana publica olhe cada vez
mais de soslaio para esse laboratorio de popularidades a tanto por voto.

A confiana vive de paz e de ordem. Ora as dissolues repetidas so a
revoluo dentro das instituies, quando as no aconselha uma
impreterivel necessidade. Compromettem a paz sem salvar o poder.

Condemnar a revoluo, a verdadeira revoluo, a que batalha fra da lei
mas em nome de um grande principio, seria condemnar o advento da
liberdade em todos os paizes aonde ella resplandece. Entre ns, por
exemplo, 1820 e 1833 so datas de gloriosa recordao. Mas os motins de
ambio em torno das pastas; os tumultos de capricho em volta das urnas,
tanto mais perigosos quanto mais engendrados  sombra da lei, s podem
ter comparao em alguma d'essas revolues em que se grita por amor ao
ruido e se destroe por affecto  variedade.

A paz compromette-se. No essa paz material que alguns soldados podem
facilmente fazer respeitar; mas a paz entre os visinhos da aldeia; a que
no pde resistir a estas amiudadas provaes, e que,  falta de tempo
que apague, entre eleio e eleio, a lembrana dos conflictos que
sempre as acompanham, cede o campo  guerra de personalidades hostis
para todas as transaces da vida publica e particular. Os espiritos
incommodados pelos incidentes de tantas brigas, fazem com que o povo
maldiga esse fermento de discordia que por vezes o entalla entre
influencias poderosas, e d'este mal-estar local, multiplicado pela
freguezia, pelo concelho e pelo districto, sae uma das maiores verbas
para a somma geral da desconfiana em que vive a nao.

E no costumam as dissolues salvar o poder. Pelo abuso d'ellas, o brio
partidario anda to esmorecido que  frequente o ver-se que certas
candidaturas, ministeriaes na vespera da eleio, se transformam em
deputados eleitos de opposio, quando no dia seguinte o especulador,
que s adorava no governo o influxo da auctoridade, comea a buscar em
novas regies a continuao do mesmo favor. E o governo recua de
espantado diante d'estas deseres sem se lembrar de que entre o partido
e a turba collecticia; entre a convico e o lucro; entre a coherencia e
a vagabundagem, existe a mesma distancia que entre elle e um verdadeiro
ministerio, segundo o espirito do systema representativo, leal e
puramente executado!

       *       *       *       *       *

Como pde haver confiana publica n'uma terra que v com frequencia os
governos estudarem quasi exclusivamente na legislao dos outros paizes
as reformas a que devem proceder, sem que lhes occupe a menor atteno a
indole e o estudo do povo portuguez, e darem  theoria pura, seno
impura s vezes, o que devia tambem ser dado, em parte pelo menos, 
pratica do solo em que  deitada a semente?

Imprudencia em virtude da qual muitas reformas ficam em meio, por no
haver sequer pessoal idoneo que lhes d conveniente execuo.

Como inspirar confiana a um paiz em que a questo fazendaria anda e
desanda quasi sempre dentro da esphera mesquinha de uma questo de
parcialidades, ora votando-se, ora negando-se o lanamento de impostos,
segundo se priva ou no com a politica ministerial?

Como, se a instabilidade nas pessoas e nas leis, nos factos e nas
opinies, faz com que a duvida coaja pelo susto a liberdade do paiz em
suas expanses de actividade material, matando at n'elle, por constante
e profunda, o sentimento bemfazejo da esperana!


VII


Quando no ha confiana publica, soffre com isso o desenvolvimento da
riqueza nacional.

A falta de confiana fazendo irremissivelmente baixar o preo dos
titulos de divida consolidada, a cargo do thesouro, deprecia, _ipso
facto_, todos os valores do paiz,  excepo da moeda, que ento mais
vale porque mais com ella se compra.

Depreciao que no pde deixar de ter logar n'uma terra como a nossa,
em que o papel do estado  a primeira base das grandes operaes de
credito e em que o estado  o maior concorrente ao emprego dos capitaes
disponiveis.

Do facto economico da depreciao dos valores nacionaes, pela baixa dos
fundos, resulta logicamente uma diminuio na riqueza capitalisada e a
necessidade, portanto, de reconstruir pela accumulao da renda o
capital diminuido pela depreciao dos valores.

A circulao, pois, esmorece, collaborando tambem para este resultado
ora o susto que se apodera dos capitaes em especie, ora a esperana para
elles de mais rendoso emprego quanto mais, na continuao da crise, fr
subindo o valor da moeda metallica.

Dois sentimentos, que partindo de polos oppostos, se encontram todavia
no terreno da retraco, da qual no saem geralmente seno para
augmentarem a verba da divida fluctuante do estado, o qual por meio de
um juro alto, pago  custa da nao, affronta assim com uma concorrencia
desleal o commercio e a industria do paiz.

       *       *       *       *       *

Aceito o facto da retraco dos capitaes e da capitalisao de uma parte
da renda, em vista de uma prudente reserva, a industria comea desde
logo a padecer com a existencia d'elle.

O credito, por uma inevitavel consequencia, restringe o campo de suas
especulaes, operando mais sobre a representao de valores j creados
do que na creao de novos valores, dependentes quasi sempre de maior ou
menor risco, que a desconfiana exagera.

Depois, o consummo do paiz, influenciado pelo estado geral, limita os
seus pedidos, e essa limitao no estimulando a offerta por meio de
aquelle poderoso agente economico, repercute-se logo em abatimento na
produco, principalmente na fabril, que s cria valores em vista da
permutao, e que tem no paiz o seu quasi exclusivo mercado.

A agricultura, a nossa grande industria, estaciona tambem no grangeio de
novas riquezas; no desbrava, arroteia, melhora e compe,  falta de
capitaes que a auxiliem no fomento da terra, ou de preo remunerador
para os artigos de sua produco, alcanada  fora de pesados
sacrificios, em tempos de desconfiana geral.

E, comtudo, no desenvolvimento de nossa industria agricola est de certo
um dos maiores elementos da prosperidade do paiz.

Cada hectare de charneca brava, que a roadoura entrega  enxada e 
charrua,  mais um degrau subido no caminho da civilisao; mais um
passo na estrada da riqueza e da moralidade.

Menos uma enxerga de hospital.

Menos um registro de cada.

Menos um farrapo de nudez.

Menos um grito de fome.

Mais trabalho e menos miseria.

Mais um augmento de receita para o thesouro; menos uma amortisao de
valor productivo.

       *       *       *       *       *

No  menor o prejuizo que soffre o commercio com a desconfiana
publica.

Basta a considerao de que, baixando o consummo e a produco, devem
descer as operaes da troca, para que se torne bem manifesta essa
verdade.

No se desenvolve a indole empreendedora do commercio quando o credito
encolhe as expanses de seu efficaz auxilio, negando-se a descontar-lhe
as probabilidades de ganhos futuros.

D'esta frouxido de mercados, acompanhada pelo retramento do credito,
nasce uma situao difficil em que s  fora de paliativos perigosos se
honram os compromissos tomados.

O proprio commercio de importao, o que serve necessidades especiaes,
que no dependem da produco nacional, ou para as quaes no chega a
industria do paiz, anda sujeito em ponto sensivel s consequencias
d'esse estado de cousas.

Emquanto ao commercio de exportao, quando o capital desconfiado se
recusa a fecundar o solo, principal fonte de aquella manifestao de
riqueza, e o credito lucta com o medo, os algarismos de suas transaces
no soffrem comparao com as sommas que a produco, favorecida por
outras circumstancias mais fecundadoras, pde levantar do mercado
estrangeiro.

Em 1851 teve logar o movimento a que se deu o nome de Regenerao. No 
logar aqui para se avaliarem as consequencias d'esse facto, que
parecendo ter sido ento de grande valor politico, talvez lanasse 
terra bastantes sementes de desorganisao partidaria, que hoje
frondejam em cyprestes de luto. O que , porm, inegavel  que a
confiana com que a opinio publica recebeu essa situao, activando por
todos os modos a vida do paiz, produziu os seguintes resultados,
esplendidos debaixo do ponto de vista dos interesses materiaes e devido,
mais do que tudo, a cinco annos de paz e de estabilidade no governo, 
sombra de um partido numeroso, embora artificial:


COMMERCIO DE PORTUGAL

+------------------------------------------------+
|  ANNOS   |    IMPORTAO    |    EXPORTAO    |
|----------+------------------+------------------|
|   1851   |  13,749:000$000  |   8,228:000$000  |
|   1856   |  20,452:000$000  |  16,299:000$000  |
|----------+------------------+------------------|
| Augmento |   6,703:000$000  |   8,071:000$000  |
+------------------------------------------------+

Em cinco annos duplicou a exportao! Augmento sem precedente na
historia moderna do paiz.

Verdade  que a reforma das pautas deve ter influido at certo ponto nos
algarismos citados, especialmente no que respeita ao commercio de
importao, assim como a maior facilidade de vias de communicao no
resultado geral; mas  indiscutivel que a confiana publica tenha
poderosamente contribuido para o augmento descripto, espalhando por todo
o paiz com mo larga o capital e o credito.

De 1861 a 1865 geriu um governo historico os negocios do estado. Essa
situao, apoiada por um partido intimamente convencido de que
trabalhava no bem do paiz, teve a estabilidade necessaria para que a
confiana publica no desertasse da vida economica da nao.

+------------------------------------------------+
|  ANNOS   |    IMPORTAO    |    EXPORTAO    |
|----------+------------------+------------------|
|   1851   |  26,634:000$000  |  14,383:000$000  |
|   1865   |  24,822:000$000  |  20,108:000$000  |
|----------+------------------+------------------|
| Augmento |                  |    5,725:000$00  |
+------------------------------------------------+

Isto : um augmento de 40 por cento no commercio de exportao n'um
periodo de quatro annos, resultado to lisongeiro que pouco o affecta a
diminuio experimentada no commercio de importao, na somma de
1.812:000$000 ris.

Attenda-se igualmente a que as inscripes de 3 por cento ficaram a
perto de 50 por cento quando o ministerio historico deixou o poder, no
fim de quatro annos de exercicio.

       *       *       *       *       *

O desenvolvimento da riqueza nacional necessita de braos.

Ora quando a confiana no futuro do paiz baixa no animo do povo,
pronuncia-se cada vez mais a tendencia para buscar em outras regies o
bem-estar que a patria no parece prometter.

Ou se emigra ou se deseja emigrar.

E o primeiro caso no  talvez o peor para o paiz.

Mau  que quando a populao no superabunda (pois o dobro d'ella
caberia facilmente desde o Minho at ao Algarve se o paiz produzisse o
que  susceptivel de produzir) os nossos irmos vo levar a terras
estranhas a actividade que poderiam empregar dentro da patria.
Compensam, porm, em parte, este mal os capitaes que a emigrao tem
lanado no paiz, depois de os adquirir no labor de muitos annos longe da
patria. O que no tem compensao  essa vaga anciedade de espirito que
se traduz em ociosidade perigosa, quando o homem, profundamente
convencido de que o seu trabalho no paiz nunca o poder enriquecer,
oscilla por longo tempo entre a esperana no El-Dorado e os vinculos que
o prendem  terra em que nasceu, no pedindo ao brao mais do que o
estrictamente necessario para, em duas ou tres horas de trabalho por
dia, ganhar com que satisfazer as mais urgentes necessidades.

Ainda que a ida da emigrao o no visite, esta expresso:--para que me
hei-de canar?-- to frequente formula de desconsolo, que ha-de
forosamente influir na somma geral da produco.

Poder-se-ha tambem negar que a falta de confiana influa na populao do
paiz, obstando  creao de novas familias pelo receio de que desgraas
futuras cerceiem os haveres de casal?

       *       *       *       *       *

Que grangeio de riquezas pde haver quando, pelo desapparecimento
successivo de leis de impostos, to sensatas quanto o permittiam as
urgencias do thesouro, se no sabe sobre que expresso de riqueza cair
algum tributo vexatorio ou ruinoso?

Quando a confiana publica duvida da boa applicao dos dinheiros
publicos, mudando-lhes um governo de poucas horas o emprego que lhes
destinara outro governo de poucos dias?

Quando no adquire a certeza de que a um ministerio, que vive em
perpetuos balanos, lhe chegue o tempo para cuidar na independencia das
quinas de Portugal?

Quando o motim da rua influe na durao dos ministerios, ou n'elle
influe a pressa das opposies ajudada pela insignificancia dos
governos, e a confiana publica recua espantada diante d'estas mutaes
de scena?

Quando a devassido politica segreda ao ouvido do pobre que a riqueza 
um crime e o trabalho uma escravido?

Logo que estas circumstancias se dem  impossivel que a riqueza se
desenvolva. Trata-se mais de defender do que de augmentar; de conservar
do que de produzir.

Um fatal estacionamento trava a roda da prosperidade publica.

A fabrica, o navio, o campo, a loja, o escriptorio e a officina moderam
a actividade.

E o medo, quebrando todas as energias, reina despoticamente sobre um
povo de assustados.

Mau rei e mau povo.


VIII


Nem no que fica escripto, nem no que adiante segue, existe a estulta
preteno de tratar a questo do imposto, to melindrosa e complicada,
ou de resolver o problema financeiro, to complicado e melindroso.

Trabalho  esse para mais rijos pulsos.

O que unicamente aqui se quer  reforar com alguns argumentos, e poucos
algarismos, a demonstrao de uma these politica, cuja resoluo deve
ter immediata influencia sobre esses dois momentosos assumptos.

       *       *       *       *       *

 fra de duvida para quem no se deixa voluntariamente enganar, ou 
traioeiramente enganado, que as foras do paiz ainda podem com mais
alguns sacrificios tributarios, sem que a vida economica d'elle seja
atacada nas fontes em que bebe a existencia.

Mau servio faz ao povo quem, desattendendo o estado da fazenda publica
e em nome de interesses de bando, lhe incute no espirito a negao
d'essa verdade, pois que essa negao, contribuindo para augmentar cada
vez mais o _deficit_, redunda em prejuizo no s do thesouro, como dos
proprios contribuintes, que tem de ser opprimidos com mais violentos
encargos,  medida que se fr demorando a applicao do remedio, sem o
qual se parar fatalmente na morte.

A ultima contribuio predial lanada foi a seguinte:

No continente:

Contingente { ordinario          1.649:211$000
  principal { extraordinario       329:842$200

Contingente de predios
  novamente inscriptos              36:000$000

Viao                             659:684$400

Falhas                              46:177$900

                                 ------------- 2.720:915$500

Nas ilhas adjacentes:

Contingente { ordinario            178:903$970
  principal { extraordinario        17:890$397

Contingente de predios
  novamente inscriptos               3:850$000

Viao                              71:561$588

Falhas                               5:009$319

                                 -------------   277:215$274

                                  Somma total  2.998:130$774

que recae sobre um rendimento collectavel, em verbas redondas, de:

No continente            22.300:000$000
Nas ilhas                 2.750:000$000

Ora este rendimento collectavel de 25.050:000$000 ris representa
aproximadamente 50.000:000$000 ris de producto bruto da propriedade, o
qual deve subir visivelmente a mais elevada quantia se se calcular:

1.^o Que os dizimos, no tempo da velha monarchia, em 1812, por exemplo,
deviam ter produzido a somma de 5.400:000$000 ris, porque o rendimento
da contribuio extraordinaria de defeza, n'esse anno, a qual era de um
tero dos dizimos, produziu a verba de 1.800:000$000 ris; d'onde
resulta que j n'essa epoca o producto bruto dos fructos da terra devia
chegar a mais de 50.000:000$000 ris.

2.^o Que a produco da terra tem augmentado, porque, alm de occorrer,
em grande parte, a um accrescimo de populao a qual era, em 1811, de
2.877:071 almas, e em 1863 de 4.341:319, tem influido no commercio de
exportao (para o qual a industria fabril entra apenas por uma quinta
parte) e influido de modo que esse ramo de commercio subiu de
5.581:000$OOO ris, em 1842, a 20.108:000$000 ris, em 1864, sendo de
18.041:000$000 ris em 1868.

3.^o Que, subindo o rendimento colletavel da propriedade urbana a
3.542:000$000 ris, representa o producto bruto do solo uma quantia que
deve rastejar 46.000:000$000 ris, a qual dividida por 4.341:519
habitantes, d uma verba media annual de pouco mais de 10$000 ris para
alimentao, em generos, de cada um d'elles, o que  absurdo. Verdade 
que o paiz importa generos alimenticios cujo valor deve accrescer ao dos
algarismos citados, mas tambem  exacto que a verba de 46.000:000$000
ris , por outro lado, desfalcada pela exportao de milhares de contos
de ris em objectos de alimentao; pelas reservas para sementeiras, e
pela insero, em varias matrizes, de mattos, pastagens, florestas e
outros artigos que no collaboram directamente na alimentao do povo. O
que no  possvel  que cada cidado portuguez consumma alimentao no
valor medio diario de menos de trinta ris, o que seria expresso de
miseria tal, que o paiz teria acabado  falta de gente.

Identicas observaes se poderiam fazer com relao a muitos outros
rendimentos do estado, se nos traos rapidissimos do presente escripto,
podesse caber uma analyse miuda do que fornece cada um d'elles ao
thesouro publico.

Note-se unicamente de passagem que a verba da contribuio industrial
leva quasi  concluso de que o paiz anda descalo e nu; de que no
dorme debaixo de telhas nem conhece o _conforto_ moderno, que augmenta
cada vez mais o numero de certas superfluidades dando-lhes a natureza de
necessidades verdadeiras.

       *       *       *       *       *

 pois fra de duvida que os rendimentos publicos podem ser augmentados
por meio do imposto.

O que  absurdo e vexatorio  que novos addiccionaes venham
constantemente aggravar as desigualdades j existentes, ao ponto de
tornal-as intoleraveis pela comparao.

Pague-se, mas paguem todos e proporcionalmente.

Mas se aquella proposio  verdadeira com referencia  massa geral das
transaces materiaes do paiz, ser possivel que o augmento de tributo,
s por si, chegue para dar prompto allivio  crise em que labora a
fazenda nacional?

Seria loucura o pensal-o.

O _deficit_ do anno economico que teve fim em 30 de junho do corrente
anno sobe talvez de facto a perto de 8.000:000$000 ris!

V-se, pois, que pedir o saldo do oramento ao imposto, seria augmentar
este de frma que o tornaria impossivel debaixo do ponto de vista da
ordem publica, e, ainda mais, sob o aspecto economico.

Seria atacar a produco na origem; arruinar o paiz.

Para se alcanar um augmento effectivo de cobrana no valor de
8.000:000$000 ris, quanto seria necessario lanar, attendendo  quebra
que soffreria o movimento economico do paiz em todas as suas
manifestaes e  repercusso d'essa quebra na cobrana do imposto?

Nem pensar n'isso  bom.

       *       *       *       *       *

Bastar o auxilio das economias--isto : de reduco nas despezas--dado
 prudente elevao do imposto, para pr a nado a encalhada e fendida
nau de nossa fazenda?

Ainda assim, no. Quanto mais vindo as economias desacompanhadas de tal
soccorro!

As economias so uma boa e excellente cousa, como funcao ordinaria de
governao publica e elemento de confiana nos destinos do paiz.

Para salvao no bastam.

Tem-se abusado d'essa palavra sonora, martellando com ella o espirito
popular, para favorecer intuitos de mando e combater com ella o augmento
de contribuio.

Poupam-se alguns contos de ris por um lado, quando se poupam.
Esbanja-se, pelo outro, o capital do bom juizo publico, dilapidando-o,
com falsas idas.

A differena  contra o paiz.

Quem no deseja que se economise at ao ultimo real na administrao do
estado, sizando com mo avarenta todos os gastos que no forem
indispensaveis  gerencia da nao?

Ninguem.

Quem no pensa que a economia deva ser permanente empenho de todos os
homens publicos?

Ninguem.

Quem no v na reduco das despezas um dos melhores meios para alliviar
as finanas das difficuldades que as peiam?

Ninguem.

Mas quem faz das economias bandeira exclusiva de parcialidade?

Quem lhes attribue o condo de fazer brotar o dinheiro em jorros taes,
que matem a sede de meios em que ardem os cofres do paiz?

A especulao.

Economise-se, que economisar  proveito e dever.

Mas o _deficit_  talvez de 8.000:000$000 ris!

Com que economias o quereis attenuar em ponto sensivel?

Ha muito a cortar no matagal do oramento?

De accordo. Corte-se; e corto-se desapiedadamente.

Mas quanto?

A resposta mata a parte politica da questo. O lemma esfarrapa a
bandeira.

Por isso at hoje a economia tem sido mais uma formula geral de
programma de grupo, do que a applicao immediata de um principio santo.

Mas a ida  to boa em si, que, apezar de se terem empregado bem as
diligencias para a desacreditar, alguns resultados vai produzindo.

       *       *       *       *       *

Ora se o imposto e a economia no so sufficientes hoje para avolumarem
facilmente as nossas receitas at s ultimas visinhanas de nossas
necessidades, o que pode, seno o desenvolvimento da riqueza publica,
estendendo a base da materia tributavel, arredar dos horizontes do
futuro a cerrao em que andam vendados?

Desenvolvimento de riqueza pela confiana, e de confiana pela extinco
da detestavel politica em que se tem vivido nos ultimos annos, e que, de
envolta com a moralidade, vai fazendo declinar os interesses materiaes
do paiz.

Nos ultimos tres annos a contribuio de registro e o rendimento das
alfandegas tem baixado por frma sensivel, pois tendo sido creados desde
1867 novos impostos, ou augmentados os ento existentes, na importancia
de 1.816:000$000 ris, smente tem a receita publica crescido em cerca
de 1.200:000$000 ris.

A desconfiana a cercear as foras reaes do paiz!

Promova-se, pois, o desenvolvimento da riqueza nacional.

A base antes da cupula.

Promova-se, no por meio de um fomento _ outrance_, que onere a divida
publica com juros superiores s vantagens que se pdem auferir d'elle,
mas por via de uma prudente applicao d'esse agente poderoso, resoluto
e valentemente auxiliado pelas foras moraes que o possam tornar
permanentemente productivo e proficuamente fecundante.

 inegavel que o paiz deve grandes servios s administraes que tem
curado de o dotar com os melhoramentos de que precisava. Mas talvez seja
opportuno continuar a suster um pouco to violenta carreira, a fim de
que o thesouro no rebente no meio do caminho.

Tem-se gasto desde novembro de 1852 at 30 de abril de 1869 em obras
publicas:

No continente:

Estradas ordinarias                 15.836:803$683

Caminhos de ferro                   19.668:664$181

Obras publicas diversas,
  incluindo o atterro, canos
  de Lisboa, Lazareto, etc           4.539:186$710

Barras, portos e rios                2.002:857$174

Telegraphos                          1.589:078$003

Caminho de ferro no pinhal
  de Leiria                            317:763$289

                                    -------------- 43.954:353$040

Nas ilhas:

Ponta Delgada                          364:023$450

Angra                                  281:994$184

Horta                                  329:367$853

Funchal                                478:997$399

Docka de S. Miguel                   1.170:119$505

                                    --------------  2.624:502$391

                                                   --------------

                                    Somma total    46.578:855$431

O que j no d ao paiz a nota de refractario  civilisao... e ao
_deficit_.

       *       *       *       *       *

Mais uma vez, porque  bom que isto se repita: no desenvolvimento da
riqueza nacional est a salvao do paiz.

S assim pode crescer o imposto em propores alentadas, sem sobresalto,
sem violencia, sem transtorno da economia publica, e sufficientes para
nos livrarem de uma ruina, que sem tal esconjuro vir bater-nos  porta,
mais cedo ou mais tarde.


IX


Bater-nos-ha  porta a ruina?

Bate de certo.

De anno para anno o _deficit_ toma tal corpulencia que ameaa esmagar o
paiz debaixo do pezo d'essa mole tremenda.

    DEFICIT    ORAMENTO DO ESTADO   CONTAS DO THESOURO
----------------------------------------------------------
  1864-1865      2.718:953$347     |    3.709:441$590
  1865-1866      3.666:517$110     |    5.813:548$730
  1866-1867      5.028:674$579     |    7.870:531$454
  1867-1868      6.478:862$856     |    6.773:524$044
  1868-1869      6.133:631$721     |    4.764:847$779

Esta ultima verba accrescentada com a de ris 2.830:041$297, que ficou
em divida  Junta do Credito Publico no dia 30 de junho de 1869, sobe 
importancia do 7.594:889$076 ris!

_Deficit_ igual a quasi 50 por cento da receita realisada n'esse anno
economico, a qual foi de ris 16.513:420$330!

_Deficit_ que em 1869-1870 deve ter subido talvez a 8.000:000$000 ris,
ao passo que a receita  possivel que tenha baixado por motivo dos
acontecimentos politicos de maio do corrente anno!

A nossa despeza nos ultimos cinco annos tem sido a seguinte:

                                CONTAS DO THESOURO
----------------------------------------------------
  1864-1865                         21.475:719$247
  1865-1866                         21.284:218$335
  1866-1867                         22.836:957$724
  1867-1868                         23.317:163$231
  1868-1869 (com a divida  Junta)  24.108:309$406

Devendo-se accrescentar ao anno de 1867-1868 mais a despeza em
inscripes para amortisao de varios emprestimos com juro e
amortisao, inclusive o saldo do emprestimo dos 4.000:000$000 ris.

O seguinte mappa mostrar a progresso das despezas publicas nos annos
economicos de 1864-1865, comparadas com as do quinquennio anterior, de
1868-1869:


*Despeza do Thesouro*--em contos de ris--*fundos sados para pagamento
de despezas*

       A      B      C     D      E      F     G      H    I     J      L
---------------------------------------------------------------------------
L1   2.967  1.205   435  2.894  1.218   179  3.099  4.099 052  16.148   --
L2   3.083  1.280   478  3.046  1.223   169  2.788  4.031 002  16.100   --
L3   3.817  1.335   472  2.903  1.115   276  6.715  4.305 002  20.940   --
L4   3.264  1.411   501  3.029  1.472   214  7.145  5.292 001  22.329   --
L5   3.899  1.438   531  3.132  1.781   224  5.015  5.733 001  21.754   --
L6   3.880  1.508   569  3.237  2.109   212  4.037  5.924  --  21.476   --
L7   4.249  1.593   595  3.378  1.902   227  3.485  5.855 001  21.285   --
L8   4.926  1.634   612  4.315  1.902   241  3.001  6.205 001  22.837   --
L9   4.548  1.804   637  3.997  1.866   266  3.272  6.927  --  23.317 6.263
L10  3.925  1.709   590  3.616  1.809   215  2.640  6.774  --  21.278   --
---------------------------------------------------------------------------
    38.558 14.917 5.420 33.547 16.397 2.223 41.197 55.145 060 207.464
===========================================================================
L11 17.030  6.669 2.417 15.004  6.809 1.062 24.762 23.460 058  97.271
L12 21.528  8.248 3.003 18.543  9.588 1.161 16.435 31.685 002 110.193 6.263
---------------------------------------------------------------------------
L13  4.498  1.579   586  3.539  2.779    99         8.225      21.305 6.263
L14                                          8.327        056   8.383
                                                              -------------
L15                                                            12.922 6.263
-----------------------------------------------------------================
L16    899    316   117    708    556    19         1.645       4.260 1.252
L17                                          1.665        011   1.676
                                                              -------------
L18                                                             2.584 1.252
===========================================================================

*Legenda:*

MINISTERIOS:
  Fazenda                  coluna [A]
  Reino                    coluna [B]
  Justia                  coluna [C]
  Guerra                   coluna [D]
  Marinha                  coluna [E]
  Estrangeiros             coluna [F]
  Obras Publicas           coluna [G]
Junta do Credito Publico   coluna [H]
Amortisao de Notas       coluna [I]
Somma                      coluna [J]
Amortisao en Inscrip.   coluna [L]


				                 Total
1859-1860                  linha [L1]    16.148
1860-1861                  linha [L2]    16.100
1861-1862                  linha [L3]    20.940
1862-1863                  linha [L4]    22.329
1863-1864                  linha [L5]    21.754
1864-1865                  linha [L6]    21.476
1865-1866                  linha [L7]    21.285
1866-1867                  linha [L8]    22.837
1867-1868                  linha [L9]    29.580
1868-1869                  linha [L10]   21.278
                                       ----------
                                        213.727

1.^o Quinquennio           linha [L11]   97.271
2.^o Quinquennio           linha [L12]  116.456

Augmento no 2.^o           linha [L13]   27.568
Diminuio no 2.^o         linha [L14]    8.383
Augmento liquido           linha [L15]   19.185

Media por anno:
  do augmento              linha [L16]    5.512
  da diminuio            linha [L17]    1.676
Augmento medio             linha [L18]    3.836


V-se, d'este mappa, que as despezas publicas subiram em 3.836:000$000
ris de mdia annual, em cada um dos annos economicos que vo do 1.^o de
julho de 1864 a 30 de junho de 1869, comparadas com a mdia dos que
alcanam do 1.^o de julho de 1859 a 30 de junho de 1864!

Os juros da divida consolidada so:

Da divida interna    5.569:227$218
Da divida externa    4.768:318$629
                    --------------
Somma total         10.337:545$847

Mas, segundo o oramento apresentado pelo sr. Anselmo Braamcamp, deviam
existir, em 31 de maro de 1870, titulos para serem cancellados,
representando encargos:

Da divida interna    1.176:109$000
Da divida externa       76:734$000
                    --------------
                     1.252:843$000

Mais:

Na posse da fazenda    615:880$500
                    --------------
                     1.868:723$500

que descontados dos 10.337:545$847 ris reduzem esta verba a
8.468:832$347 ris.

O que resta saber, porm,  se ainda esto disponiveis os titulos que o
sr. Braamcamp cancellava na importancia nominal de 41.760:000$000 ris
aproximadamente e que representavam os encargos, acima indicados, de
1.252:843$000 ris.

Ora  isto exactamente o que se no pde verificar, por falta de
documentos officiaes que elucidem a questo. O que se pde asseverar 
que ainda at hoje no se cancellou titulo algum d'esses, alis teria
constado isso dos termos mensaes das amortisaes feitas pela Junta do
Credito Publico, amortisaes que ultimamente tem consistido, segundo
parece, em queimar papeis velhos, que so trocados por novos.

Na presena d'este quadro pde, ou no, a ruina chegar, e depressa?

       *       *       *       *       *

Pde, e  lastima que tal acontea.

O paiz tem elementos em si para arredar essa temerosa eventualidade.

Uma simples observao:

Um povo que tem, amortisados no fundo de suas gavetas, em inscripes,
fundos estrangeiros; aces de bancos e companhias, etc., valores
superiores talvez a 350.000:000$000 ris, nominaes, no est to pobre
que deva perder a esperana de se salvar da crise que o ameaa.

Bastaria pr em circulao productiva uma parte d'esta riqueza;
bastaria, talvez, que os capitaes absorvidos na divida fluctuante, na
importancia effectiva de 8.529:693$499 ris, quizessem fecundar a terra,
o commercio e a fabrica, para que o desenvolvimento da actividade
nacional comeasse a fazer raiar alguma aurora de redempo.

Mas o facto  que, como se disse algumas paginas atraz, o commercio
definha; a industria retrae-se; a agricultura v seccar os peitos
uberrimos.

E o paiz tem um solo fertilissimo e colonias extensas!

Tem territorio no continente para 10:000.000 de almas e lava-se nas
aguas de tres oceanos!

       *       *       *       *       *

Do equilibrio possivel do oramento depende, pois, a sorte da nao
portugueza. Mais seis, oito, quatro annos de funesta accumulao de
enormes saldos negativos, e o paiz ver abrir-se diante d'elle uma valla
que no poder transpr, e na qual ha-de cair.

Abysmo que chama com dois braos: a bancarota e a Iberia.

A propriedade territorial ser ento quasi a unica que se poder suster
 borda.

O _deficit_ duplicou em quatro annos. Como poder o paiz, se durar essa
infernal progresso, resistir, de hoje a outros quatro, a 15.000:000$090
ris de desquilibrio oramental?

E ainda ha quem pergunte anciosamente: O que ha de novo? com relao
unicamente  sada ou  entrada, no ministerio, d'esta ou d'aquella
individualidade?

Questo de pessoas em frente da questo do paiz! Vale a pena.

Mas quem  o verdadeiro culpado?

Diga-o a si prprio o paiz.


X


Em vista do que fica apontado em rapido esboo, no ser chegado o tempo
de se buscar remedio para o mal que invade o paiz, e de cuja propagao
talvez seja elle o primeiro culpado?

Quando uma nao quer, e quer deveras, pde achar na vontade energica
thesouros de fora e de valentia.

Se a f transporta montanhas, a vontade transpe-as.

A primeira, a grande reforma a fazer, no est tanto nos que governam
como nos que so governados. Comecem por moralisar o povo os que andam
perto d'elle, porque  de baixo que se d principio a qualquer trabalho
de construco solida e racional.

Os governos retratam sempre mais ou menos fielmente o estado das
sociedades que administram. Podem seguramente ter contribuido para o
estado geral do paiz, mas  fra de duvida que o paiz tem exagerado
voluntariamente em si as consequencias dos erros commettidos, em vez de
collaborar na emenda com resoluo e fervor.

Facto singular! Acredita o paiz em tudo e de tudo descr. Tem assomos de
colera e espasmos de fraqueza. Censura nos ministerios o que todos os
dias faz em miniatura.  critico sem obras; sacerdote sem culto;
inquisidor sem f.

Devem os nossos governos ter sobre a consciencia o peso de grandes
culpas. Quem o nega? Mas em que os ajuda o paiz, quando nasce de
qualquer d'elles alguma iniciativa util ou necessaria? Dando ouvidos 
intriga; acolhendo a diffamao; desdobrando-se at ao infinito em
individualidades que tratam de si, em vez de se condensar cada vez mais
n'uma collectividade que visite patrioticamente os interesses de todos.

Pedem, geralmente, os eleitores contas aos deputados pelos votos que
deram na deciso dos negocios importantes? Longe de tal. Contam os
memoriaes despachados e os que profundaram no lymbo, e, se o thesouro
ficou,  propria custa do povo, mais onerado com alguma verba
desnecessaria, no ha louros que cheguem para a reeleio triumphante do
grande homem de estado.

Quereis que de agua estagnada saiam aromas e saude? Por mais que n'ella
se espelhe o sol, esse calor, que  para a immensidade da natureza fonte
de vida e de esplendor, ser, luzindo sobre o pantano, apenas origem
certa de fetidos venenos.

Pois entre tantos homens, que se tem succedido no poder, no ter havido
alguns que olhem com seriedade para as cousas do paiz?

No tero subido aos conselhos da cora a probidade, a illustrao, a
prudencia e o patriotismo?

Tem, com certeza. Verdade  que tambem alli tem chegado quem possa gerar
no espirito publico largas hesitaes. Mas o que infelizmente o paiz tem
feito  confundir todos os homens perante uma repugnancia tal que faz
persuadir, at certo ponto, que j no  contra ministros que se
pronunca a cada passo, mas contra o principio de auctoridade, sem o
qual as sociedades no podem existir.

Estas reaces constantes dos erros dos governos sobre o paiz e dos
erros do paiz sobre os governos tem produzido um estado de cousas
intoleravel e perigoso.

Pois o que  o estar a administrao superior continuamente influenciada
pela desorganisao moral do paiz, e o paiz sempre debaixo da
desorganisao politica em que vivem, quando vivem, os governos?

Em que param as necessidades urgentes quando o paiz se recusa a
trabalhar seriamente na satisfao d'ellas, sujeitando-se aos
sacrificios indispensaveis, e os governos consomem o tempo na tarefa,
quasi unica, de assegurarem a existencia, sempre ameaada pela sua
propria fraqueza?

Que paiz  este em que qualquer ambio audaciosa pode lembrar-se, com
visos de probabilidade, de obter o que sonha, se no lhe faltar a
audacia ao servio da intriga?

E no meio de tudo chovem as calamidades. A cheia cresce. Agora invade um
principio; alaga logo um direito. Escava aqui uma garantia, submerge
alm uma conveniencia.

E ao fundo, l ao fundo, mas aonde a vista alcana j, ameaa levar
comsigo a fortuna e quem sabe se o nome d'esta nao!

       *       *       *       *       *

Tentem os que pensam, os que possuem e os que trabalham; todos os que
so as foras vivas do paiz, pr dique  devastadora torrente,
intervindo franca, directa e proveitosamente, no governo do estado.

So elles os verdadeiros responsaveis pelo que vae succedendo.

So a intelligencia, o capital e o trabalho.

So mais ainda: O Numero.

E o numero no systema representativo  a realeza de facto.

A responsabilidade  d'elle.

 responsavel cada cidado para com todos; so responsaveis todos para
com cada um d'elles.

Ainda mais:  responsvel cada cidado para comsigo mesmo.

Solidariedade absoluta.

Esta responsabilidade, que  immensa, impe deveres a que se no deve
faltar, porque so protectores de interesses que se no pdem preterir.

Para que serve ao paiz a intelligencia, se o primeiro dever d'ella no
fr o de empregar todos os recursos no estudo e na remoo dos males que
o affligem, e de que serve a quem a tem, se no achar ambiente em que a
desenvolva e aproveite?

No diminue a massa do capital nacional, quando a falta de credito,
proveniente de uma errada politica, cerceia todos os valores
representativos em face da desconfiana publica, e at reduz os valores
reaes, o da propriedade territorial, por exemplo, augmentando
exageradamente o preo da moeda metallica?

No soffre o trabalho com a m gerencia dos negocios publicos, a qual ao
cabo de periodo mais ou menos longo, influe inevitavelmente no consumo
geral, e, pela diminuio do consumo, em todos os coefficientes da
produco?

Quem poder ter, pois, maior interesse do que o trabalho, o capital e a
intelligencia, em que o paiz seja regularmente administrado?

E, comtudo, julga-se acertado e prudente o pensar que a politica deve
ser apenas obra de alguns especialistas, arvorados por auctoridade
propria em directores, thesoureiros e guarda-livros, d'esta immensa
sociedade!

Se at ha quem pense que a politica  emprego de ociosos!

       *       *       *       *       *

 obrigao de todos o trabalharem na tarefa commum.

 urgente, portanto, que se acabe um grande partido: o partido dos
abstencionistas.

Partido do desanimo, do egoismo e do orgulho.

Partido negativo para o bem; positivo para o mal, que deixa fazer.

Fora perdida aonde no sobejam as foras.

E occorrencia notavel! So os que mais se abstem os que mais lagrimas
vertem sobre a sorte da patria, e os que fustigam com mais desapiedada
censura os erros, a que no tentam offerecer o minimo estorvo!

Pois que? Achaes-vos melindrados nos vossos principios de moralidade;
affectados no vosso patriotismo; offendidos nos vossos interesses, e s
tendes fel na palavra em vez de energia na aco?

Que dirieis vs do soldado, que, vendo em perigo a bandeira de seu
regimento, cruzasse os braos commodamente sobre o cano da espingarda,
crivando de longe com doestos os que se batessem em volta do estandarte
nacional, e que, ainda que por ventura o no fizessem por uma causa
irreprehensivel, sabiam pelo menos luctar e morrer?

Que direito tendes de vos queixar, quando nem sequer vos merece um
minuto de atteno a causa remota da queixa?

O _perinde ac cadaver_ do jesuita, se era um aniquilamento diante da
vontade, era uma actividade ao servio da ordem. Os vossos estatutos
ainda rezam de menos.

Transformam-vos n'uma abdicao ao servio de uma inutilidade.

Sois um partido que habilita qualquer obscuro cidado a dirigir-se ao
mais illustre de vossos adeptos, e dizer-lhe: Sois um grande escriptor.
Por vs o nome litterario d'este canto de terra anda conhecido entre os
sabios da Europa. Erguestes um monumento  patria. Sois uma gloria
nacional. Mas attendei: desde que vos fizestes o apostolo da descrena;
o oraculo do desanimo; o censor infecundo e irresponsavel das miserias
alheias; desde que rebaixastes ao nivel de vosso desprezo o paiz em que
nascestes, e que prejudicaes com o vosso exemplo, tanto mais deploravel
quanto que parte de um homem como vs, eu, humilde entre os humildes,
curvando-me respeitoso diante de vossa grandeza, tenho o direito, com a
mo sobre a consciencia, de vos dizer estas simples palavras:--sois um
mau cidado!

Desapparea, pois, de Portugal essa perniciosissima seita. Use cada um
no s de seu voto mas de sua legitima influencia em pr da communidade.

_Res, non verba_.

Dado este passo importante; alcanada esta grande victoria, organisae,
vs os que pensaes, que possuis e que trabalhaes, a grande cruzada em
favor da moralisao do paiz.

Prgae-a com a voz, com a penna e, sobretudo, com o exemplo, o melhor
argumento para ensinar e convencer.

O criterio moral do paiz, desenvolvido e purificado, auxiliar a
formao de partidos fortes, que sero garantia de governos productivos
e regenerao da politica nacional.

Esto diante de vs tres estradas distinctas:

O absolutismo, a monarchia constitucional, a republica.

O passado, o presente, o futuro.

A saudade, a prudencia, a theoria.

Nos extremos: a tradio e o mysterio. No centro: o facto.

Tratae do facto, que  agora o mais urgente.

Facto que representa oito seculos de independencia e alguns annos de
liberdade.

       *       *       *       *       *

A nossa terra  pequena para que n'ella possam caber  larga todos os
grupos actuaes.

Ha:

Historicos;

Regeneradores;

Reformistas;

Amigos do sr. A;

Amigos do sr. B;

Amigos do sr. C;

E assim por diante at  extinco do alphabeto!

Todos progressistas! Todos repellindo com azedume a qualificao de
conservadores!

E comtudo esta diviso  o facto universal, quando a politica de partido
no degenera em politica de bando.

Reconstrui a primeira pela aniquilao da segunda.

Concentrae-vos em dois grandes exercitos, chamando a vs os vossos
correligionarios que andam dispersos por todos os grupos, e obrigando o
partido, que julgardes dever escolher, a formular um programma, que seja
corpo de doutrinas, logico e perfeito.

Sde progressistas ou conservadores; mas sde alguma cousa, e sde-o
deveras, em nome de systemas completos e harmonicos.

Dem logar os nomes s realidades.

Ahi tendes o livre cambio, a descentralisao, a reforma parlamentar, o
regimen colonial, mil outras questes de que podeis fazer bandeira de
escola.

Formae partidos fortes, que possam dar governos uteis.

Sois progressistas? Intervinde, e depressa. Aproveitando os quadros do
velho partido historico, reforae-o com as massas de vossos tropas
frescas; redigi um programma de pontos concretos, em harmonia com as
idas que adoptaes, e abri as vossas fileiras para receber n'ellas, por
meio de uma verdadeira incorporao, de entre reformistas e
regeneradores, os que j so hoje talvez mais vossos verdadeiros
camaradas em opinies do que alguns dos que militam s ordens de vossos
chefes.

Sois conservadores? Segui, o mesmo processo e com igual energia.
Agrupae-vos. Formulae o vosso credo. Nomeae os vossos chefes. Dizei o
que sois, que nada tem de deshonroso, e o que quereis, que pode ser
necessario em dados momentos.

Se dentro da lei e da liberdade obrigardes as parcialidades existentes a
condensarem-se em dois partidos bem distinctos, que ponham fim a
colligaes de interesses e de homens, como as que por ahi tem
desmoralisado e vo desmoralisando o paiz, tereis feito o mais relevante
servio e salvado a nao de crises estereis e de grandes calamidades.

Feito isso, acabaria a vadiagem politica, essa praga que nos arruina. A
decencia queimaria na testa; com o ferro em braza do desprezo publico, o
especulador que mudasse todas as semanas de partido, ao sabor de suas
conveniencias.

Teria fim a politica pessoal, peste que nos roe as entranhas e corrompe
tudo o que toca.

Intervinde, intervinde, vs que pensaes, que possuis e que trabalhaes.
Pesae na politica com a vossa collaborao. Influi nos negocios do paiz,
que so os vossos, e no os deixeis correr  revelia, entregues a
governos ephemeros e a corretores de eleies.

Tem ainda o paiz grandes recursos.

Tudo est em saber aproveital-os.

Aproveitem-n'os boas administraes, nascidas  luz da moralidade, e
levadas  pia baptismal nos braos de partidos robustos.

S assim se pde viver.

O contrario ser a morte na Iberia ou na banca-rota.

Seno em ambas.


XI


Capitalistas e proprietarios; industriaes e commerciantes; vs, que sois
geralmente os mais teimosos abstencionistas, ponde os olhos e a
intelligencia na contemplao do que foi o imperio francez.

Ainda no ha muito que alli a prosperidade material parecia sobranceira
a todos os riscos.

Uma activa circulao de valores levava a saude e a vida a todo esse
corpo que moia de inveja os mais poderosos visinhos.

O commercio duplicava em dez annos as transaces. A industria punha a
resgate o mundo inteiro, prezo nos laos de mil frivolidades. O capital,
decuplicado pelo credito, corria em abundantissimos veios, fertilisando
por todos os modos a actividade febril da arrogante nao.

A aguia napoleonica voava de Sebastopol ao Mexico, estendendo a sombra
das azas desde as vertentes dos Alpes at s planuras do mais remoto
oriente.

Nas fragatas e nos batalhes do imperio parecia ter-se incarnado o genio
da Fora.

Uma opposio, minoria de minoria, aturdida e estonteada com os votos de
maio, luctava sem esperana contra uma dynastia que centralisava sete
milhes de suffragios.

Estatua de ouro, tendo por dupla base um governo de ferro e um exercito
de bronze!

Mas de todo esse metal andava ausente um grande espirito.

O homem, que firmara o throno no perjurio, abatera o nivel moral do paiz
at s ultimas consequencias de um governo de familia e de faco.

A Frana entregou-se ao culto exclusivo da materia. Deixou roubar, ou
vendeu, a representao parlamentar. Deliu em gozos physicos a antiga
virilidade. Abdicou no chefe do estado o sceptro da opinio.

Passou ao lado da moralidade encolhendo os hombros n'um gesto de enorme
fastio. Ganhar depressa e gozar rindo foram os dois limites de seu
stadio social.

Na politica, Morny. Na arte, Offenbach.

Dois fructos de bastardia. Dois typos da poca.

Rebentou a guerra. A Frana tinha o po, mas faltava-lhe o circo.

A victoria, essa ex-divindade, que trocou o Olympo pela alcova,
vendeu-se a quem lhe lanou no colo mais bayonetas e mais canhes.

Os soldados do rei Guilherme pisaram as terras e os brios da Frana, e
ella, a dissoluta, atrophiada por vinte annos de materialismo e de
corrupo, consentiu que as tropas do mystico e illuminado representante
do absolutismo da espada chegassem aos muros de Paris, sem que os filhos
dos heroes de cem batalhas, de um s jacto e com um s pensamento, se
erguessem todos para deter o passo ao exercito allemo!

Memorando e triste exemplo do que pde a ausencia das foras moraes!
Contam-se por centenas de milhares, por milhes talvez, os que recuando
perante a invaso no pensaram que o nome da patria merecia o sacrificio
de menos alguns annos de vida, ou de menos alguns francos de renda. A
resistencia, que devia ser obra de todos, tem sido apenas tarefa de
alguns. Quatro lanceiros tomam Nancy, e o espio francez, realisando o
ideal da infamia, vende a thalers a vida de seus proprios irmos!

E a Prussia caminha, caminha sempre, elaborando nas almas de seus
seiscentos mil soldados um vago sentimento de hegemonia teutonica,
entrevista desde longos annos nas brumas dos tempos,  luz de uma
predestinao divina que lhe pe nas mos a tutla do mundo.

E que lucrou o capitalista, o proprietario, o industrial, o commerciante
em se ter abstido de uma interveno directa e moralisadora na politica
da Frana? Os valores em ruina; os campos talados; as fabricas em cinza
e os armazens desertos e fechados do triste, mas sufficiente resposta.

Se o povo francez no tivesse reduzido a religio politica a um ritual
dissolvente; se no se tivesse engolfado na subserviencia ao poder,
deixando-o corromper ou esmagar as consciencias; se, por inevitavel
reaco, no tivesse dado ouvidos s theorias subversivas dos
exploradores de popularidade; se tivesse obstado a que uma profunda
devassido lhe envenenasse as fontes da vida; se tivesse avocado a si,
por meio de bons e leaes representantes, a gerencia dos negocios
publicos, provavel seria que a guerra no tivesse rebentado para servir
a ambio de uma dynastia periclitante e satisfazer os instinctos
depravados das multides, que, s  fora de estimulos, sentiam ainda
pulsar no peito o velho corao, em que tantas vezes tem batido a sorte
da humanidade e a emancipao liberal de metade da Europa.

O olho do paiz, limpo de fumaradas de polvora e de orgulho, veria melhor
e mais fundo. Repousaria com mais jubilo nos conselhos da prudencia e
nas abundancias da paz do que nos lances da sorte e nas inclemencias da
guerra.

Se esta, porm, fosse inevitavel; se tivesse de resolver-se pelo fogo e
pelo ferro uma questo de equilibrio ou de preponderancia entre as duas
naes rivaes, embora o exercito francez eventualmente succumbisse
debaixo do peso dos batalhes prussianos, ter-se-hia poupado ao mundo o
afflictivo espectaculo de ver-se uma grande nao fugir a custo de um
somno profundo, para dar de rosto desde logo n'uma profunda anarchia.

 possivel que a Frana tivesse baqueado, mas cortejar-lhe-hia a queda o
respeito universal, factor immenso nas contas futuras da paz. A presso
moral de sympathias, que no proviessem unicamente de uma utilidade
politica friamente calculada, teria de pesar no animo do vencedor,
levada at alli no s pelo concerto das chancellarias, como tambem pelo
impulso unanime de todos os povos cultos.

Mas a gangrena moral tombou no p o chefe da vaca latina. Como que
receiosa do contagio, a Europa tem assistido impassivel a essa dolorosa
agonia, que oxal possa terminar em brilhante resurreio  voz do
patriotismo e da liberdade, reagindo contra a podrido do imperio.

E se isto acontece com a Frana, com o gigante que, baqueando moribundo,
pde esmagar ainda com o peso do corpo o imprudente que lhe esteja ao
alcance da queda, o que seria com um paiz como o nosso, nesga de terra
perdida n'um canto da peninsula?

Transportae o exemplo a Portugal. Imaginae um conflicto que tenha de
resolver-se manh pelas armas. Sonhae que um exercito hespanhol nos
arromba a fronteira e que uma frota couraada mette a pra s aguas do
Tejo.

No urje que a hypothese seja provavel; basta que seja possivel.

E depois?

No levanteis a tempo as foras moraes do paiz; no lhe insuffleis nos
pulmes o ar puro e vivificador dos grandes e generosos sentimentos; no
o moraliseis com o exemplo e o conselho; no lhe ensineis que, acima do
que se toca, existe o que se sente, e admirae-vos depois de que no haja
quem possa suster a bandeira da patria, ou vencer na defenso de vossa
liberdade e de vossas fortunas, que seriam o primeiro pasto do dente de
guerra.

Mas (hypothese absurda, por impossivel) no ha resistencia. Um passeio
militar conduz o inimigo ao corao do paiz. Os quatro uhlanos de Nancy
resuscitam entre Elvas e Lisboa. E julgaes, vs capitalistas, vs
proprietarios, vs industriaes, vs commerciantes, que os vossos fundos,
os vossos campos, as vossas fabricas e os vossos armazens ficariam
livres de mil deploraveis contingencias? Enganaes-vos. Para comear,
pagarieis as despezas da invaso. Depois, a fibra popular, passado o
primeiro estonteamento, reagiria contra o hespanhol, que se pde ser
excellente para amigo e quasi irmo, deve ser detestavel para amo e
senhor.

No se desfaz n'um dia o que fizeram oito seculos de odios e luctas.

Uma Polonia portugueza morderia sempre o flanco de uma Russia
castelhana.

E que farieis vs ento, apertados entre o interesse e o patriotismo?

Collaborarieis na empreza da restaurao, trabalho tanto mais difficil
quanto mais o invasor se houvesse internado no reino, e a reaco
tivesse de tomar corpo na presena de quem andasse j na posse militar
do paiz? Mas ento o vosso dinheiro continuaria a custear as despezas da
guerra; o vosso trabalho pertenceria  communidade em perigo, e de
vossos predios, bombardeados e destruidos, se faria o parapeito do
reducto inimigo ou o baluarte dos defensores da nao.

Mas (nova e absurdissima hypothese) aguilhoados pelo instincto da
conservao, e pisando as tradices da nacionalidade portugueza,
acceitaveis o facto consummado e formaveis ao lado do invasor hespanhol.

_Quid inde_?

Trocarieis ento uma guerra politica por uma guerra social; guerra de
pobres contra ricos; guerra das massas contra as classes favorecidas;
guerra do proletariado patriota contra a burguezia satisfeita; guerra do
passado e do futuro contra o presente; guerra que semearia odios eternos
entre os que recalcitrassem e os que consentissem; entre os portuguezes
por f e os ibericos por transaco.

E ai d'estes, se um inesperado successo, dos que por ahi desconcertam as
mais bem combinadas presumpes, viesse no espao de um sol a outro sol
restituir a Portugal a roubada independencia.

Quem os salvaria ento do furor das turbas amotinadas?

Quem lhes poria as propriedades ao abrigo do archote?

Quem lhes daria a mo no sorvedouro que se lhes abriria debaixo dos ps?

Ento, ninguem. Antes, o paiz.

Mas um paiz que torne absolutamente impossiveis as hypotheses que ahi
ficam phantasiadas, e que as torne impossiveis pela convergencia de
todas as vontades, pelo emprego honesto e patriotico de todas as foras
no grangeio intelligente e honrado do patrimonio commum.

 difficil hoje que quatro milhes de homens possam resistir a quatorze
d'essas unidades.

Restabelea-se o equilibrio, ganhando-se em ordem; em boa e liberal
politica; em sabia e recta administrao do paiz pelo paiz; em respeito
de estranhos e nacionaes o que a natureza nos faz perder em extenso e
em numero.

Portugal bem administrado pde arcar peito a peito com a Hespanha
diluida em vinte parcialidades e estrebuxando nas convulses de uma
desorganisao, que ainda no disse a ultima palavra.

Porm se a esse estado responder-mos com um estado igual, a questo do
peso physico obedecer s leis da materia.

Quaes ellas so, todos o sabem.


XII


Capitalistas e proprietarios, industriaes e commerciantes, ponde a
intelligencia, j que felizmente ainda lhe no podeis pr os olhos, no
que seria a bancarota.

Se hoje vos queixaes de que os vossos fundos, os vossos predios, as
vossas fabricas, os vossos armazens padecem com o estado do paiz, o que
seria se desabasse tudo n'uma ruina geral?

E geral teria ella de ser.

Fallido o thesouro,  natural que essa fallencia arrastasse a grandes
difficuldades a maioria dos estabelecimentos de credito. Dado isto, a
ramificao do desastre chegaria  mais solitaria cabana e ao mais
obscuro balco.

Tanto no espelho dourado dos sales da opulencia, como no barro vidrado
da baixella do pobre, se reflectiria algum gesto de tristeza ou de
angustia.

O luxo retirar-se-hia diante da parcimonia. A parcimonia diante do
constrangimento. O constrangimento diante da fome.

Porque, no vos illudaes, o paiz vive em grande parte  sombra do
estado.

Morto este pela fome, a fome de uma parte do paiz sairia directamente
d'essa ligao apertadissima.

De que vive geralmente o funccionario publico, quer elle se chame
empregado, professor ou militar?

De que vivem os portadores de milhares e milhares de contos de ris em
titulos de divida fundada espalhados no paiz?

A repercusso d'essa desgraa chegaria immediatamente a todos, porque 
em grande parte o estado quem vos paga o juro de vossos capitaes, a
renda de vossos predios, os artefactos de vossas officinas e os artigos
de vosso commercio.

A incidencia da bancarota, o mais pesado de todos os impostos, porque
arruina o capital, procurar-vos-hia em todas as transaces da vida
social, percorrendo por vias mysteriosas todas as representaes do
trabalho e da riqueza.

       *       *       *       *       *

Qual seria a depreciao de todos os valores actuaes pela raridade, e,
portanto, pela carestia da moeda cunhada?

Que somma de moeda chegaria para as necessidades da circulao e da
produco, se o credito a no a auxiliasse com a sua poderosa
camaradagem?

Que soccorro vos daria o credito em frente d'esse cataclysmo, elle, a
melindrosissima entre as mais melindrosas das molas sociaes, e que o
mais ligeiro abalo contrae, como a folha da sensitiva se fecha ao
contacto de um s dedo que a toque?

E comprehendeis vs sem o credito as sociedades modernas, em que uma
actividade devoradora, que  muitas vezes uma fico, necessita de
outras fices para mover os cem braos com que se agita o mundo
contemporaneo?

       *       *       *       *       *

Tendes-vos lembrado de quaes seriam as consequencias politicas da
bancarota?

Os vinculos sociaes e politicos, infelizmente j de si to frouxos,
desatar-se-hiam n'uma dissoluo completa.

As paixes ruins, explorando a miseria publica, recrutariam n'ella
perigosos batalhes.

A especulao tomaria a soldo a revolta.

E no tumultuariam unicamente na praa publica os pretorianos do motim;
os que, sem o estimulo de uma ida, passeiam nas ruas apenas a ambio
de quem os paga, formulada em gritos indifferentes aos que recebem o
estipendio, e que manh gritaro com identico enthusiasmo a favor de
quem na vespera cubriram de vituperios.

Tumultuaria tambem na rua a fome dos verdadeiros necessitados; dos que
iriam esquecer na sedio as lagrimas da familia, ou que, movidos por um
vislumbre de esperana, pediriam a uma transformao radical a cura de
suas desgraas.

No seria ento um partido srio o que tomaria as redeas do poder. A
logica das cousas, a mais inexoravel de todas, pol-as-hia nas mos dos
mais audaciosos, nos momentos em que a audacia  tudo, e arredaria para
o lado os pacificos e illustrados cultivadores da ida apparentamente
victoriosa, mas que seria na realidade envilecida e conspurcada pela
cooperao material de homens para quem servisse s de mentirosa
bandeira.

E imagine-se o que seria se, livre das piozes de qualquer superioridade,
que o contivesse, o aor podesse pairar  solta com a omnipotencia de
sua vontade em toda a extenso do facto e da lei!

       *       *       *       *       *

A moral soffreria igualmente graves affrontas.

No  quando falta o po que mais se escutam os conselhos d'ella.

A probidade recuaria diante da astucia e da violencia.

A reserva, abandonando a prudencia, rebentaria em exploses de colera,
que mais activariam as chammas do incendio.

Aonde houvera a espontaneidade ficaria a coaco.

Ao pudor da familia segredaria o demonio do ouro suas infernaes
tentaes.

O proprio archanjo da caridade tentaria debalde chegar-se s camas dos
enfermos nas misericordias e hospitaes, porque s alli acharia leitos
nus, aonde,  fora de miseria nas arcas vazias, no haveria misearias
que proteger e consolar.

       *       *       *       *       *

A bancarota!

J encarastes bem essa atroz eventualidade?

No  a venda da herana por um prato de lentilhas;  a venda do
patrimonio por um espectaculo de horrores.

A bancarota  o prejuizo material multiplicado pelo sobresalto do
espirito; operao que, em virtude d'um phenonemo inevitavel, produz
sempre um resultado superior  interveno dos dois factores que n'ella
collaboraram.

A bancarota ainda  mais do que tudo isso. Mais do que a pobreza; mais
do que o perigo; mais do que o descredito; mais do que a barbaridade;
mais do que a sedio.

 a deshonra do nome da patria!

E querereis, vs os que pensaes, que possuis e trabalhaes; vs todos os
que andaes na vanguarda do movimento nacional, que o nome do vosso paiz
fique deshonrado na historia do seculo?

No  possivel.

E no basta que a bancarota no seja um facto inevitavel;  necessario
que o no parea.

Porque em pontos to delicados parecer  quasi ser.

Intervinde, intervinde, pois, que ainda  tempo. Salvae o paiz pelo
paiz. Saccudi o habitual torpor e trabalhae desde j n'esta empreza to
util para vs, como gloriosa para o nome portuguez.

No se vos d um grito de terror no meio da batalha.

 uma voz de--sentido!


XIII


Resumindo:

Fuja o paiz da ruina equilibrando, quanto possivel, o oramento do
estado.

Equilibre o oramento augmentando as receitas.

Augmente as receitas desenvolvendo a riqueza.

Desenvolva a riqueza promovendo a confiana.

Promova a confiana tendo governos estaveis.

Tenha governos estaveis inaugurando boa politica.

Inaugure boa politica criando vontade propria.

Crie vontade propria adquirindo noes de seus direitos e de suas
responsabilidades.

Adquira essas noes por meio do desenvolvimento do criterio moral, que
anda to descurado e empobrecido, devendo ser o motor de qualquer
sociedade que no queira finar-se na impotencia, na ruina ou na
desordem.

       *       *       *       *       *

Assim como a egreja nega o cho bento ao corpo dos suicidas, a
posteridade atira para a valla commum da historia os nomes dos povos que
morrem s suas proprias mos.

Haja f na salvao do paiz e o paiz salvar-se-ha. Porm se Portugal, no
correr dos annos, tiver algum dia de baixar  cova, que possa ao menos
uma cruz negra dizer s geraes futuras, no cemiterio das naes: _Aqui
jaz um povo que viveu como honesto e morreu como bravo_.

FIM




POST-SCRIPTUM


Depois de estar na imprensa este pequeno trabalho deram-se dois factos
importantes: a rendio de Metz aos Prussianos e uma crise ministerial
no governo do nosso paiz.

N'esta approximao no vae a menor sombra de epigramma.  uma questo
de datas. Nada mais e nada menos.

 puridade se affirma que no se quer estabelecer relao alguma entre
Moltke, ou Bismark, com os homens d'estado que esto gerindo os negocios
de Portugal.

       *       *       *       *       *

Caiu Metz. A toupeira napoleonica parece ter minado o baluarte aonde
cento e cincoenta mil soldados albergavam a honra militar, que,
violentamente affrontada em Sedan, fra depositar nas mos de Bazaine as
tradies gloriosas do exercito francez.

Pobre Frana! Se assim foi, no bastava que vinte annos de compresso e
de immoralidade te houvessem debilitado o brao e o corao; faltava-te
ainda que um marechal do imperio te arrancasse parte da armadura, a fim
de que a lana inimiga te chegue melhor ao corpo nu, quando um claro de
patriotismo comeava a tingir em cr de sangue as barricadas heroicas de
Saint-Quintin e Chateaudun!

Pobre me abandonada! No era pouco que os teus proprios filhos para ahi
te deixassem rasgar o seio s mos da soldadesca de alem-Rheno;
faltava-te ainda que um d'elles, arrancando a cora virginal da cidade
impolluta, te ferisse com ella no rosto, quando lhe sorrias de
esperana, por entre as lagrimas de teu penoso martyrio!

Na presena das traies de que  victima a Frana, no cabe o corao
no peito de quem tem alma para sentir, e uma parte d'elle va a
consubstanciar-se no do povo cuja tunica parece estar sendo jogada por
Napoleo sobre um tambor prussiano.

Para quem est escrevendo as presentes linhas, a causa da Frana, em
guerra com a Prussia, foi sempre a do interesse liberal e portuguez.

Bonaparte era um accidente que o furaco podia varrer.

O rei Guilherme  um systema, que ter sempre por objectivo a cruz da
espada no calvario da liberdade politica.

Hoje, porm, collabora o sentimento com a razo.

Se o prisioneiro de Wilhelmshohe viesse a Paris sobre um canho de
Krupp, antes Rochefort na presidencia do que Bonaparte no throno.

Antes o incendio do que a podrido.

Antes o sangue do que o lodo.

A desordem pode passar. A deshonra fica.

Se a restaurao consolidasse um precedente de tal ordem, a moralidade
espavorida teria de arrancar o vo do occidente da Europa, levando
comsigo nas azas os ultimos lampejos da decencia e as ultimas vibraes
do patriotismo.

Praza a Deos que a Frana possa guardar esse resto, sem subverter os
alicerces da sociedade, no desculpavel delirio de uma nao que v a
morte de perto.

       *       *       *       *       *

Em Portugal correm as cousas menos tragicamente.

Organisou-se uma administrao debaixo da presidencia do sr. marquez
d'Avila e de Bolama, o mais attendido conselheiro da finada dictadura, e
sob a immediata inspirao do sr. bispo de Vizeu, um dos mais
intrataveis adversarios da situao creada pelo sr. duque de Saldanha.

Esta incompatibilidade, que j dera anteriormente em resultado a sada
do sr. marquez d'Avila e de Bolama do gabinete presidido pelo sr.
marquez de S da Bandeira, produziu novamente... a junco d'esse
cavalheiro e do sr. bispo nos bancos do poder.

Ha, pois, _governo_, mas segundo o verdadeiro espirito do systema
representativo no ha _ministerio_, porque os actuaes conselheiros da
cora, pessoas individualmente dignas de todo o respeito pelos seus
dotes de corao e de intelligencia, no representam mais do que uma
colligao de homens, sem corpo de doutrinas que os possam graduar em
representao de _partido_.

Que no ha um verdadeiro partido atraz do governo, prova-o tambem
exuberantemente a necessidade, em que se julgaram ver os organisadores
da situao, de irem buscar alguns ministros fra do parlamento, o que
constitue uma violao flagrante das praticas constitucionaes e seria um
erro indisculpavel se houvesse um partido ministerial, forte e
preponderante, que tivesse dentro de si os elementos para a gerencia de
todas as pastas.

Este raciocinio deve forosamente ser exacto porque  impossivel que os
deputados verdadeiramente ministeriaes, se os houvesse, se deixassem
preterir em publico, como pessoas, por outros cavalheiros de opinies
pouco definidas, e que no haviam recebido o sacramento da confirmao
na urna popular.

Viver, portanto, o novo governo o tempo que vivem as rosas; ou durar o
que as rosas no duram, se lh'o consentirem as opposies que lhe esto
defronte e que faro bom servio ao paiz no precipitando nova crise,
que teria de resolver-se por alguma nova colligao.

Impotencia diante de perplexidade. Governo sem fora na presena de
opposio sem norte certo.

E ainda no ser chegada a opportunidade de regularisar a politica do
paiz?

O que obsta a que se comecem a agrupar desde j os elementos
progressistas que andam dispersos por historicos, regeneradores e
reformistas, e reconstruam um verdadeiro partido, adoptando um
programma, no de sonoras banalidades mas de pontos determinados,
indicando desde logo a maneira pela qual os resolveriam no dia em que
fossem poder?

O que impede que faam outro tanto os elementos conservadores,
espalhados igualmente por historicos, regeneradores e reformistas, e que
podem at achar dentro do governo actual um chefe, que trocaria assim
uma posio falsissima por outra mais digna de um homem d'estado?

Resolvida esta natural e indispensavel delimitao, porque no
auxiliariam ambos os partidos o gabinete, no a resolver a questo de
fazenda, porque essa no se resolve s com impostos e crtes na despeza,
mas a votar, desde j, os tributos e as economias que so urgentissimos
para desaffogar o thesouro das necessidades mais ameaadoras?

Feito este grande servio; organisados os partidos durante as treguas,
porque no se feriria depois uma grande batalha parlamentar entre
progressistas e conservadores, indo o governo a quem saisse victorioso
da lucta?

 possivel que reagissem contra estas indicaes salvadoras os estados
maiores de algumas das actuaes parcialidades, os quaes talvez desejem
que subsistam as divises existentes, para terem maior importancia
dentro de seus pequeninos exercitos.

Se isto  verdade, prepare-se ento o paiz, e com tempo, a fim de que,
chegado o momento opportuno, possa dar a lei a quem se mostrar rebelde
aos conselhos do interesse publico.

Se proceder com energia e concerto, poder impor aos seus representantes
condies de boa politica e ter governos estaveis, obviando igualmente a
que dissolues repetidas corrompam cada vez mais os costumes da nao.

Porm se continuar a permittir a anarchia politica em que est vivendo a
responsabilidade ser sua.

As consequencias d'ella j se esto sentido.

At aonde chegar a debilidade do paiz?

Para o fundo, at  perda de nossa fortuna?

Para atraz, at  perda de nossa existencia?

Oxal que elle tome o caminho dos astros, at  riqueza e 
independencia,  ordem e  liberdade!

2 de novembro de 1870.
